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quinta, 18 de outubro de 2018

Tião Martins: Patos na lagoa

Os patos somos nós

Tudo começou com os patos.

O bando deles, grandes e pequenos, navegava com tanta liberdade e prazer que parecia até provocação. Se um pato pode e dez também, por que gente não poderia?

Foi mais ou menos esta a reflexão que nos levou a tirar todas as roupas e mergulhar pelados na Lagoa Negra.

E, assim, descobrimos que os patos sabiam mais que nós.
Éramos cinco, em férias. E nenhum sabia das armadilhas da lagoa. Só quando Paulinho, o Gordo, gritou que estava se afogando, a dois metros da outra margem, aprendemos que os patos – até os menores – eram mais sabidos do que nós.

Foi uma correria, mas chegamos a tempo de evitar que o Gordo bebesse toda a água.

O sol forte logo secou a água do corpo. Vestimos as roupas e decidimos, em silencio, que o brinquedo ficaria para a quinta-feira ou, melhor ainda, o sábado, quando os adultos passavam a manhã inteira no mercadinho e botequim do Alfredo, a alguns quilômetros da fazenda.

Orgulhosos por salvar o Gordo, decidimos não contar o caso aos adultos, que certamente iriam nos proibir de nadar de novo na lagoa. Naquela época, ainda que sem abordar o assunto, éramos sempre nós contra eles, os adultos. E cada investigação pelo território da fazenda, ainda que sem medalhas no peito, tinha sabor de vitória.

As meninas bem que poderiam se livrar dos adultos. Seria uma glória, se vissem a gente subir nas árvores pequenas ou grandes, para arrancar frutas, ainda que verdes. Mas as danadas preferiam ficar no alpendre, brincando de cozinhar. Ou até mesmo na cozinha, com Alaíde, a cozinheira.

Tufic, o futuro herdeiro da fazenda, bem que convidou Terezinha (eleita para ser sua futura namorada), para andar com ele pelo meio do mato. Queria apresentar a ela os macaquinhos que viviam em bando, lá no meio da mata. Convidou e recebeu de volta um sorriso frio e uma palavra curta: “Nunca”.

E foi tão dura como se dissesse bem mais:

“O que é isso, cara? Qual é a sua? Está pensando o quê? Logo eu, vou me meter nessa mata? Você tá é muito enganado, se pensa que vou pro mato com você. Se quiser companhia, bebezinho, chama sua mãezinha. Vai vereque gosta. Eu sou é do asfalto, meu nêgo. Quero nada com mato, não. Chama a sua mãe, se é isso que você quer.”

Após tratamento assim tão delicado e semelhante ao que já ouvira muitas vezes na escola, Tufic viveu algumas horas sem falar com Terezinha, mas aceitou, feliz da vida, a encomenda dela, no dia seguinte. Queria que lhe trouxesse um abacaxi quase maduro.

  • “Mas tem de ser quase, ouviu? Odeio abacaxi molenga e perto de apodrecer”.

De tão feliz, Tufic acordou bem cedo no outro dia e nem tomou café. Saiu sozinho à procura do abacaxi mais delicioso do fim do mundo, voltou com três, por via das dúvidas, e não ouviu (mas contamos pra ele) a Terezinha dizer às amigas, só para estimular invejas, que o seu Tufic era o turquinho mais precioso deste mundo e do outro:

  • Tratado direitinho, com mão forte, não tem coisa melhor neste mundo.

Terezinha nunca foi uma terezinha qualquer. E cada sonho que você deixa para trás é um pedaço do seu futuro que deixa de existir.

Tião Martins, de Belo Horizonte, MG.

jornalista

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