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segunda, 22 de outubro de 2018

Aqui Rubens Pontes apresenta Orlando Eller: O navio é de vocês

Em crônica de 1996, o jornalista relata cenas da construção do Porto Tubarão na enseada de Jardim Camburi, Vitória/ES.

 

Don Oleari,

Semana passada, por deferência do Luís Soresini e do Gustavo Belesa, ambos da área de relações institucionais da Vale, voltei ao Complexo Portuário de Tubarão para rever imagens e relembrar fatos que fizeram parte da minha vida profissional durante dezoito anos em que servi a empresa como assessor de imprensa.

Minha visita começou pelo Parque Botânico, portal de entrada para todos os que desejam visitar aquele complexo harmônico, feito de portos, usinas, ferrovias, pátios, armazéns; e a que muita gente dedica tempo e competência para ganhar a vida.

Estive na Comunicação Social, em que fui bem acolhido por jovens comunicadores que se dedicam a fazer o meio-de-campo da Vale com as comunidades, com as visitas, com os jornalistas e com os milhares de empregados encarregados de manter em curso o sucesso da empresa.

Eles me mostraram exemplar de uma revista, edição única de 1996, inteiramente dedicada aos então trinta anos do Porto de Tubarão. E nela revi estampada na última página crônica minha, de que sequer me lembrava. E dela pedi cópia, que lhe ofereço para leitura.

Em tempo: o Porto de Tubarão completou cinquenta e dois anos de atividade ininterrupta (Orlando Eller).

O navio é de vocês

Orlando Eller

Um dia, mãos lúcidas perceberam que o mundo ficara grande. Maior que a esperança delas.

E que a Vale tinha que ser igual. Ágeis, juntaram réguas, lápis e pranchas e puseram-se a tecer o caminho de ser melhor.

Da singeleza do Morro do Atalaia – no bairro Paul, Vila Velha/ES, à esquerda – inconfundível marco da história cravado em rocha no âmago da baía de Vitória, escreveu-se o futuro, posto no pontal de antiga fazenda, Tubarão, Vitória/ES – foto à direita, ainda em construção nos anos 1960.

Seus píeres fincados em águas fundas desenham berços que embalam graneleiros prenhes de pedras. Pedras de ferro vertidas de correias, veias visíveis que despejam cachoeiras porões adentro.

Onde estão as mãos lúcidas e ágeis? Não acredito que haja passado na história delas. Suas réguas ainda fabricam o mesmo traço.

Seus lápis ainda desenham os mesmos espaços e as suas pranchas ainda estão adivinhando qual o tamanho do mundo.

Tubarão faz trinta, mas não registra passado. Tem, isso sim, história, refletor do futuro feito de esperança. Nela se inspiram todos cujo suor pontilhou o chão e cujos calos deram contorno à obra. Pioneiros, sim.

Pier 2 do Porto Tubarão. Foto: Tadeu Bianconi.

Na estrutura de sua vontade cravaram-se estacas, arrebitaram-se pinos, fincaram-se postes, montaram-se gigantes, plantaram-se árvores e flores. Tudo segundo o sentimento de harmonia de quem sabe que não se batem pregos à toa.

Que sejam trinta. Que sejam mais. Não importa o tempo que desfila como a correia sobre roletes, embuchada de pedra. Importam, isso sim, as mãos ágeis e lúcidas que puderam contemplar, a cada dia, o amanhã vertido em maneiras de fazer.

Onde estão as mãos lúcidas e ágeis? Estão aqui, entalhadas em cada sistema, como memória que não se apaga. No virador, no recuperador, no transportador, no carregador, na cidade. Estão na lição cujos caminhos dão sempre o Norte.

Mãos lúcidas e ágeis, o navio é de vocês. Se ele atracou, não importa em que berço, é porque o porto é seguro.

Orlando Eller

é jornalista e ex-assessor

de Imprensa da Vale

Edição e pesquisa de fotos: Don Oleari.

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