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tera, 19 de junho de 2018

Luiz Trevisan: Violência ameaça Jeca Digital

 

 

Pense naquele cenário do terreiro rural folclorizado pelo Jeca Tatu, ele cercado de animais domésticos, com aspecto de verminose, a cutucar o bicho de pé com canivete de cortar fumo de rolo.

Corta, já deu.

Agora entra em cena o Jeca Digital, evolução do Jeca Total, que trocou o cavalo pela moto, o fogão a lenha pelo micro-ondas, que calça botas, opera máquinas, manuseia celular, se atualiza pela TV a cabo.

E se dá ao luxo de viajar nas férias a Buenos Aires e Santiago naquele “pássaro prateado” que cruzava o céu da aldeia deixando seus antepassados perplexos.

Porém nem tudo é prosperidade em nossos campos. Nos últimos meses, os roubos e assaltos a fazendas e sítios crescem de forma alarmante por todos os cantos.  Ou quase todos. Então, entram em cena as duas faces antagônicas do desenvolvimento ilustradas por um antigo anseio de uma comunidade típica do interior capixaba.

Ainda sem asfalto, a comunidade agropastoril pastava para escoar a produção nos períodos de chuva e lama, penava com os buracos e a poeira avermelhada dos longos estios.

Após muita mobilização junto a lideranças políticas, a comunidade recebeu o sinal tão aguardado: o desejado asfalto, conectando com uma pista a cerca de seis quilômetros, fora aprovado pelo governo, após sua inclusão no programa “Caminhos do Campo”.  Festa, missa de ação de graça, procissão, quermesse na comunidade etc.

Dias antes de ser oficializado o início da obra, um visitante circulou pela comunidade e ficou impressionado com a placidez daquele lugar com pouco mais de duas dezenas de moradias, um ginásio poliesportivo ao centro, uma igrejinha, o cemitério ao fundo e os ermos do campo sem fim.

Antes de partir, em conversa com um produtor local, o visitante fez uma observação inquietante:

– “Olha, o asfalto que vem por aí trará facilidades e comodidades, mas também trará transtornos. Acho que vai acabar um pouco esta tranqüilidade de dormir com a janela aberta, de deixar animais soltos, as máquinas no terreiro e o café na tulha. Bandidos gostam de asfalto…”

O produtor coçou a orelha com ares de preocupação, mas preferiu pensar nos benefícios que teria e minimizar a insegurança anunciada.

Asfalto pronto, festa na comunidade, inauguração com pompa e circunstância, a presença do governador, prefeito e outras autoridades ali exaltando progresso e desenvolvimento. “É um sonho realizado” resumia o sentimento dos moradores gratificados, porém insaciáveis, como é da natureza humana.

Logo eles passaram a enumerar outros objetos do desejo, como expandir aquele asfalto até outras comunidades vizinhas,  instalar torre de telefonia celular para melhorar a cobertura na região, etc. Tempos depois, o visitante retorna e quer saber “como andam as coisas agora, depois do asfalto”.

O relato que passou a ouvir confirmava sua previsão alarmante. Aumentara a circulação de pessoas desconhecidas por ali, os registros de furtos e assaltos violentos começaram a se suceder, assim como circulação de drogas. Volta e meia, algum trabalhador rural cheio de crack dava escândalo aqui e ali.

Eram os “males do progresso” dando as caras e gerando intranqüilidade. E como naquele famoso poema do Maiakovski – onde a falta de reação faz a bandidagem ir se aproximando e ficando cada vez mais ousada – para a situação não sair do controle, a comunidade já pensa em milícia rural armada, como fazem fazendeiros de Goiás, Minas e de outras regiões. Elementar: se o policiamento existente mal dá para cobrir as cidades, como se proteger da violência nos grotões?

Além de recorrer às milícias para proteger suas máquinas, colheitas, bens e a própria vida, as comunidades interioranas passaram a ter um sonho de consumo invertido. Nas que ainda não têm asfalto, cresce a resistência a esse tipo de melhoria. Já consideram que é melhor investir na chamada pavimentação provisória, à base de brita, escória de calcário, etc., nos períodos de chuva, do que estabelecer uma conexão direta com o perigo circulante. E aonde o asfalto chegou, já existe movimento para que não vá adiante.

Raciocínio elementar que anda pairando na cabeça do Jeca Digital feito manual de sobrevivência: melhor a lama, a poeira e o buraco do que viver, dia e noite, faça chuva, faça sol, sob o perigo que vem de longe. E que se mostra cada vez mais próximo. Pensando bem, o Jeca Tatu, que tinha as lombrigas como maior ameaça, era feliz e não sabia.

Luiz Trevisan

é jornalista, compositor,

escritor

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