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tera, 18 de dezembro de 2018

Aqui Rubens Pontes: Meu poema de sábado – “Meu nome é Favela”, de Arlindo Cruz

 

 

A narrativa é do escritor Jimmy Burns, autor do livro editado na Argentina sobre o Papa Francisco – “El Papa de La Promesa”, fascinante roteiro histórico sobre o Vaticano e suas implicações na postura de lideranças religiosas através dos tempos. Uma leitura que ultrapassa conceitos de proselitismo religioso, sugerida para quem tem fé, para os indiferentes e até para ateus.

Escreveu Jimmy Burns:

– “Em 1983, o padre jesuíta espanhol de nome Jesus, conduziu-me a um edifício na Favela do Vidigal onde, numa pequena capela, o Papa João Paulo II, em sua visita ao Brasil, oficiaria uma missa. No seu interior, uma urna abrigava grande anel de ouro doado por Sua Santidade para que, com sua venda, pudesse ser dado algum lenitivo à penosa vida dos favelados.”

Foi um ato que simbolizava a visão social do Sumo Pontífice, com sua ação voltada principalmente para as camadas marginalizadas da sociedade.

Numa segunda viagem ao Brasil o escritor, já então na comitiva do Papa Francisco, retornou à favela do Vidigal, lembrando-se da modesta capela, mais parecida com uma garagem, salvo apenas pelas paredes ilustradas com desenhos de crianças e frases que evocavam a consciência social da Igreja. Não havia cadeiras, e assim as pessoas assistiam às missas em pé ou sentadas apenas em volta do altar: uma mesa nua, com um jarro, uma cruz e fatias de pão.

Escreveu em seu livro Jimmy Burns:

– “Cantavam, e na oração do “Pai Nosso” todos se deram às mãos para rezar, um gesto de solidariedade marcante na confissão de fé.”

E prosseguiu:

– “Lembrei-me da pequena urna com o anel doado pelo Papa João Paulo II (na foto, entregando o anel) com a inscrição:

Este anel foi doado pelo Papa João Paulo II por ocasião de sua visita ao Vidigal.

E o anel continuava lá. Perguntei ao padre celebrante por que o anel não fora vendido para que o resultado da venda fosse investido na favela.

A resposta foi surpreendente:

– “Foi realizada uma votação e todos os moradores da favela preferiram conservar o valioso anel como símbolo do amor ao próximo e porque, na visão dos favelados, não é apenas o dinheiro que as pessoas querem aqui, e sim, acima disso, o exemplo de uma coexistência social honesta e justa”.

Ao fazer este registro, o colunista e o Portal Don Oleari lembram que, na Favela do Vidigal, seus habitantes são levados a conviver com traficantes de drogas, assaltantes, milícias impondo regras de comportamento na comunidade.

No entanto, mesmo parte dessa minoria dominante pela força e pela violência pratica fé religiosa, os evangélicos em seus templos e os católicos que frequentam as missas celebradas na pequena capela situada no alto da colina da favela.

A   mesma capela visitada por dois Papas e onde continua incólume a vulnerável e sem defesa urna expondo o precioso anel doado pelo Papa João Paulo II quando de sua viagem ao Brasil, 35 anos já agora passados.

Os tarimbados profissionais da imprensa que atuam no “pool de empresas” do Portal Don Oleari, habituados a conviver com uma sociedade cada vez mais fria e mais indiferente do que ostras camufladas em suas carapaças, se confessam comovidos diante da postura dos moradores do Vidigal, ali bem perto dos sofisticados bairros de Ipanema e Leblon com seus edifícios de luxo e seus endinheirados moradores.

Arlindo Cruz será homenageado no carnaval de 2019 pelo X9, escola de samba de São Paulo.

Esse edificante comportamento e esse confortante exemplo das famílias da comunidade inspirou aos envolvidos nesta coluna semanal a escolha do Poema deste Sábado.

Como uma homenagem à população do Vidigal por parte deste colunista, do Portal Don Oleari e, por fé de oficio, da Rádio Clube da Boa Música e do nosso Sociedade dos Poetas Vivos.

Uma composição de Arlindo Cruz, poeta e sambista: “Meu nome é Favela”.

Rubens Pontes

Capim Branco, MG. –

– Passos, saltos & queda – livro de Rubens Pontes no linki abaixo:

https://rubenspontes.com.br

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