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tera, 18 de dezembro de 2018

Aqui Rubens Pontes: Meu poema de sábado – Monólogo das mãos, de Michel Montaigne

 

Procópio ferreira com a mulher Aída Isquierdo e a filha Bibi ainda criança. Ao centro Procópio com Bibi adulta.

 

A coluna desta semana, numa pauta do Portal Don Oleari, aborda a temática da poesia no teatro brasileiro. Os exemplos se multiplicam, mas a nosso ver a citação de um dos seus expoentes – certamente aquele que através do tempo deu maior projeção à arte interpretativa – homenageia os pioneiros e a todos os que a eles sucederam até o nosso tempo – João Álvaro de Jesus Quental Ferreira, nome definitivamente incorporado aos anais do teatro brasileiro como Procópio Ferreira.

O colunista o conheceu pessoalmente em Belo Horizonte, quando me concedeu uma entrevista na extinta TV Itacolomi, e confesso que sua figura não me impressionou naquele primeiro contato: baixinho, narigudo, atarracado, meio curvado, um homem fora dos nossos padrões de reconhecimento de atores do teatro ou do cinema. Mas essa primeira impressão foi logo superada pela simpatia, pelo seu carisma e por sua destacada inteligência, domínio das artes cênicas e além delas.

Procópio Ferreira nasceu no Rio de Janeiro em 1898. Aos 18 anos, por contrariar os pais que queriam fazê-lo advogado, foi expulso de casa ao se matricular na Escola Nacional de Teatro. O palco era sua inarredável vocação, como ficou evidenciado ao longo dos seus 80 anos de vida.

As dificuldades iniciais para obter espaço no teatro levou-o a atuar em espetáculos circenses, até sua estreia como coadjuvante numa peça apresentada no Teatro Carlos Gomes, em 1917.

Foi o “start” para sua fantástica carreira como ator, dramaturgo, diretor, presente em 461 peças, entre elas “Deus lhe Pague”, de Joracy Carmargo, aplaudida com entusiasmo em palcos brasileiros e do exterior – foto à esquerda, acima: Procópio e André Villon.

Procópio Ferreira atuou em novelas na televisão (A Grande Viagem, As Minas de Prata), no cinema (O Trevo de Quatro Folhas, Berlim na Batucada, Quem matou Anabela).

Entre tantas obras primas encenadas por Procópio Ferreira, Sociedade dos Poetas Vivos veio em meu socorro indicando-me o “Monólogo das Mãos”, de Michel de Montaigne, um poema de eriçar cabelos mesmo para quem, como nós, já não os temos.

E um detalhe: o Portal e a Rádio Clube da Boa Música levantaram na memória uma apresentação antológica no programa de Jô Soares na TV Globo do poema por Bibi Ferreira, filha de Procópio com a bailarina e cantora espanhola Aida Izquierda.

Sem mais delongas, leiamos o poema e ouçamos Bibi.

Sereno fim-de-semana, como escreveria nosso cronista maior Orlando Eller.

Rubens Pontes

Capim Branco, MG.

Monólogo das mãos

Michel de Montaigne

Para que servem as mãos?
As mãos servem para pedir, prometer, chamar, conceder, ameaçar, suplicar, exigir, acariciar, recusar, interrogar, admirar, confessar, calcular, comandar, injuriar, incitar, teimar, encorajar, acusar, condenar, absolver, perdoar, desprezar, desafiar, aplaudir, reger, benzer, humilhar, reconciliar, exaltar, construir, trabalhar, escrever…
As mãos de Maria Antonieta, ao receber o beijo de Mirabeau, salvaram o trono da França e apagaram a auréola do famoso revolucionário.

Múcio Cévola queimou a mão que, por engano, matou Porcena.
Foi com as mãos que Jesus amparou Madalena; com as mãos Davi agitou a funda que matou Golias. As mãos dos Césares romanos decidiram a sorte dos gladiadores vencidos na arena; Pilatos lavou as mãos para limpar a consciência; os anti-semitas marcavam a porta dos judeus com mãos vermelhas como signo de morte! Foi com as mãos que Judas pôs ao pescoço o laço que os outros não encontraram.
A mão serve para o herói empunhara espada e o carrasco, a corda; O operário construir e o burguês destruir; O bom amparar e o justo punir; O amante acariciar e o ladrão roubar; O honesto trabalhar e o viciado jogar. Com as mãos atira-se um beijo ou uma pedra, uma flor ou uma granada, uma esmola ou uma bomba! Com as mãos o agricultor semeia e o anarquista incendeia!

As mãos fazem os salva-vidas e os canhões; os remédios e os venenos; os bálsamos e os instrumentos de tortura, a arma que fere e o bisturi que salva. Com as mãos tapamos os olhos para não ver e com elas protegemos a vista para ver melhor. Os olhos dos cegos são as mãos. As mãos na agulheta do submarino levam o homem para o fundo como os peixes; no volante da aeronave atiram-nos para as alturas, como os pássaros. O autor do “homo Rebus” lembra que a mão foi o primeiro prato para o alimento e o primeiro copo para a bebida; a primeira almofada para repousar a cabeça, a primeira arma e a primeira linguagem. Esfregando dois ramos, conseguiram-se as chamas.

A mão aberta, acariciando, mostra a bondade; fechada e levantada, mostra a força e o poder; empunha a espada, a pena e a cruz! Modela os mármores e os bronzes; dá cor às telas e concretiza os sonhos do pensamento e da fantasia nas formas eternas da beleza. Humilde e poderosa no trabalho, cria a riqueza; doce e piedosa nos afetos, medica as chagas, conforta os aflitos e protege os fracos. O aperto de duas mãos pode ser a mais sincera confissão de amor, o melhor pacto de amizade ou um juramento de felicidade. O noivo para casar-se pede a mão de sua amada; Jesus abençoava com as mãos; as mães protegem os filhos cobrindo-lhes com as mãos as cabeças inocentes. Nas despedidas, a gente parte, mas a mão fica, ainda por muito tempo agitando o lenço no ar.

Com as mãos limpamos as nossas lágrimas e as lágrimas alheias. E nos dois extremos da vida, quando abrimos os olhos para o mundo e quando os fechamos para sempre ainda as mãos prevalecem.
Quando nascemos, para nos levar à carícia do primeiro beijo, são as mãos maternas que nos seguram o corpo pequenino. E no fim da vida, quando os olhos fecham e o coração para, o corpo gela e os sentidos desaparecem, são as mãos, ainda brancas de cera que continuam na morte as funções da vida. E as mãos dos amigos nos conduzem…

 E as mãos dos coveiros nos enterram.

Rubens Pontes,

jornalista, radialista,

escritor

 

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