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quarta, 14 de novembro de 2018

Wilson Coêlho numa tradução de texto de Fernando Arrabal: A segunda morte de meu pai

(Relato inédito e apócrifo de Jorge Luís Borges, escrito por Fernando Arrabal)

Minha primeira lembrança do escritor africano Fernando Arrabal é muito perspícuo. O encontro num entardecer do ano de 1963, em um hotel da rua Sébastien-Bottin de Paris. Acho que vislumbrei atrás dele o fundo ilusório dos espelhos de um salão.

Eu me lembro claramente (mas eu não tenho o direito de pronunciar esse verbo sagrado, só Irineo Funes à grande memória o teve, mas está morto) de sua voz infantil, pausada, sem os assovios italianos de agora nem as brusquidões castelhanas. Falamos de Funes “o memorioso” e ele me disse lentamente em meu idioma:

– E a propósito de memória em seu relato “Pierre Menard, autor de O Quixote” você cita como peça da obra visível deste escritor “um artigo técnico sobre a possibilidade de enriquecer o xadrez eliminando um dos peões da torre. Menard propõe, recomenda, discute e acaba de rechaçar essa inovação. Imaginemos a partida sem o peão “a” (ou “h”) de cada um dos adversários. A primeira jogada seria: 1.TxTa8. E a segunda: as negras abandonam! O que quis dizer? É um enigma ou um erro provocado por sua memória?

Recordei no ato em que com Bioy Casares, em 1935, havíamos pensado escrever uma novela em primeira pessoa cujo narrador incorrera em contradições que permitiriam a um reduzidíssimo número de leitores a adivinhação de uma realidade atroz ou banal.

Ia lhe responder quando apareceu o poeta francês Luc Hourcade, que estava submetido à menos perspicaz das paixões com o patriotismo: o fervor pelos clássicos. Não foi impossível falar de Menard enquanto escutávamos perversamente repetidas suas diferentes versões em alexandrino do soneto “Varia memória que en mil olvidos” (“Caprichosa memória que em mil esquecimentos”).

Anos depois, em abril de 1985, Fernando Arrabal e eu nos encontramos de novo, desta vez em Tóquio. Enquanto soube que frente a mim quis responder à pergunta que me havia formulado 22 anos antes.

Wilson Coêlho, ao centro, com Arrabal, à direita

Eu lhe disse que Pierre Menard foi o primeiro relato que escrevi. O fato sucedeu pouco depois de que meu pai morrera. À sua morte compreendi que, como Jorge Luís Borges, era deus, era alquimista, era filósofo, era conquistador, era calendário, era mundo… o qual era uma fatigante maneira de dizer que não era. Como não conhecia um prazer mais complexo que o pensamento nem uma aventura mais apaixonante que a de recorrer os meandros da memória, a eles me entreguei.

– Mas por que escreveu precisamente “Pierre Menard”?

– Pensei que se imaginamos um prazo infinito, com infinitas variações, circunstâncias e modificações, o impossível é que não se houvesse escrito pelo menos uma vez “As memórias do além-túmulo”. Por que não “Pierre Menard”?

– Seu pai era escritor?

– Era sobretudo um excelente enxadrista que me ensinou a jogar o xadrez.

Os cegos, ainda que não possamos ver os rostos, escrutamos com tino a respiração e as pausas e até surpreendemos o inefável interesse que pode despertar uma palavra e um sopro. Fernando Arrabal talvez imaginasse que uma vez morto meu mestre de xadrez (que era acessoriamente meu pai) eu já podia profanar os tabuleiros, entrar a cavalo nas bibliotecas enxadrísticas e queimar os livros magistrais, temeroso de que as letras encobrissem louvores ao deus do xadrez, que é um castelo de ébano.

Eu lhe disse que meu pai me havia detalhado certos mistérios da memória e se havia servido de um tabuleiro de xadrez para explicar-me “O enigma de Zenon”, também chamado “O paradoxo de Aquiles e a tartaruga” que permite negar a realidade da velocidade como a causa do ponto intermediário.

Meu interlocutor, pensando talvez que a história é um círculo com bordas de pele de tigre e que nada é que não haja sido nem será, deu por boa minha explicação. A partir desse instante, nossa conversa, como um labirinto que se enredava e desatava infinitamente, bifurcou em várias direções, apesar de que ambos queríamos terminar nosso debate sobre a partida heterodoxa de Menard.

Soube que dois dias depois, enquanto Fernando Arrabal atravessava o polo Norte de regresso à Paris, havia sentido essa receosa claridade da lucidez que irracionalmente também experimentei quando sobrevoei aquele lugar artificial como um ponto zero da memória. Pensei em nossa conversa. Só então adverti que não compreendia qual pode ter sido o razoamento de meu pai para explicar o enigma.

Minha exposição da explicação de meu pai, como já havia contado a Fernando Arrabal, foi acaso breve e sem dúvida pobre, mas não imparcial. Mas… eu já não posso mais contar em seus pormenores essenciais, pois desapareceu de minha memória depois daquela última narração.

Miguel Najdorf jogou 40 partidas de xadrez sem ver numa simultânea celebrada em 1942, em São Paulo. Ciro, rei dos persas, sabia chamar por seu nome a todos os soldados de seus exércitos. “Mitridate, re di Ponto” administrava a justiça em 22 idiomas. Mas só Irineo Funes teve uma memória infalível que o deixava vislumbrar um mundo vertiginoso e banal.

A miúde pensei que a memória exerce uma tarefa interminável e inútil. Ao comprovar que havia esquecido 50 anos depois o razoamento de meu pai, senti, como me disse Funes, que a lembrança é uma sensação minuciosa e viva como o gozo físico e o tormento. Se pensar é esquecer diferenças e abstrair ou generalizar, este insignificante esquecimento se revelou como a segunda morte de meu pai.

Tradução: Wilson Coêlho

Fernando Arrabal nasceu aos 11 de agosto de 1932 e, embora ele seja um dos escritores mais controversos, na idade de dez anos, recebeu o Prêmio Nacional de “superdotado”, e em desordem: o Pasolini de cinema, o Nabokov Internacional do Romance, o Grande Prêmio de Teatro na Espanha, o Wittgenstein de Filosofia, o Mariano de Cavia de Jornalismo, o Alessandro Manzoni de Poesia, o Prêmio da Academia Francesa de Teatro.

Na ocasião de seus 86 anos, aos 16 de agosto, recebeu de “Il Sindaco” (o Prefeito) de San Miniato Vittorio Gabbanini o prêmio San Rocco 2018 – Festival do Pensamento Popular, por sua peça “Sarah e Victor”.

Aos 28 de agosto os Encontros Cinematográficos de Hergla (Tunísia) e a Associação Cultural África-Mediterrâneo lhe concedem o prêmio “Iniciação ao cinema” pelo filme “Viva la muerte”… e um guaxinim (a Legião de Honra) que ele compartilha com Duchamp, Ionesco, Simon Leys, Mandelbrot, Queneau e Man Ray, o título de transcendente Sátrapa de ‘Patafisica.

Jorge Francisco Isidoro LUIS Borges Acevedo (foto à direita) nasceu precisamente aos 14 phalle do ano 26 da Era Patafísica (24 de agosto de 1899, vulgar), em Buenos Aires, Argentina, e se ocultou aos 28 merdre do ano 113 da Era Patafísica (14 de junho de 1986, vulgar) em Gênova, Suissa. Algumas semanas antes de sua ocultação eu realizei com ele meu sétimo e último longa-metragem “Jorge Luis Borges, uma vida de poesia”.

Wilson Coêlho é poeta, tradutor, palestrante, dramaturgo e escritor com 17 livros publicados.

Licenciado e bacharel em Filosofia e Mestre em Estudos Literários pela UFES. Doutor em Literatura pela Universidade Federal Fluminense e Auditor Real do Collége de Pataphysique de Paris.

Tem 22 espetáculos montados com o Grupo Tarahumaras de Teatro.

Tem participação em festivais e seminários de teatro no país e no exterior, como Espanha, Chile, Argentina, França e Cuba, ministrando palestras e oficinas. Também tem participado como jurado em concursos literários e festivais de música.

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