Menu

segunda, 10 de dezembro de 2018

Aqui Rubens Pontes: Meu poema de sábado / Minha última duquesa, de Rober Browning

Rubens Pontes, de Capim Branco, MG

 

 

Lembro-me  – que tenho ainda razoável memória – dos estudos de física no velho Ginásio “Afonso Arinos”, em Belo Horizonte/MG,  sobre a chamada Lei de Coulomb, concluindo

que “os opostos que se atraem”. O tema é no mínimo curioso, sobretudo diante das conclusões da pesquisadora Emma Peison afirmando, depois de estudos com um milhão de “matches”,

que as pessoas são “esmagadoramente interessadas em alguém parecidas com elas”.

O Portal Don Oleari chega a uma conclusão: os opostos se atraem, mas os semelhantes se acertam.

É o que esta coluna pretende abordar, sem presunção de profundidade, levantando o relacionamento de casais que conciliam os dois fatores,

semelhança na inspiração criativa e não necessariamente com a mesma  postura  diante da vida. vida.

Buscamos, para ilustrar essas duas versões de um mesmo tema,  casais formados a partir de sua atividade no campo sensível da literatura.

O casal Marly e João Cabral ao centro, ladeados pelos padrinhos, Clarice Lispector e Manuel Bandeira.

Aqui mesmo, no Brasil, é numerosa a constatação do fato e do feito,  como ocorreu com a extraordinária poeta de Cachoeiro do Itapemirim/ES

Marly de Oliveira.,  casando-se com um dos mais laureados poetas brasileiros que foi João Cabral de Melo Neto. Gênios na poesia,

muito diferentes na maneira como  se conduziram  no meio em que viveram.

Jorge Amado e Zélia Gattai;  Heloisa Seixas e Rui Castro,  Maria Colasanti e Afonso Romano de Sant’Ana (à direita).

Lembremos  ainda dos casais Ernest Hemingway e Martha Gellhorn; Jean Paul Sartre e Simone de Beauvoir;

Scott Fitzgeral e Zelda Beavic;, Hannah Arendt e Martin Heidegger, os fascinantes poetas Elizabeth Browning (*) e Roberto Browning…

(*) Elizabeth Barrett Browning (à direita)

– 6 de Março de 1806 / 29 de Junho de 1861.

Sensibilidade à flor da pele, emoções perturbadoras, sonhos muitas vezes impossíveis e ainda assim

a maioria dos casais que se aproximaram atraídos pela atividade no campo da criação literária,

sobreviveu no tempo e no espaço.

A coluna Aqui Rubens Pontes, o Portal Don Oleari e a Rádio Clube da Boa Música (desculpe a imodéstia solidária – cada vez melhor )

homenageiam os intelectuais que se uniram em nome do amor, sentimento inspirador de suas melhores criações, selecionando para leitura neste sábado

um poema de Robert Browning, “Minha última duquesa”, nossa homenagem a todos os que, semelhantes ou não,  uniram suas vidas em nome do amor.

Minha Última Duquesa

Robert Browning

Ali está a minha última duquesa
Na parede. Parece viva. Que beleza
De obra! FraPandolfo não poupou esforço
E ei-la de corpo inteiro, não em busto ou torso.
Você não quer sentar-se para ver melhor?
Não por acaso mencionei o seu pintor,
Pois não costumo a estranhos olhos desvelar
A profundeza da paixão que há nesse olhar,
Que só a mim é dirigido (pois só eu
Abro a cortina), mas eu sinto, percebeu?,
Que quem a vê logo se indaga: de onde veio
Esse olhar? Com você, meu caro, não receio,
É a mesma coisa. Pois eu digo: simplesmente,
A presença do esposo é pouco para a mente
Que procura a razão daquela mancha rosa
De prazer no seu rosto. Uma frase ociosa,
Talvez, de FraPandolfo. “Eu acho que o seu manto
Cobre demais o seu pulso”, ou: “Não pode tanto
A arte, não, reproduzir não pode o leve
Rubor em sua garganta, a ir e vir tão breve”.
Galanteria cortês, não mais – o suficiente
Para fazer brilhar um rosto, de repente.
Tinha um jeito, a duquesa, um coração aberto
Ao gostar… ao olhar… Contentamento certo,
O dela; incerto, o meu… Ela não distinguia
Entre gozar das graças que eu lhe concedia,
O declínio da luz ao sol poente, o ramo
De cerejas que um bobo serviçal do amo
Lhe oferecia, a mula branca que montava
Pela terraça, a rir – a tudo ela igualava
Com uma boa palavra, ou um rubor, ao menos.
Que agradecesse, tudo bem – mas é somenos
Equiparar o dom dos novecentos anos
Do meu nome a presentes sem nome? Até planos
De dissuadi-la… Rebaixar-me a isso… O dom
Da palavra me falta… E como, alto e bom som,
Chegar a ela, assim: “Olhe, sua atitude
Me desagrada, passou do ponto, mude”?
Que aceitasse o sermão e até mostrasse medo,
Isto, pra mim, seria ceder, e eu nunca cedo.
Claro, meu caro, de passagem, um sorriso
Ela me dava – mas a quem não dava? Aviso
Não dei, dei ordens: os sorrisos, de imediato,
Murcharam. Mas já pode levantar-se… É fato…
Nesse retrato, agora, ela parece viva…
Podemos ir? Embaixo, a companhia festiva
Nos aguarda. Repito: a generosidade
Do conde, seu senhor, sem dúvida há de
Saber pesar a minha justa pretensão
Ao dote da menina, a cujas graças vão
Os meus melhores sentimentos. De passagem,
Olhe essa peça de escassíssima tiragem:
É um bronze de Netuno domando um delfim,
Que Claus de Innsbruck fez fundir só para mim.

Rubens Pontes é jornalista,

assessor  de comunicação empresarial, poeta, escritor

– Passos, saltos & queda – livro de Rubens Pontes no linki abaixo:

https://rubenspontes.com.br

 

Comentários