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domingo, 19 de maio de 2019

Aqui Rubens Pontes: Meu poema de sábado – Sentimento do tempo, de Paulo Mendes Campos

 

Fernando Sabino, Otto Lara Rezende, Paulo Mendes Campos e Hélio Pellegrino: escultura em frente à Biblioteca Pública de Belzonte/MG.

 

 

Conheci Paulo Mendes Campos em 1944, ou princípio de 45. Fernando Sabino, meu colega na Faculdade de Direito da UFMG,
foi quem me apresentou como expoente de uma geração que buscava espaços para divulgar seus trabalhos.
Segundo Fernando Sabino, Paulo Mendes Campos não tardaria a ter seu nome inscrito nas páginas das nossas enciclopédias de cultura.

A predição se confirmaria no futuro, mas em tempos antes que o sucesso chegasse, nada indicava que a expectativa de Fernando Sabino
pudesse de fato ocorrer.

Nascido em 1922, filho do médico e escritor Mário Mendes Campos, o futuro poeta, escritor, jornalista e tradutor não mostrou,
na infância e na juventude, nenhuma aptidão para a arte de escrever.

Fernando Sabino, Hélio Pellegrino, Paulo Mendes Campos e Otto Lara Resende.

Reprovado nos primeiros anos de estudo,
Paulo Mendes Campos foi internado no Colégio Dom Bosco de Cachoeira do Campo para, a seguir e sucessivamente,
procurar cursar Odontologia, Veterinária e Direito. Não conseguiu completar nenhum deles. Seu ideal romântico era ser aviador
para voar além da Serra do Curral na procura de sonhos impossíveis, mas, como ele próprio dizia, “diploma, mesmo, só obteve o de datilografia”.

Foi entretanto no seu retorno a Belo Horizonte que finalmente seu futuro passou a ser definido.

Integrou-se logo a um grupo de jovens
voltados para a literatura ao qual pertenciam Fernando Sabino, Otto Lara Resende, Helio Pelegrino, (quatro dos citados na foto acima) João Etienne Filho e meu dileto e saudoso amigo Murilo Rubião.

Nessa época, ainda timidamente, publicou seus primeiros trabalhos no Suplemento Literário do jornal “Folha de Minas”
A repercussão positiva junto aos leitores foi animadora, e Paulo Mendes Campos não parou mais de escrever contos, crônicas, poemas.

Carlos Drummond de Andrade, Vinícius de Moraes, Manuel Bandeira, Mario Quintana e Paulo Mendes Campos

Em 1945, a exemplo de seus companheiros que emigraram, mudou-se para o Rio de Janeiro com o primeiro propósito de conhecer
pessoalmente Pablo Neruda, em visita ao Brasil. Anos mais tarde, traduziu para nossa língua poemas do ganhador do Prêmio Nobel
de Literatura.

Passou nesse tempo a colaborar em “O Jornal”, no “Correio da Manhã”, do qual foi diretor durante dois anos, no “Diário Carioca”.
e, por muito tempo, cronista da ” Revista Manchete”.

No ano de 1949, já nome reconhecido nos meios da inteligência brasileira, empreendeu longa viagem à Europa onde, dois anos depois,
casou-se com Joan Abercrombie, de origem inglesa, musa e companheira durante toda sua vida.

Paulo Mendes Campos morreu em 1991, aos 69 anos de idade, deixando como herança para seus milhares de leitores textos que
nunca perderam atualidade. Além de escrever poemas, crônicas e artigos jornalísticos, poliglota que foi, traduziu obras de Julio Verne, Oscar Wilde (à esquerda), Shakespeare,
Guy de Maupassant, Verlaine, H.G. Weles, Pablo Neruda e muitos outros autores de língua inglesa, francesa e espanhola.

Neste tempo, em que o Portal Don Oleari e agregados Rádio Clube da Boa Música e programa Sociedade dos Poetas Vivos prestam homenagem aos mineiros radicados no Espírito Santo, a Belo Horizonte e a seu povo amigo no 121º aniversário da Capital mineira,
o colunista foi levado a selecionar um dos poemas marcantes de Paulo Mendes Campos como sugestão de leitura no segundo sábado de dezembro,
mês do do Natal.

Rubens Pontes
Capim Branco, MG.

SENTIMENTO DO TEMPO

Paulo Mendes Campos

Os sapatos envelheceram depois de usados
Mas fui por mim mesmo aos mesmos descampados
E as borboletas pousavam nos dedos de meus pés.
As coisas estavam mortas, muito mortas,
Mas a vida tem outras portas, muitas portas.
Na terra, três ossos repousavam
Mas há imagens que não podia explicar: me ultrapassavam.
As lágrimas correndo podiam incomodar
Mas ninguém sabe dizer por que deve passar
Como um afogado entre as correntes do mar.
Ninguém sabe dizer por que o eco embrulha a voz
Quando somos crianças e ele corre atrás de nós.
Fizeram muitas vezes minha fotografia
Mas meus pais não souberam impedir
Que o sorriso se mudasse em zombaria
Sempre foi assim: vejo um quarto escuro
Onde só existe a cal de um muro.
Costumo ver nos guindastes do porto
O esqueleto funesto de outro mundo morto
Mas não sei ver coisas mais simples como a água.
Fugi e encontrei a cruz do assassinado
Mas quando voltei, como se não houvesse voltado,
Comecei a ler um livro e nunca mais tive descanso.
Meus pássaros caíam sem sentidos.
No olhar do gato passavam muitas horas
Mas não entendia o tempo àquele tempo como agora.
Não sabia que o tempo cava na face
Um caminho escuro, onde a formiga passe
Lutando com a folha.
O tempo é meu disfarce.

SENTIMENTO DO TEMPO

Os sapatos envelheceram depois de usados
Mas fui por mim mesmo aos mesmos descampados
E as borboletas pousavam nos dedos de meus pés.
As coisas estavam mortas, muito mortas,
Mas a vida tem outras portas, muitas portas.
Na terra, três ossos repousavam
Mas há imagens que não podia explicar: me ultrapassavam.
As lágrimas correndo podiam incomodar
Mas ninguém sabe dizer por que deve passar
Como um afogado entre as correntes do mar.
Ninguém sabe dizer por que o eco embrulha a voz
Quando somos crianças e ele corre atrás de nós.
Fizeram muitas vezes minha fotografia
Mas meus pais não souberam impedir
Que o sorriso se mudasse em zombaria
Sempre foi assim: vejo um quarto escuro
Onde só existe a cal de um muro.
Costumo ver nos guindastes do porto
O esqueleto funesto de outro mundo morto
Mas não sei ver coisas mais simples como a água.
Fugi e encontrei a cruz do assassinado
Mas quando voltei, como se não houvesse voltado,
Comecei a ler um livro e nunca mais tive descanso.
Meus pássaros caíam sem sentidos.
No olhar do gato passavam muitas horas
Mas não entendia o tempo àquele tempo como agora.
Não sabia que o tempo cava na face
Um caminho escuro, onde a formiga passe
Lutando com a folha.O tempo é meu disfarce.

Rubens Pontes,

jornalista, radialista,

escritor

Linki pra ler Passos, Saltos & Quedas, de Rubens Pontes.

http://online.anyflip.com/mitk/xjqj/mobile/index.html?fbclid=IwAR39mt-wlzHGKBAeTSG7cZOD4etEr38ocVyHkE-rPKkwvhpfI8qfvf7khLE#p=10

 

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