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segunda, 22 de outubro de 2018

Kleber Galvêas: o empresário, o político e a Lava Jato

“Ciranda da Corrupção, colorida, sedutora, exponencial.” Pintura, Galvêas, 2017.

 

O empresário nacional, mesmo o grande, tem que ter manha de camelô: “um olho na esquina, outro no freguês”. Ou melhor, um olho no governo e o outro na empresa, tamanha a burocracia, a diversidade e instabilidade legais que vivencia.

Nessa conjuntura, em alguns casos, agentes do governo induzem o incauto a saltar obstáculos legais (propinas), como a única maneira de continuar trabalhando, mantendo a sua empresa. A “caneta” se tornou a varinha de condão da economia nacional.

Culturas diferentes propiciam diferentes políticas e leis próprias. A cultura antecede a política, mas a política tem prevalecido sobre ela, porque políticos promulgam as leis: “Quem parte e reparte fica com a melhor parte”. Essa injustiça não é novidade.

Dizem os historiadores que a instituição da propina no Brasil remonta ao tempo das Capitanias Hereditárias. A coisa aqui se fez tão antiga, universal, volumosa e descarada, que acabou se tornando um monstro perigoso para todo o mundo. Isso é visto por outros países como expressão da deslealdade comercial.

Uma empresa nunca pode parar e esperar o tempo passar, pois se não produz quebra. Se falir desencadeia uma série de problemas sociais. Ela é responsável por muitas bocas dependentes do salário que paga aos seus empregados.

O empresário que conhece a cultura local encara a ação paralela (propina) como necessária, ou mesmo vital para sua empresa, e, assim, contrata consultores (políticos) e cria um departamento específico para agir com competência, consoante as práticas usuais no ambiente onde atua.

Embora tenha uma boa formação e, com boas intensões, recorrido, no passado, à justiça e a políticos confiáveis, o empresário se curva à realidade vigente e torna-se condescendente com o crime quando avalia o interesse pessoal, o da sua empresa, e a responsabilidade para com milhares de terceiros, seus dependentes.

Ele então filosofa: se a Cultura concebe a Política, e os políticos fazem as Leis que nos convidam a transgredir, não há risco. A criatura, com tantas informações sobre seus padrinhos bem situados, não será abandonada pelo criador em barco furado, no meio de um oceano de denúncias.

Entretanto, para alivio do povo descaradamente roubado, de empresários honestos obrigados a caminhar de cabeça baixa em corda bamba, a Lava Jato aconteceu! Dizem que por influência de concorrentes, incomodados com as empresas brasileiras que lhes vinham tomando espaço na África, América Latina e Ásia. O importante é que o fio da meada está sendo puxado, quiçá desenrole o novelo, para a felicidade geral da Nação.

Daí o interesse pelas oportunas palavras do empresário Eike Batista ao embarcar para ser preso no Brasil. Ele disse que quem tem culpa deve pagar pelos erros cometidos, apoiar a Operação Lava Jato e apostar que, daqui para frente, a relação empresa-governo será diferente, transparente.

Justificou as delações premiadas e indicou que, graças a Operação Lava Jato que está alcançando os políticos, a participação das empresas na nefasta rede de corrupção será esclarecida e entendida. A justiça saberá separar políticos de empresários e aplicar penas proporcionais à motivação do crime.

Empresas criam riquezas. Mesmo a elite chinesa, que ontem “xingava” a Rússia de “revisionista”, percebeu que, sem formar uma classe empresarial, não conseguiria alimentar o seu povo e se manter no poder. O gigante chinês, que não tem um berço esplêndido, como o nosso, soube encarar a realidade, compreendeu a conjuntura e cresceu.

Acorda, Brasil! Punição para todos os criminosos, mais rigorosa para quem induz ao crime. Vida longa e saudável para nossas empresas!

Kleber Galvêas, pintor. (27) 3244 7115 www.galveas.com

 

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