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quarta, 26 de setembro de 2018

Aqui Rubens Pontes: Meu poema de sábado – A Alvorada do Amor, Olavo Bilac

 

Leio em Carl Sagan, à direita – “Pálido Ponto Azul”, editora Livraria Francisco Alves, à esquerda – ter sido a Terra formada

por condensação de gás e poeira interestelares desde há cerca de 4,6 bilhões de anos.

Os fosseis surgiram depois,

há 4 bilhões de anos, quando a Terra era um paraíso molecular. Mais um bilhão de anos e as moléculas fizeram algum progresso, começando a se reagrupar para formar a primeira célula.

A primeira célula há 4 bilhões de anos. O fosfolipídeos anfipáticos em contato com a água formaram micelas. Inclusão do RNA autocatalítico por membrana.

Durante a maior parte dos 4 bilhões de anos, a vida terrestre foi dominada por algas verdes-azuis microscópicas

que cobriam e enchiam os mares, mas durante os próximos 3 bilhões de anos a evolução não ultrapassou esse estágio.

Um imenso vazio e uma lentidão desesperadora para agilizar o surgimento do homem, afinal para quem tudo estaria sendo feito.

O Criador de todas as coisas, do Céu e da Terra, ficou frustado e impaciente com a lentidão do andar da carruagem.

Afinal, Seu grande propósito era ter tudo isso resolvido em 7 dias, e não em 7 bilhões de anos, para então poder descansar como nos relata a Bíblia.

Como Darwin (à direita) só surgiria muito tempo depois, foi necessário antecipar o processo de formação

do nosso Mundo e Ele tomou a definitiva decisão: criou o homem completo, sem escalas de tempo, e de uma de suas costelas

modelou a primeira mulher. Deu a cada um deles o sexo respectivo para finalmente, em 9 meses, completar-se o

milagre da vida, a suprema obra que se arrastava já há alguns milhões de anos, com a gradativa ocupação da Terra

pelos primeiros seres humanos dos quais somos todos herdeiros. Só não se tem informações aceitáveis sobre a chegada dos

netos de Adão e Eva. Seus dois filhos eram homens, e naquela época ainda não havia inseminação artificial. Mas isso não é assunto para esta coluna.

Olavo Bilac, o poeta da minha geração, ilumina esse episodio quando o Criador de todas as coisas decidiu punir os transgressores

expulsando-os do Paraíso. O poema deste sábado, uma escolha deste colunista e dos veículos da Don Oleari Corporeitcham – como costuma dizer o Chefão – narra a saga de Adão e Eva, redimindo-os do chamado pecado original: A ALVORADA DO AMOR.

Rubens Pontes,
Capim Branco, MG

A Alvorada do Amor

Olavo Bilac

Um horror grande e mudo, um silêncio profundo
No dia do Pecado amortalhava o mundo.
E Adão, vendo fechar-se a porta do Éden, vendo
Que Eva olhava o deserto e hesitava tremendo,
Disse:

“Chega-te a mim! entra no meu amor,
E à minha carne entrega a tua carne em flor!
Preme contra o meu peito o teu seio agitado,
E aprende a amar o Amor, renovando o pecado!
Abençôo o teu crime, acolho o teu desgosto,
Bebo-te, de uma em uma, as lágrimas do rosto!

Vê! tudo nos repele! a toda a criação
Sacode o mesmo horror e a mesma indignação…
A cólera de Deus torce as árvores, cresta
Como um tufão de fogo o seio da floresta,
Abre a terra em vulcões, encrespa a água dos rios;
As estrelas estão cheias de calefrios;
Ruge soturno o mar; turva-se hediondo o céu…

Vamos! que importa Deus? Desata, como um véu,
Sobre a tua nudez a cabeleira! Vamos!
Arda em chamas o chão; rasguem-te a pele os ramos;
Morda-te o corpo o sol; injuriem-te os ninhos;
Surjam feras a uivar de todos os caminhos;
E, vendo-te a sangrar das urzes através,
Se emaranhem no chão as serpes aos teus pés…
Que importa? o Amor, botão apenas entreaberto,
Ilumina o degredo e perfuma o deserto!
Amo-te! sou feliz! porque, do Éden perdido,
Levo tudo, levando o teu corpo querido!

Pode, em redor de ti, tudo se aniquilar:
– Tudo renascerá cantando ao teu olhar,
Tudo, mares e céus, árvores e montanhas,
Porque a Vida perpétua arde em tuas entranhas!
Rosas te brotarão da boca, se cantares!
Rios te correrão dos olhos, se chorares!
E se, em torno ao teu corpo encantador e nu,
Tudo morrer, que importa? A Natureza és tu,
Agora que és mulher, agora que pecaste!

Ah! bendito o momento em que me revelaste
O amor com o teu pecado, e a vida com o teu crime!
Porque, livre de Deus, redimido e sublime,
Homem fico, na terra, à luz dos olhos teus,
– Terra, melhor que o céu! homem, maior que Deus!”

Olavo Bilac, in “Poesias”

Rubens Pontes

é jornalista, escritor,

poesta, prosador – – Passos, saltos & queda – livro de Rubens Pontes no linki abaixo: https://rubenspontes.com.br

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