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quarta, 14 de novembro de 2018

Aqui Rubens Pontes: Meu poema de sábado – Podemos crer-nos livres, de Ricardo Reis

 

 

No Ginásio, nos ensinaram que dom Manoel I, de Portugal (imagem), no ano da graça de 1532, implantou o sistema de Capitanias Hereditárias
no litoral das inóspitas terras brasileiras recém descobertas, divididas em 15 lotes e entregues a 15 beneficiários da pequena burguesia lusitana.

Houve sabedoria inspirando a doação: o Reinado nada investiria nas terras doadas, competindo aos donatários, com recursos próprios,
o desbravamento , a ocupação e o tratamento da terra e dela tirar proveito.

Na imagem à direita aparece bem embaixo a Capitania de Vasco Coutinho.

Não se repetiu no Brasil, no entanto, o sucesso alcançado no exemplo da Ilha da Madeira. Os ocupantes das capitanias não conseguiram
superar a hostilidade da terra áspera, nela exaurindo seus recursos pessoais.

Até a mais importante de todas, a Capitania do Maranhão,  não sobreviveu.

Pois não é que, passados cinco séculos, um tipo “moderno” de capitania voltou a ser implantado no País, com aquele jeitinho brasileiro?

Mas, ao contrário da sabedoria portuguesa, o Governo Central assumiu o ônus financeiro da administração, cabendo ao “donatário” as benesses
oriundas do poder quase absoluto.

Muitos desses modernos ‘ capitães do mato” passaram a usufruir, além disso, de outras vantagens pessoais
com generosas cadeiras no Parlamento brasileiro e consequente presença nos negócios da Nação..Um negócio de dois bicos, sem nenhum risco..

Essas “capitanias”, chamadas de Estado, não levaram benefícios para a população ali sediada.. Mas propiciaram poder e fortuna aos
seus “donatários”.

O Maranhão, ainda aqui, é citado como exemplo.

Até que, um dia, os nativos, modernos índios sem tacapes nem penachos, decidiram sem lutas e sem bravatas, colocar um basta nessa tragédia brasileira
e muitos donatários perderam seus privilégios. Tudo muito simples: um toque no teclado de uma urna e o que chamamos de democracia voltou a prevalecer.

Pela terceira vez, o Maranhão é citado como exemplo. Que venham outros.

“Ricardo Reis nasceu no Porto. Educado em colégio de jesuítas, é médico e vive no Brasil desde 1919, pois expatriou-se espontaneamente por ser monárquico. É latinista por educação alheia, e um semi-helenista por educação própria.”

Esta coluna, o Portal Don Oleari, a Rádio Clube da Boa Música e o programa Sociedade dos Poetas Vivos , no milagre do diálogo possibilitado

pela Internet, recorremos todos a Ricardo Reis, heterônimo de Fernando Pessoa, para com seu poema “Podemos crer-nos livres”,

valorizar o sentimento maior que nos inspira essa ante-véspera eleitoral.

Podemos crer-nos livres

Ricardo Reis, heterônimo de Fernando Pessoa

Aqui, Neera, longe
De homens e de cidades,
Por ninguém nos tolher
O passo, nem vedarem
A nossa vista as casas,
Podemos crer-nos livres.

Bem sei, é flava, que inda
Nos tolhe a vida o corpo,
E não temos a mão
Onde temos a alma;
Bem sei que mesmo aqui
Se nos gasta esta carne
Que os deuses concederam
Ao estado antes de Averno.

Mas aqui não nos prendem
Mais coisas do que a vida,
Mãos alheias não tomam
Do nosso braço, ou passos
Humanos se atravessam
Pelo nosso caminho.

Não nos sentimos presos
Senão com pensarmos nisso,
Por isso não pensemos
E deixemo-nos crer
Na inteira liberdade
Que é a ilusão que agora
Nos torna iguais dos deuses.

Ricardo Reis, in “Odes”
Heterónimo de Fernando Pessoa

Rubens Pontes,

jornalista, poeta,

escritor,

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