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quarta, 19 de setembro de 2018

Aqui Rubens Pontes: Meu poema de sábado / Morrer Moça, de Maria Antonieta Tatagiba

 

Maria Antonieta Tatagiba, nascida em setembro de 1895 em São Pedro do Itabapoana, atual Mimoso do Sul, foi a primeira
mulher capixaba a publicar um livro e a gerenciar um jornal no Espírito Santo.

Patrona de uma das cadeiras da Academia Espírito-santense de Letras, teve reconhecida sua poesia pelo crítico Francisco Aurélio Ribeiro (à direita) como “bucólica panteísta, neo-simbolista, pouco representativa da eferverscência modernista da época em que viveu”.

Ao revés, deixou marcada a alma simples, neoarcádica de quem se dizia uma “tocadora de frauta”, título de um de seus livros.

Neo-simbolista foi Maria Antonieta Tatagiba (1895-1928); publicou, em 1927, seu único livro, Frauta agreste, que se destaca, pelo domínio tanto da técnica como da emoção, entre os livros de poesia escritos no Espírito Santo na primeira metade do século.

Mendes Fradique escreveu sobre Maria Antonieta e seu livro uma crônica em que, no estilo derramado da época, lamenta que Frauta agreste tenha passado inteiramente despercebido à crítica nacional. Diz ele:

– “Maria Antonieta morreu num recanto de província, longe do cartaz da livraria, longe do bracejamento dos “après-midi”, longe da intriga dos grupinhos literários; morreu para as bandas da terra simples, entre a paisagem que tão bem cantou em sua Frauta agreste, entre as cores ameníssimas das aquarelas do campo, que tão magistralmente esbateu, nos seus poemas, nas suas baladas, nos seus sonetos. E não pudera morrer em melhor sítio. Ela que fez da natureza o seu manancial de emoções estéticas; ela que teve nas coisas de seu torrão natal outros tantos motivos de arte sua; ela que sorria à luz louçã das manhãs serranas, e tanta vez chorou a melancolia das tardes chuvosas; ela que hauria no oxigênio quente dos arvoredos a fragrância de seu estro encantador; ela que viveu a poesia dos vales sertanejos e pulsou com a natureza aos mesmos latejos da mesma seiva — não poderia, morrendo, ser mais feliz do que foi, pois morreu dentro da mesma vida, entre tudo quanto na vida mais havia amado.

MORRER MOÇA

Maria Antonieta Tatagiba

“Os amados dos deuses morrem novos” – Byron

Que bom morrer quando se é moça e amada!
Indiferente, forte,
Triunfar de quimeras enganosas
E ir dormir entre rosas
Frias rosas na face macerada
O alvo Sonho da Morte!
Morrer quando se é moça é dita imensa
Às eleitas cabida…
A ventura é perfume que se evola
E quase não consola…
Tão ligeira, tão leve, não compensa
Os espinhos da vida.
Morrer moça é morrer quando se deve!
É ser no último arranco

Da alma que foge, um lindo sol de estio E, bem longe, o sombrio
Espetro da velhice a triste neva
Sobre o cabelo branco.
Morrer moça… É assim que vou morrer!
É a boca que, fremente,
Beijaste em horas de Paixão e Sonho
Num túmulo tristonho
Breve irá se ocultar no florescer
Do verão mais fulgente.

rubens pontes
é jornalista,
poeta,
escritor,
historiador

– Passos, saltos & queda – livro de Rubens Pontes no linki abaixo:

https://rubenspontes.com.br

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