Menu

quinta, 16 de agosto de 2018

Tião Martins: Paixão segundo Charles Bukowski

Tião Martins, de Belo Horizonte/MG.


As mulheres que conheço – e não são muitas – odeiam Charles Bukowski, escritor que trata as mulheres com um misto de paixão, desprezo e violência.

Algumas chegam a vomitar de desgosto, após meia hora de leitura. E poucas se encantam com a violência, o exibicionismo e a sexualidade envenenada do autor.

Já os caras que gastam algum tempo por ano com qualquer literatura discutem até hoje se convém levar Bukowski a sério ou se não passa de um pândego, falso bêbado, péssimo escritor e personagem inconsistente de histórias escritas só para provocar nojo e náusea.

Alguns, mais audaciosos, negam já ter lido qualquer texto dele. Outros dizem que o leram porque seria intolerável ignorar um autor que vendeu milhões de livros em todos os cantos da terra.

Wander Piroli, um dos quatro melhores contistas do Brasil (você pode escolher livremente os outros três e até se incluir entre eles), leu todo o Bukowski disponível no Brasil e talvez tenha extraído alguma inspiração na linguagem de sarjeta do escritor, que retratava a si mesmo como um sujeito capaz de espancar mulheres sem motivo algum, após ingerir meia garrafa de uísque de boa ou má qualidade.

Joana, pintora de homens, mulheres e peixes, mora em Saquarema com sua amiga Dora e contou que antigamente – ali pelos seus quinze anos – leu Bukowski como se fosse o mestre dos desesperados, uma espécie de acólito desconsolado com a solidão que se seguiu à morte de Deus. Morte inaceitável, por sabotar qualquer esperança.

– Eu não passava de uma adolescente envelhecida e apaixonada pelo inferno – ela reconheceu.

Naquela tarde de verão, conversamos até o sol desaparecer. Para ser fiel à verdade dos fatos, devo confessar que só ela falou, porque eu nunca havia lido o tal Bukowski e estava mais interessado no corpo liso e cheiroso da amiga que nas peripécias sexuais do escritor.

A própria Lile, quando a conheci em uma praia de Saquarema, confessou que estivera escrevendo durante meses suas “Memórias à Moda de Bukowski”. Entretanto, desalentada por sua pouca idade e ignorância das regras vigentes no submundo das grandes cidades, logo deixara de lado essa tentativa de desnudamento e revolta. Mas nunca abandonou Bukovski.

– É o meu único mestre. Um mestre inatingível.

Andar à toa pelas praias fluminenses durante várias semanas, depois de quase um ano fora do país, foi uma espécie de reconhecimento de tudo que eu deixara para trás, movido pela desconfiança de que o Brasil jamais iria escapar da sua histórica cretinice.

Muitos estavam regressando da Suécia, Dinamarca, Senegal e outras províncias, como dizia o Darcy Ribeiro.

Deixar a França para trás não me custou muito.

Mas precisava saber como viviam as gentes, longe do Rio ou de São Paulo, antes de escolher um pouso definitivo. E Saquarema, pequena se comparada ao seu mar agitado, foi uma opção tão indefensável e sem nexo quanto qualquer outra.

Encontrar Lile na praia, sozinha e disponível para uma conversa à toa no fim da tarde, ainda que sobre o tal Bukowski, o meu ilustre desconhecido, pareceu uma tacada feliz.

Ela abandonara há meses a Escola de Belas Artes, convencida de que desenhar e pintar em pedra e madeira são atividades tão antigas que não valia a pena se submeter a mestres preguiçosos e seguidores de outros mestres preguiçosos, aposentados ou já falecidos.

Por isso, quando decidiu – no fim do dia – que eu merecia conhecer seu trabalho e me propôs trocar a areia por seu atelier, na “Mansão dos Horrores”, como denominava a casa alugada à beira da praia, fingi que comparava a sugestão com outros compromissos imaginários.

Após um minuto ou dois, decidi aceitar o convite. E seguimos descalços para a ruazinha modesta.

– Por que Mansão dos Horrores? – perguntei.

– Apenas uma brincadeira de péssimo gosto, para irritar os meus pais, que não se conformaram com a mudança de rumo, mas pagam o aluguel. E você, onde fica a sua Mansão?

Ainda nem havia pensando nisso, confessei. Deixara a bagagem em uma das pousadas, perto da praia, mas sem compromisso de me hospedar.

– Mais tarde buscamos a sua tralha e você pode passar a noite em nossa Mansão, antes de decidir.

– Nossa Mansão?

– Não entenda mal. “Nossa” significa minha e da Júlia, que aceitou o convite e passa uns meses comigo. Você vai gostar dela, tenho certeza. E podemos falar de Bukowski até de madrugada. Dormimos tarde todas as noites.

Ok, Bukowski, você é quem manda, eu decidi, em silêncio.
E marchamos, pela areia, até a frágil cerca em volta da casa.

Tião Martins

é jornalista

Comentários