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quinta, 13 de dezembro de 2018

Aqui Rubens Pontes: Meu poema de sábado / Aqui, onde o mineral transformado, de Claudio Antonio Lachini

Claudio Lachini e Luis Fernando Levy, quando ainda eram amigos.

 

O Portal Don Oleari defende com ênfase a tese de que só a educação pode mudar o perfil das democracias mal comportadas,

como é o caso do regime vigente no Brasil, e é através de sucessivas eleições, sem interrupção, que se tem a arma capaz de alterar o modus-vivendi de uma Nação.

Sendo assim, é importante entender que o ato de votar é muito mais do que uma obrigação suscetível de multa se não for cumprido, mas, ao revés, um direito constitucional adquirido por cada um de nós e do qual não devemos abrir mão.

A educação é o instrumento capaz de nos conduzir na melhor escolha dos políticos que irão, em nosso
nome,gerir os negócios do País, corrigindo os desastrosos equívocos que as últimas eleições nos tem
impostos.

Foi numa publicação do Portal Don Oleari Ponto Com (que antecedeu ao atual Portal Don Oleari), dia 25 de novembro de 2017, assinada pelo jornalista Cláudio Lachini (foto), que o tema voltou a chamar a atenção de quantos se preocupam com o assunto.

A pergunta que abre a coluna assinada pelo capixaba de Colatina continua ecoando sem resposta:

– “Quando é que se pensaria em deixar filhos melhores para nosso Planeta?”

O texto narra o processo educacional brasileiro, suas falhas e equívocos, uma confissão

dolorida de uma professora tomada de perplexidade diante do catastrófico programa educacional

brasileiro, capaz de fazer balançar corpo e alma de Darcy Ribeiro que via, desde o seu tempo,

um futuro de interrogações sem respostas para as gerações que iriam plasmar o nosso futuro…

Cláudio Lachini e Darcy Ribeiro estavam certos, como vemos e sentimos.

Essa recuperação da leitura nos induz a conhecer a personalidade do jornalista capixaba que exercitou,

principalmente em São Paulo, seu indiscutível talento como homem de comunicação.

Não o conheci pessoalmente, mas passei a admirar a herança deixada por ele para todos nós com a
leitura do

trabalho crítico assinado por Geraldo Hasse (foto à direita), página que contém ainda o poema
escolhido para este sábado.

Rubens Pontes, de Capim Branco, MG”.

Sperandio no limbo

👤Geraldo Hasse

Tomba mais um guerreiro, diz um dos 100 jornalistas que se juntaram em 1968 em São Paulo para
fundar a revista Veja sob a direção do navegador genovês Mino Carta.

Quem tombou desta vez foi Claudio Lachini (Colatina, 1941), que estudou Direito em Vitória antes de
embarcar na canoa paulistana ao lado de uma centena de remadores aliciados em várias capitais e até
em cidades do interior.

Único capixaba entre uma centena de talentosos brasileiros selecionados para suar em madrugadas
tensas na beira do rio Tietê, Lachini compensava a solidão falando por dois e bebendo por três.

Mais do que jornalista-remador, foi poeta e narrador primoroso, como se pode conferir abaixo, lendo
trechos de sua memorável escrita.

Do seu livro O Que Se Viveu, de 1991, que reúne poemas escritos em Vitória, São Paulo, Curitiba e em
alguns momentos no exterior, seleciono “Aqui, onde o mineral transformado”, escrito em 1968, o ano
em que se estabeleceu em São Paulo:

(Parêntesis para destacar o poema selecionado para leitura neste sábado inserido no texto como se
segue: AQUI, ONDE O MINERAL TRANSFORMADO)

“Aqui, onde o mineral transformado/nos esmaga sem contemplação,
somos todos os homens/
que têm coração, ternura e luto. /
O trabalhador que revolve a terra
/no cimento,
recoberto de argamassa e asfalto
/me dá a mão como um irmão./
Pernambuco, Maranhão, Bahia, Rio/
como corcovados bem acabados/
espalmam a tarde como quem
/ainda quer regressar.
/Mas todo mundo vai ficando/
na noite de entorpecer,/
como o entardecer do sanguíneo copo que bebemos”.

Depois, em 2000, ele publicou ANÁBASE, a história do jornal Gazeta Mercantil, do qual foi um dos
diretores.

Era um livro encomendado, para atender aos interesses da Casa, mas o autor colocou nele a alma do
jornalista que acompanhou, por dentro, a evolução da economia brasileira ao longo de três décadas,
dos anos 1970 ao final do século XX. É um livro que não se folheia impunemente.

Basta abri-lo e fixar os olhos nas suas letras graúdas: impossível não cair na leitura, pois Lachini lhe deu um ritmo de crônica.

Os melhores livros do capixaba Claudio Lachini foram os romances históricos Sperandio (Barcarolla,
2007) e Vasco (Barcarolla, 2009), que poderiam inscrever-se tranquilamente no panteão da literatura
fantástica latino-americana.

Leiam o início genial de Sperandio, um capixaba de origem italiana:

– “Meu nome foiSperandio Zibaldone. Estou no limbo, onde habitam os seres vividos na Terra e mortos sem destino,
como sucede aos animais da espécie dita humana. Os demais bichos, de chão, de mar e de ar, não sei
para onde seguem quando falecem, se por acaso algum lugar lhes é destinado. Aqui não sinto frio,
calor, fome, sede, desejo sexual, ambição, medo, ódio ou rancor. Meu estado físico é decomposto ao
natural. O mundo viaja e seu caminho é inexorável. (…) Quem tem sorte, queima até o toco da vela”.
São mais de 200 páginas nessa toada fantástica”.

Por fim, em Vasco, Lachini conta (na primeira pessoa, como se fosse uma autobiografia) a história de
Vasco Coutinho, o primeiro donatário da capitania do Espírito Santo, que chegou à baía de Vitória em
1534.

Para as orelhas dessa obra de 250 páginas escrevi um textinho do qual extraí uma frase-síntese: “Este livro, meio ensaio histórico, meio livro de memórias, tem um encantador sotaque luso antigo que traz à tona um Portugal esquecido, ainda que cantado por Camões”.

Com essa narrativa fantástica, Lachini elevou-se ao nível mais alto da literatura brasileira. Se não foi
festejado nem badalado, talvez a resposta esteja dentro do famoso cesto de caranguejos capixabas, de
onde não se alça unzinho que seja, todos sufocados pela inveja.

LEMBRETE DE OCASIÃO
“Rodar o pião já passou,
a bola ainda é uma possibilidade
e fazer a barba, uma necessidade.”
Vitória. 1968 (Geraldo Hasse).

Rubens Pontes é 

jornalista, radialista,

publitário, poeta, escritor –

Fale com Rubens Pontes: [email protected]

– Passos, saltos & queda – livro de Rubens Pontes no linki abaixo:

https://rubenspontes.com.br

Leia aqui um perfil do jornalista Geraldo Hasse: – Geraldo Hasse: Jornalista do campo

https://www.coletiva.net/perfil-/geraldo-hasse-de-agronomo-a-jornalista-agricola,270557.jhtml

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