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tera, 18 de dezembro de 2018

Aqui Rubens Pontes: Meu poema de sábado – Escrevendo a Oscar Gama Filho, de Ana Cristina Costa Siqueira

Ana Cristina Costa Siqueira em foto de entrevista feita pela A.C.I.M.A – Associazione Culturale Internazionale Mandala http://acimamandala.blogspot.com/2013/12/acima-entrevista-escritora-ana-cristina.html –

 

Dois momentos, dois amores

Vivemos todos nós momentos mágicos na convergência que forma nosso destino. O nascimento, a visão do mundo, o primeiro amor, nossa primeira certeza, nossa escolha na primeira encruzilhada que nos é proposta.
Assim é o mundo.
Meu umbigo foi enterrado em terras das Minas Gerais, meu coração foi plantado nas doces praias do Espírito Santo, conquistado por amigos dos quais jamais esquecerei.

Ana Cristina Costa Siqueira nasceu em Juiz de Fora/MG, passou parte da juventude em Cáceres, Mato Grosso, e foi com o pai militar para Vitória/ES, onde se projetaria como expoente das letras brasileiras.

Na capital capixaba, estudou na UFES (Universidade Federal do ES), graduando-se em Letras. Tornou-se professora de Língua Portuguesa e Literatura Brasileira.
No campo das ideias, tornou-se poeta, cronista e autora de contos, publicou trabalhos na Revista da Letras e nos jornais A Tribuna e A Gazeta.

Detentora de premiação em certames realizados no País, Ana Cristina Costa Siqueira teve seu nome alçado ao Panteon da cultura universal com a conquista em vários anos sucessivos, em 2013, 2014 e 2015, do prêmio A.C.I.M.A. pela sua contribuição à cultura mundial.

O certame ACIMA é promovido pela Associazione Culturale e Internazionale Mandala, com sede na Itália.

Ana Cristina obteve Menzione d’onore per l’opera “Pequena Crônica” no ConcorsoLitterário Internazionale também realizado na Itália.

Selecionada para compor esta coluna, neste primeiro sábado de dezembro, o grupo de imprensa do Portal Don Oleari, Rádio Clube da Boa Música e da Sociedade dos Poetas Vivos voltou-se para o título apontado – “Dois momentos, dois amores” – escolhendo o poema de Ana Cristina Costa Siqueira homenageando um grande poeta capixaba de Alegre, “Escrevendo a Oscar Gama Filho.”

Rubens Pontes, jornalista, escritor, poeta,

 De Capim Branco, MG

 Elza e Carlos Nejar com Oscar Gama Filho

 

ESCREVENDO A OSCAR GAMA FILHO

Ana Cristina Costa Siqueira

Amo Oscar, para quem escrevi “Poema deitado no seu peito”.

Amo-o por sua poesia, porque do homem nada sei ou conheço.
Criador de única maga, como sua obra aberta, (obra de maga cujas cartas prenderam-na em casulo),
tomou-me a mão encarquilhada, e seguimos, criaturas da noite, percorrendo vinhedos e geadas,
soprando ventos mornos com as asas. No mercado da Vila Rubim, cheiramos ervas de cura,
acordamos na primavera de Praga.
Mais do que transparece em seus silêncios,
quando me diz uma frase e outra e se cala, mergulhados ambos em duas laudas de poema,
pisamos as ruas em tempo de glória, saltamos de um vinho para o chão de estrelas.
A poesia, atemporal, derrama seu pó de ostras
em solitário lobo; carcará; gavião real. Pássaro e avatar não caçam restos humanos; apenas trazem sob velhas asas o fado de estrelas.
Como os óculos de Drummond, sombra e luz refletem o ouro da espada – a palavra:
graal escondido em varais de edifícios,
à procura de noites longas, sem ofício. O poeta ainda ama o sol sobre os músculos.
Vestido em pele de homem, lobisomem,
traduz-se, poema, em várias línguas, todas elas completamente estranhas a mim,
que misteriosamente me inflamo e me recrio. Os versos que me atravessam o peito, na madrugada,
devolvem-lhe nas manhãs em flores tenras.
Tão pouco se vira num poeta tanto empreendimento em palavra
que se empenhasse em poesia: pedra fundamental para outras artes:
mas sempre arte da palavra.
Oscar, o poeta, tinha ossos de vidro, um risco no espelho o fragmentava, não sendo dele ele mesmo – na lavra. “The wasteland” visitei, com meu limo, e algum sonho soprei-lhe aos ouvidos;
as moscas não lhe davam sossego se, por acaso, se lhe quebrassem os joelhos.
Minha pele serviu-lhe às palavras
escritas com tinta de corpo, e de todas as páginas deste corpo-livro,
que um amor ancestral escrevera, soltaram-se rosas desidratadas,
lidas bem antes do vento e depositadas na cabeceira.
E não sendo dele ele mesmo, o poeta, amado, mais do que amou;
lavrou cada folha deste livro, cultivou as uvas, preparou o vinho,
tomou-o em seu cálice rústico distante do leme, na proa de seu navio.
Congregados ao desencontro,
de nós próprios extraditados, olhamos os pelicanos – apenas os que imagino
tão longe do mar e da restinga; de tal forma me comove o voo raso, que o mar transborda pela cidade.
Com igual teimosia busquei
o “graal”, desejei o “cálice”. Busquei-o nas palavras cíclicas, no tom enigmático de seus versos: tornei-me redundante como as ondas, mas, como as ondas, sempre adversa.
Desembarquei tão logo ele entrou; entre imigrantes vivi, aprendi sua dança e comi de sua comida – acerquei-me de tudo: essências comuns definiram-me os sentimentos. Filho de Hermes – o espírito de suas palavras
me trouxe as essências raras: o absinto.
Pássaros livres bicaram seus lábios para que deles saíssem os meus sonhos.
Vênus renascida, dou-lhe a palavra que me coube muito pouco, a nado: se nadadora fui, pelos seus versos,
como ainda o sou e serei sempre. Quando escrevo, essa é minha forma de alcançá-lo, e até aos ossos chegar,
com meus flancos de nadadora, tecendo outra gênese para as nascentes.
Fragmento-me, indiferente aos focos, se nadadora sou e tenho os braços longos, cito o que se escreveu sobre outra Ana,
que em mim não esteve e não sou eu: (“Ela era um navio difícil de se ancorar no espaço”).
Houve um tempo em que estive louca,
como um tempo de deserto, e nada coerente eu dizia, fazia ou pensava:
aos poetas é dado enlouquecer. Tenho nas mãos “Relógio Marítimo”, seu livro; própria dos poetas, a sua incompletude maldita,
por isso mesmo tão humana, e tão lida.
Com extrema e paradoxal clareza, sou a saga de seus moinhos de vento: nem anti-sentimental nem “antibélica”,
e nenhum movimento percebo nas pedras ou sobre as ondas – seriam seus versos e os meus?
Onde crescia a restinga – e havia muita!-,
o sol resvalou os ramos; ouvia-se rádio na areia e a sombra dos prédios já se alongava. Muitas estrelas – eu diria – eram frias camas em que me deitei, distante de mim mesma,
minha estação de marijuana.
Além do nada, a estranheza de seus poemas
espalhou-se como a restinga, via sacra que percorri, que me encantou e me encanta,
e onde fundei a minha poesia. O poeta não escolheu ser edifício nem via sacra.
De seus poemas não direi mais,
como louca, que são haicais em dimensões enormes – talvez o sejam!
Arritímico é o coração do deserto; a consciência que se perde, o abismo.
Escute, Oscar, a poetisa repete a voz
que ecoa em seus versos, para dizer que hoje é um tempo
de proximidade e calma, a poesia, uma espécie de ponte,
nesta terra desolada.
E ela não precisa de rimas nem de despedidas (nesse tempo de mortos).

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