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quarta, 14 de novembro de 2018

Aqui Rubens Pontes: Meu poema de sábado – Dos dias de cólera, de Luz Ribeiro

Com 51 por cento do eleitorado brasileiro, a mulher, com seu voto,  foi determinante  para eleger o presidente da  República, governadores de Estado e membros Congresso Nacional..

E, no entanto, até chegar à posição de eleitora, seu  percurso  para  conquistar o direito de votar foi mais difícil do que cruzar  o Desfiladeiro das  Termópilas .

Eminente e respeitado representante  da velha política capixaba, o líder da bancada na Câmara, Heitor de Souza (foto), em dezembro de 1921, manifestou  sua preocupação com a possibilidade de se estender à mulher o direito do voto:

– “Sou levado a reconhecer que o nível intelectual da mulher brasileira não está em condições de justificar a concessão do direito de votar, de tão grande alcance social, que viria alterar profundamente os costumes patriarcais da família”

Muniz Freire (foto à direita), que mais tade  seria eleito presidente do Estado, profligou, quando ocupava no Congresso um cadeira como representante do  Espírito Santo,  igual preocupação ao ser votada proposta de emenda constitucional:

– “Essa aspiração se me afigura imoral e anárquica. No dia em que a convertêssemos em lei pelo voto do Congresso, teríamos decretado a dissolução da família brasileira.“

(Nota do Portal: em 1892, Muniz Freire foi eleito Presidente do Estado, tendo realizado excelente administração. Casou-se com figura da elite social de São Paulo, poliglota e cantora lírica que daria nome à atual cidade de Colatina).

O que nenhum daqueles parlamentares contava era com a herança de determinação  de mulheres como dona Luíza Grimaldi, viúva do donatário Vasco Fernandes Coutinho, que em 1589 assumiu com mãos de ferro a Capitania do Espírito Santo.

Ou da rio-grandense do Norte Celina Guimarães (foto à esquerda), primeira eleitora brasileira (como registramos na coluna passada) ou da capixaba de Guaçuí, Emiliana Vianna Emery  (foto à direita, doceira como Cora Coralina), a primeira mulher no Estado do ES a conquistar com muita luta o direito de votar:

– “Aqui em Siqueira Campos (*) só tem dois homens:  eu e o padre Miguel. E ambos usamos saia”, disse ela ao superar dura resistência ao direito de votar.

(*) Siqueira Campos era o nome de Guaçuí.

No espaço de geografia e tempo entre os distantes registros  e  as conquistas da  fase atual,  as mulheres foram ocupando os espaços que lhes eram  vedados, e hoje se destacam na vida pública e na política brasileiras.

Anda agora, temos no  Espírito Santo  uma vice-governadora  eleita, Jacqueline Moraes (à esquerda).

Em São  Paulo a candidata à Assembleia Legislativa Janaina Paschoal (abaixo, à direita) – uma das autoras do documento que  pediu o impedimento da então presidente Dilma Rousseff –  obteve  fantástica votação superior a 2 milhões  e 100 mil votos (a marca  anterior fora do deputado estadual Fernando Capes – 306.268 votos).

A escolha do nosso poema para este sábado foi unânime: do colunista, do Portal, da Rádio Clube da Boa Música e do programa Sociedade  dos Poetas Vivos, e reflete a  nossa incondicional solidariedade à presença da mulher na vida do País e naturalmente na vida de  cada um de nós.  É assim que o Brasil e os homens estão sendo  certamente  cada vez  mais felizes.

Muito a propósito do tema, a poeta Luz Ribeiro teve que superar os mesmos preconceitos para ter seu nome reconhecido nos círculos fechados da elite intelectual brasileira.

Negra, gorda, feia, bissexuale pobre, quase um estigma que, segunda ela mesma, marcou fundamente  sua vida exigindo força, tenacidade, superação, para ser finalmente reconhecida  como pensadora e intérprete de uma sofrida classe social.

– “Mnha mãe sempre me dizia: “por ser preta, você tem que ser duas vezes melhor”.

Primeira mulher vencedora do BR-Slam, Campeonato Brasileiro de Poesia Falada promovido pelo  Itaú Cultural em 2016, com essa conquista foi  indicada para  representar o Brasil na disputa mundial na França, o “Slam Nation et  Coupe du Monde” (certame foi criado pelos Estados Unidos na década de 80).

Seu poema“Menimelímetros “ foi o escolhido para mostrar sua arte de versejar.

Rubens Pontes

Capim Branco, MG.

Dos dias de cólera

Luz Ribeiro

hoje eu resolvi abrir o peito
e enxergar o quanto que cabe aqui dentro
foram mais de 20 anos tentado me esconder
buscando uma resposta que me fizesse ver

entregando para tantos o que só cabe a mim
um coração sofrido que pra toda dor consente  um sim
e ao findar de cada experiência
sente mais os hematomas do que a própria consciência

preta blindada dos pés a cabeça
fria por necessidade, não por natureza
busco nutri meu  ori pra achar uma fortaleza
e ainda que fraca que  haja luz e aqueça

minha pele negra também busca um lugar ao sol
quero meu espaço mas vocês me cedem um anzol
dizendo que agora tenho uma vara pra pescar
mas não é  igual a sua,  né? É fácil notar

por  séculos convivemos com a escravidão
fomos soltos sem direito a um  pedaço de chão
o reflexo do mal feito é visto hoje nas quebradas
gente preta é a maior parte da classe favelada

os livros que eu li eram da filha da patroa
porque ela dizia que depois de um tempo isso enjoa
e até hoje por eles eu tenho obstinação
os livros na minha casa são  mais que objeto de decoração

por anos me afastei das línguas do  colonizador
achava que  estuda-las me tornaria talvez mais inferior
ignorância minha, achar que o venceria sem ler meu  manual de instrução
mas hoje eu  estudo  seus dialetos e renovo minha munição

cada vez que eu abro a boca eu  ouço o ruído dos chicotes
a impecabilidade da nossa língua foi adquirida nos açoites
pra me fortificar ouço palavras em yoruba
busco saber sobre orixás e patuás

ninguém esconde mais de mim minha própria história
e pode chamar mesmo  me de vitimismo meu plano de vitória
já tou ligando a diáspora daqui com a diáspora de lá
e logo  menos  vocês irão avistar

uma legião vestida de preto que não abaixa a cabeça
não se contenta  com lei áurea, quer mais é ser realeza
vai devolver com diplomas cada soco e esporro
aqui ninguém mais marca toca e precisar asfixiamos com gorro

não alisarei meu  cabelo para ser aceita
hoje sei que nossa religião não é seita
todos esses mal tratos é uma dívida sem reparação
por isso eu quero cotas e tudo que houver cifrão

sou afilhada bastarda e não quero ser filha da pátria
sou a própria puta por tantas vezes sexualizada
minhas ancestrais tiveram as saias levantas
e daí que surge tanta gente miscigenada

por isso  não  vejo  beleza no processo de miscigenação
e nem quando os brancos exclamam: eu tenho  sangue de negão
essas frases não provam nada e só trazem mais dor
então faz um chá de bom senso e tome um gole por favor

não sou  filha de pardal, muito  menos de mula
não tenho didática  minha ira não cabe em bula
e se pode não ser menos preconceituoso, disfarce

pegue suas falsas verdades e engula

Rubens Pontes,

jornalista, radialista,

publicitário,escritor,

 

 

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