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tera, 18 de dezembro de 2018

Aqui Rubens Pontes: Meu poema de sábado – As Ruas da Cidade, de Lô Borges – Homenagem aos 121 anos de Belzonte

Marco Zero de Belzonte: Bairro Boa Viagem com dez quarteirões e cerca de 4 mil e 500 habitantes. Foto: Alex de Jesus.

 

Belo Horizonte, a trepidante Capital de Minas Gerais, com seus quase 3 milhões de habitantes, engalana-se para comemorar,
dia 12 próximo, o 121º aniversário de sua fundação, a nova capital projetada nas fraldas da Serra do Curral, local onde
se formara pequeno povoado instalado por um bandeirante paulista que trocara o garimpo pela atividade agrícola..

Curiosamente, uma das objeções levantadas pelos que optavam pela transferência do Governo para
Juiz de Fora, Barbacena ou São João del Rey, era a impossibilidade de se erguer uma cidade com as dimensões
pretendidas em apena 4 anos.
A objeção, como mostra a História, foi superada, como seria superada objeção idêntica quando JK decidiu construir Brasília… em 4 anos.

O fato, de significativa importância para a História brasileira, teve os seu centenário registrado
por Hamilton Gangana quando a cidade festejava sua contagem de tempo, com a jovialidade marcante
do seu povo. Mineiro típico, belo horizontino do bairro de Santa Efigênia, ninguém melhor do que ele para nos contar
a grande saga que marcou a criação da cidade que iria transferir para Curral del Rei a então sede do Governo da antiga capital de Ouro Preto.

O texto do cronista e homem de comunicação narra o que o Portal Don Oleari pretende
assinalar e o colunista (meio suspeito), a Rádio Clube da Boa Música e a Sociedade dos Poetas Vivos
endossarem com aplausos. Afinal, ninguém nega a afinidade existente entre Minas e o Espírito Santo,
ambos ligados por laços de cultura e convivência de capixabas e mineiros.

Relembremos o que escreveu Hamilton Gangana e, depois dele, leiamos o poema como a cidade
é vista por um dos expoentes da literatura mineira: Lô Borges, poeta e compositor, um dos fundadores
do Clube da Esquina, em Santa Tereza, com sua instigante “Ruas da Cidade”.

Rubens Pontes
Capim Branco, MG

BH: 120 anos aos trancos e barrancos –

Por Hamilton Gangana

Encontrei, por acaso, um  caderno  especial com oito páginas já amareladas, editado pelo  jornal  Hoje em Dia,data de  12/12/1997, uma sexta-feira  em que  Belo Horizonte  amanhecera com longo foguetório,anunciando  as festas  comemorativas  de seus 100 anos (1897).

Na capa do especial, destaque para uma foto da  Comissão de Construção da nova Capital, onde aparecem dezessete  membros;  três  assentados  e catorze  em  pé, e todos rigorosamente nos trinques:   ternos   escuros ,coletes,  colarinhos altos;  gravatas borboleta, bigodes  e  borzeguins bem cuidados –  convenientemente  preparados  para  um flagrante histórico.  O título  da matéria, assinada  pelo  jornalista  e editor Nilton Eustáquio  é “História de  amor à primeira vista” e conta fatos interessantes da fundação e  dos primeiros anos da  primeira cidade brasileira planejada.

Realmente, amor à primeira vista é  o que ainda acontece quando se deslumbra, pela primeira vez,  o nosso  belo horizonte, e  não foi diferente  com  celebridades mundiais como Machado de Assis (1839/1908), e  o  Papa João Paulo II (1920/2005), que estiveram  por aqui em épocas bem distintas.

Um dos símbolos culturais de BH, o Clube da Esquina.

Coube a João Leite da Silva Ortiz  fundar o arraial  de  Curral del- Rei,  em  1701, local   que  deu   origem  à  cidade  de  Belo Horizonte,   inaugurada  em dezembro  de  1897,  para substituir  a  colonial Ouro Preto, que  apresentava  dificuldades  de urbanização, criadas pela  topografia  acidentada. Houve acirrada  disputa  entre diversas cidades, como Curral  Del- Rei,  Barbacena, Paraúna,  Várzea do Marçal, esta um vilarejo nos arredores  de  São João del- Rei  e a respeitada Juiz de Fora, que  pretendiam  sediar a  nova capital de Minas.

Mas acabou mesmo  prevalecendo a escolha  por  Curral del- Rei.  Por influência da Proclamação da República, os moradores  de  Curral del-Rei manifestaram  o desejo  de mudar o nome da cidade, que receberia muitas  sugestões:  Terra Nova, Santa Cruz, Nova Floresta,  Cruzeiro do Sul,  Cidade de Minas e Novo Horizonte, tendo esse  último  nome vencido, mas   alterado  para  Belo Horizonte,  por decreto  do governador do Estado,  João Pinheiro da Silva.

O governo do Estado investiu  alto para as condições daquela época:  700 mil contos em indenizações  e  desapropriações  no  arraial  de Curral del- Rei,  cuja  população somava   três  mil habitantes.

O engenheiro Aarão Reis (foto) foi  indicado  presidente da Comissão Construtora e a  “Grande Curral del- Rei”  era composta pelos seguintes povoados:  Sete Lagoas,  Contagem, Santa Quitéria,  Buritis,  Capela Nova de Betim,  Piedade do Paraopeba, Brumado, Itatiayussu,  Morro de Mateus Leme,  Neves,  Aranha  e  Rio Manso: uma  área extensa  e  importante, que já contabilizava uma população de  18 mil  habitantes, em 1815.

A inauguração da primeira cidade brasileira  criada na prancheta era o assunto  inevitável  em  todas as rodas, no país inteiro.

E foi  quase tudo muito bem pensado pela Comissão de Construção,  que  planejou  um  traçado  inteligente  com amplas  avenidas, praças, ruas, logradouros, parques  e  jardins floridos, contemplados com muito verde  e identificados  com nomes de estados,  cidades, rios, montanhas, datas históricas, cidadãos respeitáveis,  pedras preciosas,  tribos indígenas e denominações minerais. O clima ameno e  agradável  era um privilégio da região.

Na prancheta foi criada  a avenida do Contorno  para demarcar os  limites  da  área  central  urbana, como se fosse um anel,  englobando os  primeiros  bairros  mais  nobres,  deixando do lado de fora  as áreas suburbanas  ou periféricas, apelidadas  de  colônias  e  vilas.

Esse,talvez, tenha sido  o  grande  pecado  da Comissão  de Construção, que  previu  uma população  máxima  de apenas 300 mil habitantes,  para  a nova  e  promissora capital do Estado.  Atualmente,a cidade  soma cerca de 2 milhões e  500 mil  moradores,a terceira maior do paíse que sofre,  há  muito tempo,   com a falta de  espaço para sua crescente expansão.

Aos 25 anos, a bela e  revolucionária cidade do futuro chamada Belo Horizonte viveu e  curtiu intensamente a revolução  cultural, com a Semana da Arte Moderna de 1922, que marcou  época no país.

Escritores, poetas, jornalistas  e  intelectuais modernistas,  se reuniam  no Bar do Ponto,  Trianon e na  Confeitaria Estrela, todos localizados na  rua da Bahia (foto),  a  mais  famosa e movimentada da cidade, que ganhou  de  boêmios famosos o refrão “subir Bahia e descer Floresta”.

Entre os  mineiros  mais  conhecidos, Carlos Drummond de Andrade, Milton Campos,  Pedro Nava,  Emilio Moura,  Cyro dos Anjos,  Belmiro Braga, Luiz  Vaz,  Alberto Campos,  Abgar  Renault  e João Alphonsus. Era também na rua da Bahia  que  ficavam o  elegante  Teatro   Municipal, na esquina com rua Goiás, o  jornal Folha de Minas,  o  Grande Hotel,  a Câmara de Vereadores  e  o Cine Teatro Guarani; o  Clube Belo Horizonte e o Minas Tênis -, além  de livrarias,  restaurantes e as mais sofisticadas lojas comerciais como o Park Royal,  instalada num prédio  de  três  andares.

A cidade  se desenvolveu de maneira  imprevisível   e  ultrapassou,  rapidamente,  algumas importantes,  antigas  e  consolidadas capitais  como  Recife,  Porto  Alegre, Fortaleza, Salvador e Curitiba.

Pena que edificações construídas para sediar órgãos do governo e belas residências dos mais endinheirados, na tenham sido preservadas. Praticamente, sobreviveram os prédios  das secretarias de estado   e  o  do Palácio  da Liberdade.

Agora, estamos  no mês de  uma nova data: 12 de dezembro de 2017, quando  a  nossa jovem Belo Horizonte estará comemorando seus 120  anos, que merece ser marcada  por eventos educativos,  artísticos,  culturais  e  esportivos  que só  trarão  benefícios e  retorno  positivo  a todos os setores  e  segmentos de atividades.

Sabe-se que o momento é muito difícil para o Brasil, que  passa pela pior recessão de todos os tempos, o  que alterou  previsões,  adiou  obras  e  programas de desenvolvimento.  E, ao mesmo tempo, Belo Horizonte  vem sofrendo,  ao longo dos anos, com a visível falta de obras de infraestrutura e de saneamento básico; da utilização de novas  soluções no trânsito e de  transportes públicos, bem como  das obras de expansão do malfadado metrô ,  do criminoso anel rodoviário, que, hoje, não passa de  uma via urbana condenada  e  extremamente  perigosa, além da nova rodoviária, cujas obras estão  paralisadas.

Além disso, sofremos com problemas crônicos do lixo,  das enchentes do Arrudas e  de  outros locais críticos;  da permanente  falta de leitos  nos hospitais e   do eterno problema da  ausência  de moradias para os mais  carentes,  o  que provoca outro sério  problema: as  invasões.

Falta também ampliar o número de creches e salas de aulas  nas  escolas de ensino fundamental; a  melhoria dos   meios  de transporte  e  mais  cuidado com  a  segurança da população, que não  suporta mais  ouvir desculpas e adiamentos  de   velhas soluções anunciadas.Mas,apesar de todas  essas dificuldades , o  prefeito  Alexandre Kalil, com a sua  energia e   vontade política,  foi eleito  com uma  nova proposta de trabalho  capaz  de  mudar esse triste quadro .

Ele deixou bem  claro,  durante a campanha eleitoral,  que nada iria construir, e  sim, melhorar e  fazer funcionar o que já existe. A prefeitura de Belo Horizonte (PBH), com  Kalil deve anunciar, com certeza,   um programa de eventos comemorativos  dos 120 anos,   que acontece no primeiro período  de sua   gestão  à  frente  do município  que, segundo ele – governa para quem  precisa. É verdade que será   preciso muita coragem  para arregaçar as mangas,  trabalhar  e  obter o   apoio  de todos os setores  produtivos,  governamentais ou não, para,  juntos,  promover  as  ações e fazer acontecer, bem ao estilo  determinado do  atual dirigente municipal.

É preciso  dizer em alto  e  bom som que  Belo Horizonte  nunca esteve  tão  feia  e  tão carente de um banho de modernidade,  de uma ação conjunta   para acabar com as mazelas  e tanta sujeira acumulada nas ruas,  da  falta de iluminação, da  ausência de manutenção  em  parques, jardins   e  monumentos;as  ruas escuras e esburacadas,   com uma  sinalização precária;    as  pichações   criminosas, a miséria  estampada  por   milhares  de   moradores de  rua;  a necessidade urgente da revitalização do hipercentro, inteiramente descaracterizado.

Torna-se também inadiável o combate aos altos índices de criminalidade, que ocorrem em todas  os  cantos da grande  metrópole,  gerando  insegurança e  violência  jamais  presenciadas. Por essa e outras,os  moradores de BH  andam descrentes , assustados  e com medo de andar  pelas  ruas,  e  também impacientes com tantos  problemas insolúveis – entra ano, sai ano – aqueles que outras capitais já  conseguiram  amenizar  ou  resolver. E por onde anda aquele  anunciado Plano  Diretor,  criado para  estabelecer  prioridades e dar melhor  ordem  e  rumo às ações  de trabalho da PBH?

Por causa de tudo isso,os moradores não têm mais  disposição para receber aquela  envelhecida e esfarrapada  desculpa de  que  não serão comemorados  os  120 anos da cidade, por motivo da crise  que atinge todo o  país. É preciso unir  forças e vencer o desafio.

Um bom exemplo de gesto participativo aconteceu  no  último carnaval  da cidade,  que  surpreendeu  a todos  pela criatividade,  desenvoltura e quebra de paradigmas, levando verdadeiras multidões às ruas e mostrando  que o   belo-horizontino  sabe,  gosta  e está disposto a  participar de  ações comunitárias e de eventos com vontade e  atitude.

Como seria bom ver  repetido  o belo exemplo  do  carnaval e comemorar, condignamente,  os  120 anos  de  nossa  jovem e amada  Belo Horizonte.  Nossa cidade merece receber esse  gesto de carinho.

Ruas da cidade

Lô Borges (Clube da Esquina)

Guacurus, Caetés, Goitacazes Tubinambás, Aimorés

Todos no chão

Guajajaras, Tamoios, Tapuias Todos Timbiras, Tupis

Todos no chão

A parede das ruas não devolveu

Os abismos que se rolou

Horizonte perdido no meio da selva

Cresceu o arraial

Arraial

Passa bonde, passa boiada

Passa trator, avião

Ruas e reis Guajajaras, Tamoios, Tapuias Tubinambás, Aimorés

Todos no chão

A cidade plantou no coração

Tantosnomes de quem morreu

Horizonte perdido no meio da selva

Cresceu o arraial Arraial

Guacurus, Caetés, Goitacazes, Tubinambás, Aimorés

Todos no chão

Guajajaras, Tamoios, Tapuias Todos Timbiras, Tupis

Todos no chão A parede das ruas Não devolveu

Os abismos que se rolou Horizonte perdido no meio da selva

Cresceu o arraial. Arraial

Passa bonde, passa boiada,Passa trator, avião

Ruas e reis Guajajaras, Tamoios, Tapuias Tubinambás, Aimorés

Todos no chão. A cidade plantou no coração

Tantos nomes de quem morreu

Horizonte perdido no meio da selva. Cresceu o arraial. Arraial

Fotos: de cima prabaixo: Clube da Esquina no comecim; Lô Borges ao violão e a turma com Juscelino; a mesma foto com JK ampliada; e o Clube da Esquina 35 anos depois.

 

 

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