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segunda, 10 de dezembro de 2018

Tião Martins: Jornal da Molecagem

Tião Martins, de Belo Horizonte, MG

Muitos são mais tolos que paulista barulhento, mas há gaúchas e gaúchos tão finos e cáusticos quanto os cariocas, baianos e mineiros.

Apparício Torelly, gaúcho sem título de nobreza que se mudou para o Rio e divertiu brasileiros de todas as classes sociais, foi o mais fino barão que a sua terra produziu.

Intitulava-se “Barão de Itararé” e despia em público as suas “vítimas”.

Como costumam dizer a mais linda de todas as cariocas e a mais bela e lúcida das gaúchas, Apparício debochava de todo mundo, o que lhe custou visitas de cara feia de policiais despidos de qualquer senso de humor. E a esses últimos dedicou um aviso, colado na porta da redação:

“Entre sem bater”.

Não perdoava ninguém.

Apparicio produziu um jornal de molecagem, intitulado “A Manha”, por oposição ao mais importante e vetusto jornal do Rio de Janeiro, em sua época: “A Manhã”.

Foto: número 1 do jornala “A Manha”,

E um dos ótimos achados dele foi a definição de “negociata”, algo tão comum na Brasília dos nossos dias:

– “Negociata é um bom negócio para o qual não fomos convidados”.

E fustigou os banqueiros:

– “O banco é uma instituição que só empresta dinheiro se a gente apresentar provas suficientes de que não precisa da grana”.

Fazia rir com frases curtas:

– “A forca é o mais desagradável dos instrumentos de corda”.

Ou esta:

– “Quando pobre come frango, um dos dois está doente”.

E, ainda, a deliciosa boutade, como diriam os franceses:

– “Dizes-me com quem andas e eu te direi se vou contigo”.

Era incomparável, o Barão. Muitos tentaram imitá-lo, mas logo desistiram.

Ainda nos anos da escuridão, a Associação Brasileira de Imprensa, na época presidida por Maurício Azedo (foto), meu amigo e companheiro no jornalismo, decidira declarar Apparício Torelly “O Barão da Liberdade”.

Azedo estava cuidando disso, quando faleceu, ainda tão jovem, sobretudo se comparado à velharia que, naquela época, ainda envenenava o Brasil, os brasileiros e todos os pressupostos da democracia.

Se você quiser saber mais sobre Apparício Fernando de Brinkerhoff Torelly, leia o livro do filósofo Leandro Konder, que lançou pela Brasiliense a biografia desse bravo, com o título “Barão de Itararé – O Humorista da Democracia”.

São pouco mais de 70 páginas, mas vale a pena dedicar algumas horas à história desse criativo cidadão gaúcho, porque a comédia nacional nunca mais foi tão negra e tão deliciosa quanto nos achados cínicos e sinceros do Barão.

A delícia que se segue também foi dele, quando mudou para o Rio de Janeiro:

– “Devo tanto que, se chamar alguém de “meu bem”, o banco toma”.

Algumas vezes (ninguém sabe dizer quantas), as visitas policiais à redação evoluíam, no mínimo, para um passeio obrigatório até a Delegacia de Polícia, onde lhe faziam as mesmas perguntas e ouviam dele as mesmas respostas.

E o Barão, detido pelos senhores policiais, mal deixava as grades e já lançava ao mundo novos comentários deliciosos sobre a “brilhante inteligência dos senhores policiais”, que faziam prisões sem saber por que razão.

– Até a próxima temporada – dizia Apparicio.

Barão de Itararé de pé e de barba na Casa de Detenção em 1936 (fonte: Entre sem Bater, a Vida de Apparício Torelly, o Barão de Itararé).

Tudo isso prova que gaúchas e gaúchos não são vazios de humor, como dizem alguns sujeitos sem pai e sem mãe.

Se você estranhou que o Rio Grande do Sul tenha produzido essa fera requintada, convém lembrar que muita gente boa viveu ou ainda vive por lá, em ótima companhia: Érico Veríssimo, Clara Averbuck, Martha Medeiros, Lya Luft, Letícia Wierchowzki e Cíntia Moscovich, entre muitos outros.

O melhor de todos foi o Barão, mas há gaúchas e gaúchos, assim como cariocas e mineiros, que não perdem a chance de denunciar este país torto que herdamos e quase foi engolido pelo PT do Inácio e da sua intolerável aprendiz mineira, a Rousseff destrambelhada.

Naquela época grotesca em que viveu o Barão de Itararé, o Rio Grande e o de Janeiro conquistaram a simpatia e a inteligência dos brasileiros, do Amazonas ao Chuí, passando por Minas e por São Paulo.

Hoje, os herdeiros – civis ou militares – daqueles generais do passado, são adultos, modernos, conscientes e não deveriam embarcar deselegância e tolice dos antecessores.

Infelizmente, ainda há cretinos civis que tentam botar fogo no lixo que eles próprios produziram, pisando no Brasil e envenenando a inteligência dos brasileiros. Devem ser todos irmãos infelizes de Inácio e Dilma, analfabetos morais que não valem sequer um tostão…

Aqui ou nos bancos refinados da Suíça, onde mora o fim do mundo.

Tião Martins,

jornalista

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