Menu

segunda, 22 de outubro de 2018

Tião Martins: Quem come quem?

Tião Martins, de Belo Horizonte/MG.

 

A casca de banana

Quando a conheci, aqui mesmo em Belo Horizonte, admirei a Márcia Tiburi pela inteligência fina, os insights e a simpatia pessoal.

Mas até filósofos mais experientes podem cometer equívocos, quando se debruçam sobre essa mutante realidade cultural brasileira, e Márcia escorregou em casca de banana, ao escrever no seu blog as seguintes sentenças:

– “Comer” é expressão brasileira usada para definir o ato sexual. Diz-se que fulano comeu fulana, mas não o contrário. Não se “come” um homem, mas apenas uma mulher. Come-se a vaca, e isso vem refletir o imaginário social sobre mulheres desde há muito tempo.”

Pode ser que no Rio Grande do Sul, a terra de onde ela vem, ou em São Paulo, onde ela mora, as meninas ainda não usem o verbo para se referir à sexualidade ativa, mas em Minas a pergunta está se tornando cada vez mais frequente entre elas:

– E aí, comeu?

A mulher toma a iniciativa

Extingue-se, dessa forma, a unilateralidade do comer, mas fica mantido o caráter carnívoro e abusivo que a nova geração atribui ao sexo. Não existe amor no ato de “comer” alguém. E, ainda que a utilização do verbo seja mera brincadeira entre as meninas, elas estão embarcando no mesmo deslize dos garotos.

Pode ser que essa paridade leve a meninada, rapazes e moças, a abandonar o mau costume. Pode até ser. Entretanto, toda vez que a sociedade reprime uma expressão qualquer, relacionada ou não à atividade sexual, ela é substituída por algo ainda mais grosseiro e infeliz.

Pode ser que no Rio Grande do Sul, a terra de onde ela vem, ou em São Paulo, onde ela mora, as meninas ainda não usem o verbo para se referir à sexualidade ativa, mas em Minas a pergunta está se tornando cada vez mais frequente entre elas:

– E aí, comeu?

Extingue-se, dessa forma, a unilateralidade do comer, mas fica mantido o caráter carnívoro e abusivo que a nova geração atribui ao sexo. Não existe amor no ato de “comer” alguém. E, ainda que a utilização do verbo seja mera brincadeira entre as meninas, elas estão embarcando no mesmo deslize dos garotos.

Pode ser que essa paridade leve a meninada, rapazes e moças, a abandonar o mau costume. Pode até ser. Entretanto, toda vez que a sociedade reprime uma expressão qualquer, relacionada ou não à atividade sexual, ela é substituída por algo ainda mais grosseiro e infeliz.

Vale a pena registrar, para efeitos históricos, que o excelente locutor Roberto Márcio, lá pelos anos 60 e 70, previu que as garotas iriam se apossar dessa linguagem.

Segundo ele, do ponto de vista exclusivamente físico, a natureza deu à mulher o privilégio de comer o homem e não o contrário.

– É uma parte nossa que desaparece dentro delas, é ou não é? – ele perguntava e ele mesmo respondia:

– “Claro que é.”

Fica aí, especialmente para Márcia Tiburi, a contribuição de Minas à gastronomia sexual.

Tião Martins

é jornalista, publicitário,

cronista

Comentários