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quarta, 26 de setembro de 2018

Aqui Rubens Pontes: Meu poema de sábado – Os sete mais belos poemas brasileiros. Concordam com a seleção?

 

Setembro chegou e com ele a Primavera que  faz florir os ipês amarelos, roxos, brancos, iluminando

a paisagem com suas flores deslumbrantes. Não apenas por isso, mas também por isso,

esta Coluna, o Portal Don Oleari e a Rádio Clube da Boa Música entoam a  sílaba sagrada OM – considerada o maior

de todos os mantras.

São frases sagradas de poder místico – com seus três sons , A-U-M, que vibraram no inicio da

Criação, representando três mundos, a Terra, a atmosfera e  o céu, os  três deuses hindus Brahma, Vishnu e Shiva

e os três textos védicos sagrados Rg, Yajur e Sama,  encarnando a essência de todo o Universo.

Do lado de cá, transpondo  espaço e  tempo, poetas brasileiros entoam com seus versos sons que são também mantras que alimentam

nossas almas, enlevam nossos corações, nos transportam para um mundo  de sonhos, abrindo espaços

para nos aproximarmos do místico Poder que não vemos, mas sentimos.

Neste primeiro sábado do mês, oferecemos aos eventuais leitores poemas (elencados por “O Pensador”)  que se inserem entre os mais belos

da  língua brasileira com um quase desafio:

– em eventual concurso, qual deles toca mais sua sensibilidade, como um mantra brasileiro capaz de enternecer

os mais calejados corações,  abrir sorrisos, passear de mãos dadas com a amada olhando para o céu?

Rubens Pontes

de Capim Branco, MG.

1. Soneto da Fidelidade

Vinicius de Moraes

De tudo, ao meu amor serei atento
Antes, e com tal zelo, e sempre, e tanto
Que mesmo em face do maior encanto
Dele se encante mais meu pensamento.

Quero vivê-lo em cada vão momento
E em louvor hei de espalhar meu canto
E rir meu riso e derramar meu pranto
Ao seu pesar ou seu contentamento.

E assim, quando mais tarde me procure
Quem sabe a morte, angústia de quem vive
Quem sabe a solidão, fim de quem ama

Eu possa me dizer do amor (que tive):
Que não seja imortal, posto que é chama
Mas que seja infinito enquanto dure.

2. Via Láctea

Olavo Bilac

Ora (direis) ouvir estrelas! Certo
Perdeste o senso!” E eu vos direi, no entanto,
Que, para ouvi-las, muita vez desperto
E abro as janelas, pálido de espanto…

E conversamos toda a noite, enquanto
A Via Láctea, como um pálio aberto,
Cintila. E, ao vir do sol, saudoso e em pranto,
Inda as procuro pelo céu deserto.

Direis agora: “Tresloucado amigo!
Que conversas com elas? Que sentido
Tem o que dizem, quando estão contigo?”

E eu vos direi: “Amai para entendê-las!
Pois só quem ama pode ter ouvido
Capaz de ouvir e de entender estrelas.

3. Canção do Exílio 

Gonçalves Dias

Minha terra tem palmeiras,
Onde canta o Sabiá;
As aves, que aqui gorjeiam,
Não gorjeiam como lá.

Nosso céu tem mais estrelas,
Nossas várzeas têm mais flores,
Nossos bosques têm mais vida,
Nossa vida mais amores.

Em cismar, sozinho, à noite,
Mais prazer encontro eu lá;
Minha terra tem palmeiras,
Onde canta o Sabiá.

Minha terra tem primores,
Que tais não encontro eu cá;
Em cismar — sozinho, à noite —
Mais prazer encontro eu lá;
Minha terra tem palmeiras,
Onde canta o Sabiá.

Não permita Deus que eu morra,
Sem que eu volte para lá;
Sem que desfrute os primores
Que não encontro por cá;
Sem qu’inda aviste as palmeiras,
Onde canta o Sabiá.

4. José

Carlos Drummond de Andrade

E agora, José?
A festa acabou,
a luz apagou,
o povo sumiu,
a noite esfriou,
e agora, José?
e agora, Você?
Você que é sem nome,
que zomba dos outros,
Você que faz versos,
que ama, protesta?
e agora, José?

Está sem mulher,
está sem discurso,
está sem carinho,
já não pode beber,
já não pode fumar,
cuspir já não pode,
a noite esfriou,
o dia não veio,
o bonde não veio,
o riso não veio,
não veio a utopia
e tudo acabou
e tudo fugiu
e tudo mofou,
e agora, José?

E agora, José?
sua doce palavra,
seu instante de febre,
sua gula e jejum,
sua biblioteca,
sua lavra de ouro,
seu terno de vidro,
sua incoerência,
seu ódio, – e agora?

Com a chave na mão
quer abrir a porta,
não existe porta;
quer morrer no mar,
mas o mar secou;
quer ir para Minas,
Minas não há mais.
José, e agora?

Se você gritasse,
se você gemesse,
se você tocasse,
a valsa vienense,
se você dormisse,
se você cansasse,
se você morresse…
Mas você não morre,
você é duro, José!

Sozinho no escuro
qual bicho-do-mato,
sem teogonia,
sem parede nua
para se encostar,
sem cavalo preto
que fuja do galope,
você marcha, José!
José, para onde?

5. Amor

Álvares de Azevedo

Amemos! Quero de amor
Viver no teu coração!
Sofrer e amar essa dor
Que desmaia de paixão!
Na tu’alma, em teus encantos
E na tua palidez
E nos teus ardentes prantos
Suspirar de languidez!

Quero em teus lábios beber
Os teus amores do céu,
Quero em teu seio morrer
No enlevo do seio teu!
Quero viver d’esperança,
Quero tremer e sentir!
Na tua cheirosa trança
Quero sonhar e dormir!

Vem, anjo, minha donzela,
Minha’alma, meu coração!
Que noite, que noite bela!
Como é doce a viração!
E entre os suspiros do vento
Da noite ao mole frescor,
Quero viver um momento,
Morrer contigo de amor!

6. Timidez

Cecília Meireles)

Basta-me um pequeno gesto,
feito de longe e de leve,
para que venhas comigo
e eu para sempre te leve…

– mas só esse eu não farei.

Uma palavra caída
das montanhas dos instantes
desmancha todos os mares
e une as terras mais distantes…

– palavra que não direi.

Para que tu me adivinhes,
entre os ventos taciturnos,
apago meus pensamentos,
ponho vestidos noturnos,

– que amargamente inventei.

E, enquanto não me descobres,
os mundos vão navegando
nos ares certos do tempo,
até não se sabe quando…

e um dia me acabarei.

7. Versos Íntimos

Augusto dos Anjos

Vês? Ninguém assistiu ao formidável
Enterro de tua última quimera.
Somente a Ingratidão – esta pantera –
Foi tua companheira inseparável!

Acostuma-te a lama que te espera!
O Homem que, nesta terra miserável,
Mora entre feras, sente inevitável
Necessidade de também ser fera

Toma um fósforo, acende teu cigarro!
O beijo, amigo, é a véspera do escarro.
A mão que afaga é a mesma que apedreja.

Se a alguém causa ainda pena a tua chaga
Apedreja essa mão vil que te afaga.
Escarra nessa boca de que beija!

Este é um dos poemas mais conhecidos do poeta paraibano, considerado um dos percursores do
movimento simbolista no país.
Seus versos são cheios de críticas ao egocentrismo da sociedade de seu tempo, e são admirados tanto
pelos críticos literários como por meros leigos.

BÔNUS:

Amor

Hilda Hilst

Como falar de amor é sempre bom, fechamos a nossa lista com Hilda Hilst e todo o seu “Amor”.

Que este amor não me cegue nem me siga.
E de mim mesma nunca se aperceba.
Que me exclua de estar sendo perseguida
E do tormento
De só por ele me saber estar sendo.
Que o olhar não se perca nas tulipas
Pois formas tão perfeitas de beleza
Vêm do fulgor das trevas.
E o meu Senhor habita o rutilante escuro
De um suposto de heras em alto muro.
Que este amor só me faça descontente

E farta de fadigas. E de fragilidades tantas
Eu me faça pequena.
E diminuta e tenra
Como só soem ser aranhas e formigas.
Que este a mor só me veja de partida.

Por fim, pergunto: e então, concorda com a lista? Compartilhe com a gente os poemas que VOCÊ considera os mais belos da literatura brasileira!

Rubens Pontes

é jornalista, poeta,

escritor – Passos, saltos & queda – livro de Rubens Pontes no linki abaixo: https://rubenspontes.com.br

 

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