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quinta, 18 de outubro de 2018

Nizan Guanaes: Que a eternidade o respeite para sempre….João é João

Sugestão de leitura dos colegas jornalistas mineiros Tião Martins e Rubens Pontes.

 

Triste é viver na solidão

Imaginá-lo aos 86 anos e trancado em

apartamento do Leblon é muito triste.

 

Nizan Guanaes

É preciso apoiar João Gilberto neste momento em que o tempo e seu eco estão sendo implacáveis.

Fernando Alterio, o empreendedor que transformou o show business em “business” no Brasil, e eu, como investidor, fizemos o Credicard Hall, o primeiro “hall” de espetáculos mega e profissional como São Paulo.

O Credicard Hall foi feito em tempo recorde. Quando ele ficou pronto, em 1999, caímos na besteira de fazer a inauguração com João Gilberto.

Digo besteira porque João é João. A ideia era boa, mas totalmente perigosa. Eram João e Caetano para uma plateia poderosa. Estava lá todo o mundo de mais influente no Brasil. E foi um desastre total.

Quem fez uma obra sabe que quando ela fica pronta ela nunca está pronta. E o som não estava 100%. Uma pessoa normal contornaria a situação. João foi implacável. Refém de seu ouvido absoluto e de sua sensibilidade absoluta, ele passou a noite toda da inauguração reclamando da qualidade do som. “O pato sou eu”, disse ele depois de cantar “O Pato”. Foi um vexame.

Eu estava sentado ao lado de Mário Covas, o governador de São Paulo na época, e queria morrer. Não sabia onde colocar a minha cara e passei a noite colocando a minha cara dentro de copos colossais de uísque.

João reclamou uma vez, duas, três. Caetano ali na saia justa. Até que uma parte da plateia começou a vaiá-lo. E aí João saiu com a frase genial: “Vaia de bêbado não vale”. Daí em diante a noite se dividiu entre “lovers” e “haters”.

Foi um desastre total. Mas foi tão desastre que foi bom. Saiu em todo lugar. No Fantástico, nas primeiras páginas dos jornais, reportagens imensas. A impagável foto de João Wainer na primeira página desta Folha (Folha de São Paul) com João mostrando a língua para os poderosos é antológica.

Apesar de previsões catastróficas, do tipo “Credicard Hall: o Titanic naufraga em São Paulo”, a casa não naufragou. Consertamos o som, o Credicard Hall virou um ícone e está aí brilhando até hoje sob nova bandeira.

Eu sou baiano e amo João. Apesar de João, tive a presença de espírito de dizer que é mais fácil consertar o som do que “consertar” o João. O som foi consertado. João não se consertou.

Mas o Brasil lhe deve muito.

O baiano de Juazeiro, que se banhava no São Francisco, criou com Tom Jobim no Rio de Janeiro um som novo para um Brasil novo que gente no mundo inteiro entendeu e gostou. A bossa nova é sofisticada e agradável, cerebral e balançada, brasileira e global. Seu disco “Amoroso” está na lista dos preferidos de grandes músicos do planeta. É puro “soft power” brasileiro.

A versão em inglês de “Garota de Ipanema”, com Tom, Stan Getz, João e sua mulher à época, Astrud, chegou ao quinto lugar na parada americana da Billboard em 1964 e permaneceu na lista por 12 semanas. Tornou-se um dos hits daquele verão nos EUA ao lado de canções dos Beatles, dos Beach Boys e de Barbra Streisand. Foi hit também em vários outros países.

Ruy Castro, grande cronista de nossa música, definiu as dificuldades de João hoje numa coluna de novembro passado intitulada “A Vida Desafina”: “Em sua obsessão pelo controle, João Gilberto tinha como ambição apenas parar o mundo para exercer sua arte. Diante do microfone, conseguiu. Fora do palco nunca teve controle sobre sua vida”.

Imaginá-lo aos 86 anos trancado em um apartamento do Leblon é triste viver na solidão.

O Brasil deve muito a João Gilberto. E precisa encontrar formas para apoiá-lo neste momento em que o tempo e seu eco estão sendo implacáveis com ele.

“Todos somos mortales hasta el primer beso y la segunda copa de vino.” (Eduardo Galeano).

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