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quarta, 26 de setembro de 2018

Aqui Rubens Pontes apresenta Roberto OIiva: Como era bela a BH

– Don Oleari:

Não conheço e me recuso conhecer Roberto OIiva.

Pelo menos enquanto meu coração não recuperar seus batimentos, já tão sofridos, agora descompassados com a leitura desse texto que ele escreveu, e que me foi encaminhado por Tião Martins (foto).

“Como era bela a BH” desmistificou aquela história de que homem não chora. Senti-me profundamente humilhado por não ter podido conter o choro quando tantas e doces lembranças do passado, que eu considerava enterradas, reviveram com a força de um tsunami do qual não consegui escapar.

Revivi, um por um, alguns mais e outros não menos, cada detalhe dessa crônica. Passei por cada uma delas.

Sabe de um coisa, Oswaldo Oleare? Retiro o que disse aí em cima. Abraço Roberto Oliva e sou-lhe até grato por confirmar que a vida da gente foi marcada com tanta poesia e que a cidade que amamos era exatamente como ele descreveu.

Voltei às Gerais, mas essa crônica é também para todos os mineiros que cruzaram a fronteira, plantaram bandeira e fizeram do Espírito Santo sua nova casa.

Grande abraço.
Rubens”.

Avenida Afonso Pena.

COMO ERA BELA A BH

Texto de Roberto Oliva

Belo Horizonte do século passado, décadas de 50 e 60.

Na época em que a bela Belo Horizonte estava na adolescência, se recolhia às 22 horas, no tempo do último ônibus às 23 horas, do sinal de TV que apagava deixando chuviscos no ar às 24, não sem antes recomendar que a população fosse dormir, não esperasse mamãe mandar, vivíamos na idade média, mas pensando bem não era assim tão ruim.

Havia políticos honestos, desembargadores ilibados, incorruptíveis juízes e magistrados, que depois de desencarnados davam nome às nossas arborizadas avenidas, lembras disso?

Os bandidos eram escassos e tinham pavor da polícia, acreditem!

Amarrava-se cachorro com linguiça mineira, é verdade, de preferência da Linguiça Rosa (foto à direita), de Paraopeba/MG.

Podia-se sair pelas madrugadas da bela BH e voltar a pé pra casa sem medo.

Que tempos aqueles da tradicional Família Mineira, que quando alguma moça vomitava em público e alguma comadre enxerida perguntava “foi comida?” (referência gastronômica) a mãe fechava a cara constrangida e prontamente respondia:

  • Foi, mas casa mês que vem!

Não se usava o vocábulo ianque gay, alguns rapazes eram simplesmente alegres, frescos e simpáticos.

As donzelas que apresentavam pezinhos com numeração acima do usual eram muito bem recebidas nos beatos colégios femininos das freiras, Sacre Coeur du Marie, Imaculada Conceição (foto à esquerda), Monte Calvário, ou no seríssimo Instituto de Educação das Minas Gerais.

Era época em que só se compravam preciosidades importadas, calça Lee, perfume Lancaster e radiozinhos portáteis japoneses na clandestinidade, na boutique em casa de dona Fulana, em endereços super secretos que todos conheciam.

E o grande “point” de compras de todos os sonhos de consumo que existiam abaixo da linha do Equador era na Galeria Ouvidor.

Estamos falando de uma época em que tudo acontecia no centro de BH, povoada pelas nossas honoráveis tribos indígenas, Carijós, Tupis, Tupinambás, Caetés e tantas mais, irmanadas com Estados e Cidades brasileiras.

Nestes cruzamentos e vizinhanças se abrigavam restaurantes, barzinhos, botecos e lanchonetes inesquecíveis.

Às vezes eram tantos e tão irmanados que as tribos e os estados se encontravam em alegres happy hour gastronômicos e etílicos.

Ir ao simpático Ted’s na Rua dos Tupis, em frente ao Cine Tupi ou Jacques, era caminho da roça. Beleza.

Subir a Rua Espírito Santo para degustar uma coxinha com catupiry da Torre Eiffel (à esquerda), a glória.

Virar à esquerda e descer a rua dos Goytacazes, se deliciar com o pão de queijo da Camponesa, felicidade.

E aí, de repente, já se deparava com a vista maravilhosa do Cine Metrópole (foto à direita), às margens da rua da Bahia. Alegria geral. Mais tarde, subir Bahia, atravessar a Av. Antonio Augusto de Lima,

jornalista, poeta e magistrado mineiro, entrar na Cantina do Lucas (foto à direita), atendimento personalizado top de linha, no lendário Maletta. Genial!

Saborear um cachorro quente ou uma “banana split” das Lojas Americanas na Rua São Paulo, cair no footing saudável da Av. Afonso Pena, Afonso Augusto Moreira Pena, ilustríssimo advogado nascido na acolhedora Santa Bárbara, sexto Presidente do Brasil.

As paqueras, os namoros, os encontros de todas as tribos com os estados irmãos se desaguavam na Afonso Pena. Empolgante!

Podia-se jogar sinuca no Metro, na Rua dos Tupinambás com Curitiba, onde estrelava o melhor croquete da Capital, indispensável, ou comer um sanduíche de linguiça no Café Palhares. BH de raiz!

De volta a Rua do Espírito Santo, antes de chegar a Carijós, tomar um chopp geladíssimo no Tip Top, com tira-gosto alemão. Sofisticação internacional.

O quibe da Gruta OK na Rua dos Tamoios, ao lado da antiga Assembleia era melhor do que de todos os árabes Salins e Mustafás, patrícios do Oriente Médio até o Golfo Pérsico. Inigualável no tamanho e no sabor. Inshallah!

As loiras geladas do Teorema da Rua dos Tupis com Rio de Janeiro, Jesus Amado!, quantas e quantas. Obrigado, Senhor!

La Bella Itália se encontrava no centro da Bela Belorizonte e a Cantina do Ângelo, na Rua dos Tupinambás com Amazonas, não ficava nada a dever ao afamado Alfredo, de Roma.

No Giulio da Rua Curitiba, no Scotellaro da Av. Paraná, comia-se melhor que em todas tratorias italianas da Toscana. Madonna Santa, que saudade!

Romanas eram aquelas Vias, Vias Vênetos dos mineiros para ser bem romântico, dolce vita noturna da bela BH…

O sanduíche de pernil com pão quente da hora da Padaria Boschi, Rua dos Tamoios com Rio de Janeiro, irresistível.

Se ouvia música de verdade para dançar nos fantásticos bailes de formatura e de carnaval, nas horas dançantes, no PIC, Pampulha Iate Club, no Iate Tênis Clube (foto à esquerda), nos DCEs da Federal e da Católica, da Sociedade Mineira dos Engenheiros e tantos outros clubinhos escondidos ali pelo Centro. E o encantamento das festas juninas do Cruzeiro Campestre, do clube BH, do Country, do Minas, do Barroca (foto abaixo, à direita). Maravilha!

Depois dava aquela fome danada de fim de festa, fome de casamento sem comida, e a gente despencava para a Praça Raul Soares, Senador ilustre das Minas Gerais, oriundo da aprazível Ubá, das mangas Ubá sem linhas, deliciosas.

Lá na Praça se encontravam aqueles estabelecimentos que funcionavam 24 horas e que saciavam a tal fome da madrugada da boemia.

 

O Scaramouche (esquerda), Hi-Fi, a Pizza do Macau (direita), a Spaquetelândia estavam sempre abertos, era manjar dos deuses no final da noitada. Fundamental.

Havia muitos Inferninhos, quem se lembra daqueles estabelecimentos de diversão saudável, gastronômicos entre muitas aspas e disputadíssimos nos fins de semana?

Ou então diversificar, alongar o roteiro, ir ao Pizzaiolo da Contorno, das mil e uma pizzas, na Rua Pernambuco tomar umas batidas no Beb’s, dos mil e um sabores, ou comer um mexidão de fim de noite no “Arroz com Feijão” na Savassi.

Indescritível.

Por fim, finalizar na Pizzarella, saudosa lembrança, e até hoje presente na Av. do Eminente Presidente Olegário Dias Maciel, Líder revolucionário de 1930, Engenheiro de Bom Despacho, Cidade Sorriso. Divino.

Satisfeitos?

Tantos outros mil redutos que existiam, acolhimentos que fugiram da memória, nasceram e evaporaram sem que déssemos conta, desapareceram das nossas lembranças…

Quem se lembrar que escreva, não vamos deixar cair no esquecimento aqueles que por algum tempo nos foram tão queridos…

Caminhando pelas ruas da cidade, saltitante adolescente, Belorizonte, amiga e companheira, aprontando alegrias, sorrindo, fazendo planos, trocando ideias, gastando juventude, procurando a tal felicidade. Era bom demais…

CONCORDO: A vida era essa, muito mais que descer Bahia e subir Floresta, poiSym?

Rubens Pontes e Tião Martins

são das melhores safras de

jornalistas mineiros

 

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