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quinta, 18 de outubro de 2018

Aqui Rubens Pontes: Meu poema de sábado – Soneto da Saudade, de Guimarães Rosa; Feitiço da Vila, de Noel Rosa

 

No roteiro da Gruta de Maquiné, o casal de amigos paulistas se surpreendeu quando, passando

por Cordisburgo, pedi a Márcia – a motorista – para encostar o carro por alguns instantes.

Desci, elevei as mãos para os céus e fiz uma prece muda de agradecimento à pequena cidade

que serviu de berço a Guimarães Rosa (foto), o maior escritor brasileiro desde Machado de Assis.

Semana passada, indo à Capital, repeti o pedido de parar o carro por alguns instantes ao passar por Venda Nova,na Grande Belo Horizonte.

Guimarães Rosa entre vaqueiros, aguardando o almoço

Desci e repeti o gesto de agradecimento diante da placa que denominava a via pública:

Rua Noel Rosa. Foi ali, numa casa na altitude das montanhas mineiras, que o Poeta da Vila viveu algum tempo, buscando tratamento

médico para a tuberculose que o acometera.

Guimarães Rosa, tanto como Gabriel Garcia Marques com sua grande obra “Cem anos de solidão”, que lhe

outorgou o Prêmio Nobel de Literatura, merecia igual laurel com seu “Grande Sertões – Veredas”.

Houvesse um Prêmio Nobel para compositor de música popular e Noel Rosa, que produziu mais de 300

músicas em apenas 7 anos (1930 a 1937), seria forte candidato ao prêmio, mesmo confrontando compositores norte americanos mundialmente famosos.

Kleber Sales/CB/D.A Press

Neste entremeio eleitoral, na expectativa do que virá, esta coluna e a equipe do Portal Don Oleari escolheram amenidades,

produções dos dois expoentes do mundo da sensibilidade criativa para leitura neste sábado: um poema de Guimarães Rosa

e letra de uma composição de Noel Rosa, dois gênios, um mesmo sobrenome e nenhum parentesco.

Rubens Pontes

Capim Branco, MG

Soneto da saudade

Guimarães Rosa

Quando sentires a saudade retroar
Fecha os teus olhos e verás o meu sorriso.
E ternamente te direi a sussurrar:
O nosso amor a cada instante está mais vivo!

Quem sabe ainda vibrará em teus ouvidos
Uma voz macia a recitar muitos poemas…
E a te expressar que este amor em nós ungindo
Suportará toda distância sem problemas…

Quiçá, teus lábios sentirão um beijo leve
Como uma pluma a flutuar por sobre a neve,
Como uma gota de orvalho indo ao chão.

Lembrar-te-ás toda ternura que expressamos,
Sempre que juntos, a emoção que partilhamos…
Nem a distância apaga a chama da paixão

Feitiço da Vila

Noel Rosa

Quem nasce lá na Vila nem sequer vacila ao abraçar o samba
Que faz dançar os galhos do arvoredo
E faz a lua nascer mais cedo

Lá em Vila Isabel quem é bacharel não tem medo de bamba
São Paulo dá café, Minas dá leite e a Vila Isabel dá samba

A Vila tem um feitiço sem farofa
Sem vela e sem vintém que nos faz bem
Tendo nome de princesa transformou o samba
Num feitiço decente que prende a gente

O sol na Vila é triste, samba não assiste
Porque a gente implora:
Sol, pelo amor de Deus, não venha agora
Que as morenas vão logo embora

Eu sei tudo que faço, sei por onde passo
Paixão não me aniquila
Mas tenho que dizer:
Modéstia à parte, meus senhores, eu sou da Vila!

Quem nasce pra sambar chora pra mamar
Em ritmo de samba
Lá não tem cadeado nos portões por que na vila
Não tem ladrão

Rubens Pontes,

jornalista, poeta,

escritor –

 

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