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segunda, 16 de julho de 2018

Aqui Rubens Pontes: meu poema de sábado / Futebol, de Carlos Drummond de Andrade

A nossa seleção de futebol estreia na Copa do Mundo e até os setores sadios do Brasil param

numa espécie de catarse  para afugentar as mazelas que nos assolam.

Como o  Carnaval, futebol  é uma   palavra mágica para nós, e já Carlos Drumond de Andrade batia no peito quando  escreveu:

– “Confesso que o futebol me aturde, porque não sei chegar até seu mistério.”

Mas foi além dessa confissão. Ele próprio, o poeta de Itabira nas Gerais,  deixou para as gerações que vieram depois dele, “Meu coração no México”,  quando o Brasil maravilhou o mundo durante a Copa sediada naquele País.

Outros grandes poetas  se renderam ao encanto do nosso esporte maior, como João Cabral de Melo Neto (foto) em“O futebol brasileiro”:

A bola não é inimiga,

como o touro na corrida;

e, embora seja um utensílio

caseiro e que se usa sem risco

não é o utensílio impessoal

sempre manso, de gesto usual;

é um utensilio semivivo

de reações próprias como o bicho

e que como  bicho, é mister

(mais que bicho, como mulher)

usar malícia  atenção

dando aos pés astucias de mão.”

Chico Buarque, contundente,  burlou a censura e musicou:

“Aqui na terra tão jogando futebol

Tem muito samba, muito choro e rock’n’roll

Uns dias chove, noutros dias bate sol

Mas quero é lhe dizer que a coisa aqui tá preta”.

 

Paulo Mendes Campos, torcedor do

Flamengo, versejou:

“Bailando sem jogar, gemia Macalé

Quem me dera que fosse o preto Moacir

que vive no Flamengo, estrela a reluzir. “

 

Vinicius de Moraes em soneto primoroso, homenageia  Garrincha como “O anjo das pernas tortas”

“A um passe de Didi, Garrincha avança…

Colado o couro nos pés, o olhar atento

Dribla um, dribla dois, depois descansa

Como a medir o lance do momento….”

 

Adriana Calcanhoto  cantou 

“Futebol sem bola

pipiu sem frajola

sou eu assim sem você.

 

Ferreira Gullar, imortal da ABL,  se encantou com o malabarismo dos craques de futebol:

“A esfera desce

do espaço

ele a apara no peito

e para no ar.

Depois, com o joelho,

a dispõe a meia-altura…”

É assim, pois, que o Portal Don Oleari, a Rádio Clube da Boa Música e este colunista se solidarizam com os amantes

do futebol (como nosotros, Atlemengos, ou FLAtleticanos, como diz o Oleari) selecionando para este sábado um poema do mágico Carlos Drummond de Andrade:

De Capim Branco, MG., Rubens Pontes”.

À direita, dois ídolos, Nunes e Ronaldo, exibem camisas de Flamengo e Atlético mineiro.

Futebol

Carlos Drummond de Andrade

Futebol se joga no estádio?
Futebol se joga na praia,
futebol se joga na rua,
futebol se joga na alma.
A bola é a mesma: forma sacra
para craques e pernas de pau.
Mesma a volúpia de chutar
na delirante copa-mundo
ou no árido espaço do morro.
São voos de estátuas súbitas,
desenhos feéricos, bailados
de pés e troncos entrançados.
Instantes lúdicos: flutua
o jogador, gravado no ar
— afinal, o corpo triunfante
da triste lei da gravidade.

Rubens Pontes é jornalista, poeta, escritor, atleticano

– Passos, saltos & queda – livro de Rubens Pontes no linki abaixo:https://rubenspontes.com.br

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