Menu

quinta, 16 de agosto de 2018

Aqui Rubens Pontes: Meu poema de sábado / Atética, de Viviane Mosé

“Tudo que nasce tende a morrer para que a vida continue. É porque sabemos que vamos
morrer que temos urgência de viver.”

 

O pensamento é da intelectual capixaba Viviane Mosé, nascida em Vitória no dia 16 de janeiro de 1964,
radicada no Rio de Janeiro desde 1992, cidade onde ganhou projeção nacional como poeta, psicóloga, psicanalista.

Mestre e doutora em filosofia, tem sido uma das palestrantes mais requisitadas por empresas e entidades

brasileiras e multinacionais para discorrer sobre educação, cultura, sociedade – BNDES, Rede Globo, Banco Itaú, Banco do Brasil, Petrobrás, SESC, SENAI, SENAC, FIRJAN, FIESP, Caixa, Mercedes Bens…

Viviane Mosé tem tido destacada presença nos meios de comunicação, sendo colaboradora fixa do programa

de Fátima Bernardes na TV Globo, comentarista da Rádio CBN – programa Liberdade de Expressão, e presença em quadros do “Fantástico”, também da TV Globo.

Lembram-me os produtores da Rádio Clube da Boa Música ter a intelectual capixaba alguns poemas musicados, em parceria

com a cantora Mart’nália, como “Contradição” e “Você não me balança mais”, presente nelas a luminosidade do seu talento como poeta (Ouça os vídeos no final da coluna).

É sobretudo sobre a poeta capixaba, que mantem vivos seus laços com a terra em que nasceu, que a coluna e o Portal Don Oleari se debruçam,

lembrando que seu primeiro livro de poesia foi lançado em Vitória, em 1990.

Admiradora de uma das mais fulgurantes figuras da nossa literatura, confessou Viviane Mosé (nos fazendo lembrar Tião Martins):

– “É humilhante ler Clarice Lispector. Ninguém precisa escrever mais nada depois dela”.

Esta coluna, a Rádio Clube da Boa Música e o Portal Do Oleari, porém, se rejubilam com o fato de haver a poeta, apesar do que disse,

ter escrito versos de tanta beleza como os escolhidos para publicação neste final de semana.

Atética

Viviane Mosé

Nunca fui de ter inveja, mas de uns tempos pra cá tenho tido.
As mãos dadas dos amantes tem me tirado o sono.
Ontem, desejei com toda força ser a moça do supermercado.
Aquela que fala do namorado com tanta ternura.
Mesmo das brigas ando tendo inveja.
Meu vizinho gritando com a mulher, na casa cheia de crianças,
Sempre querendo, querendo.
Me disseram que solidão é sina e é pra sempre.
Confesso que gosto do espaço que é ser sozinho.
Essa extensão, largura, páramo, planura, planície, região.
No entanto, a soma das horas acorda sempre a lembrança
Do hálito quente do outro. A voz, o viço.
Hoje andei como louca, quis gritar com a solidão,
Expulsar de mim essa Nossa Senhora ciumenta.
Madona sedenta de versos. Mas tive medo.
Medo de que ao sair levasse a imensidão onde me deito.
Ausência de espelhos que dissolve a falta, a fraqueza, a preguiça.
E me faz vento, pedra, desembocadura, abotoadura e silêncio.
Tive medo de perder o estado de verso e vácuo,
Onde tudo é grave e único. E me mantive quieta e muda.
E mais do que nunca tive inveja.
Invejei quem tem vida reta, quem não é poeta
Nem pensa essas coisas. Quem simplesmente ama e é amado.
E lê jornal domingo. Come pudim de leite e doce de abóbora.
A mulher que engravida porque gosta de criança.
Pra mim tudo encerra a gravidade prolixa das palavras: madrugada, mãe, Ônibus, olhos, desabrocham em camadas de sentido,
E ressoam como gongos ou sinos de igreja em meus ouvidos.
Escorro entre palavras, como quem navega um barco sem remo.
Um fluxo de líquidos. Um côncavo silêncio.
Clarice diz que sua função é cuidar do mundo.
E eu, que não sou Clarice nem nada, fui mal forjada,
Não tenho bons modos nem berço.
Que escrevo num tempo onde tudo já foi falado, cantado, escrito.
O que o silêncio pode me dizer que já não tenha sido dito?
Eu, cuja única função é lavar palavra suja,
Neste fim de século sem certezas?
Eu quero que a solidão me esqueça.

Rubens Pontes
é poeta, escritor,pescador, prosador

– Passos, saltos & queda – livro de Rubens Pontes no linki abaixo:

https://rubenspontes.com.br

Abaixo, dois vídeos, duas parcerias de Viviane Mosé com Mart’nália. A primeira, contando também com Emílio Santiago no vocal.

Comentários