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quarta, 24 de julho de 2019

Um jantar reúne famílias e cultura culinária no entorno do Hotel Custódio – Diagonal

Ao findar o almoço de domingo, 25, virei pro Custódio Miguel e disse:

– Nós somos uns privilegiados ao convivermos com um grupo assim, reunido aqui, de eméritas cozinheiras.

Fôramos pro jantar da véspera, cumprindo tabela tradicional. Tenho minhas reservas quanto às natais comemorações porque, desde quinun mintendo por gente, sempre anotei que no período fica todo mundo muntchio bãozim –  comportamento que reclamo pros demais dias do ano.

Stela, cada vez mais linda, e Luca, o “imparável”: e o trio João Pedro – que não desliga nunca, ativo e participante – filho de Raquel e Murilo, com Luca. 

Foi um ótimo encontro. Agradável, tranquilo, animado por três crianças que valem qualquer festinha.

Em ordem crescente, o João Pedro, o Luca e a Stela. E por adultos que ainda conservam um tiquim do menino ou menina que foram um dia.

Ao disporem os pratos do cardápio, encarei a placa do Hotel Custódio, que marca lá: Desde 1911.

E garrei a matutá sobre a cultura culinária de ótima qualidade expressa no cardápio daquela noite, que remonta aos primórdios do Hotel Custódio e, de certa forma, herdada pelas cozinheiras de várias famílias ali representadas.

Vejamos a partir da matriarca Ivone Leite Gomes, a quem o Hotel Custódio deve a sobrevivência e estar chegando aos seus 108 anos de existência.

Rose Ambruzin (de quem são as fotos) e Saionara, as primeiras da rodada de Amigo X, à direita.

Cléria, a mãe, e Saionara (à esquerda na foto com Juliana Paes e Gabriela, outra filha de Cléria) tocam um dos recantos mais bem arranjados da região, no município de Domingos Martins, chamado Pousada Fim da Picada, que exibe um belo cenário.

Recentemente, Cléria e filhas receberam lá o escritor, autor de novelas da TV Globo, Walcyr Carrasco, a diretora Amora Mautner, a atriz Juliana Paes – na foto à direita com Dona Carmem Trancoso Dias. Walcyr está escrevendo uma novela, cujo enredo básico terá referências na bela história de Dona Carmem Trancoso Dias, além de outra representante de família famosa de Afonso Cláudio.

O hotel pertence também a irmãos, filhos, netos, bisnetos e agregados, mas todos eles não se esquecem de que Ivone foi a única que dedicou – e dedica até hoje – dia a dia do seu talento, disposição e gosto pra manter vivo um sítio que tem muita história, desde sua juventude.

Com certeza, sem Vovó Ivone o Hotel Custódio não teria sobrevivido ou teria saído das mãos da família.

À esquerda, o histórico prédio do hotel e a entrada pro restaurante; à direita Custódio e Anísia e a inscrição “Desde 1911”: foto do neto Custódio Miguel. 

Na primeira metade do Século 20, Custódio, avô, que lhe empresta o nome, era um getulista ardoroso e ali rolavam reuniões pró Getúlio, cujo retrato ornava uma das paredes do hotel.

Com Dona Anísia – avó – e Ivone, desde jovem, a cultura da boa comida prevaleceu durante décadas no restaurante do Hotel Custódio. E durou pelo menos até perto de 1990, salvo engano do digitador desta linha aqui.

Não era um mero restaurante de comida pra cumprir tabela tipo feijão, arroz, saladinha de alface e tomate. Era um cardápio alentado, diversificado, generoso. Sua feijoada era suprema.

Foi uma casa frequentada por gente da cidade, visitantes de todos os cantos, e por viajantes que, de passagem, paravam ali por saberem que no restaurante se servia a melhor comida da Região Serrana do Espírito Santo.

Sentadas, Madalena Lameiro de Souza, Tânia Trancoso Dias; em pé, Cléria Trancoso Dias e Ivone Leite Gomes. O quarteto dos ótimos aromas e sabores.

Até hoje, relembra a jornalista Lena Mara, Ivone preserva um “cobertor do Governador”, de cujo nome ela não se lembra, pra exemplificar que o Hotel Custódio foi “o point” de Afonso Cláudio durante décadas.

Nas minhas andanças pelo Espírito Santo, em virtude dos meus programas na Rádio Espírito santo e TV Vitória – Jornal Agropecuário, de 1981 a 1990 e Jornal do Povo, março 1985-março 1988 – comia em biroscas diversas e conferia sempre: era muito difícil encontrar uma birosca com o padrão de comida saborosa, farta e generosa do Hotel Custódio, de Afonso Cláudio/ES.

Esse padrão se perpetuou ao passar para filhas, noras e netas o mesmo gosto pelos segredos dos bons temperos e sabores.

Assim, nessa noite, anote-se a matriarca de outra família, Dona Carmem Trancoso Dias – o Dias é de Miltes Dias, da famosa família Dias do entorno de Piracema e Rio da Cobra – e Madalena Lameiro de Souza, outras autoras de cardápios da melhor comida, topidilinha.

Para os que tivemos o privilégio de conhecer, ninguém sisquece dum requeijão maravilhoso feito no fogão de lenha, servido ainda quente e cremoso, preparado por Carmem e Madalena. Inigualável. Inesquecível, retido na nossa memória gustativa.

Adiante, duas filhas de Carmem, Cléria e Tânia Trancoso Dias, confirmam o bom DNA da culinária da família. De Ivone, a filha Lena Mara, vivenciando o hotel desde menina, herdou o gosto pela boa culinária, desde pratos históricos, comuns à cozinha regional e brasileira, até novas receitas que foram surgindo ao longo do tempo.

O pão feito por Tânia, por exemplo, é uma tentação pra quem pratica algum tipo de controle. Mas, o pão caseiro com o melhor gosto de pão caseiro, saboroso, feito pela Tânia é irresistível.

O Jantar com Amigo Xis

Um jantar a dez mãos, na verdade, com pratos próprios a noites como a da véspera de natal.
Uma salada especial bem apresentada, preparada por Dona Ivone, ofereceu, com muito sabor, legumes, folhas e frutas.

Um Chester – fiquei na moita, pois uqui já vi de Chester insosso e ressecado por aí não é bolim – e uma bela farofa exibiam um aroma incomum. “Vou isprimentá”, pensei. Bela surpresa: o Chester preparado por Tania Trancoso Dias estava irrepreensível, apetitoso, suculento, todo certim. Voltei a ele com vontade.

Um pernil e uma farofa preparados por Madalena Lameiro de Souza confirmou tudo o que ela e Dona Carmem sempre prepararam para os convivas na casa de Seu Miltes e Carmem em Piracema. Delicioso, inigualável.

O professor Paulo Schultz (ao fundo da foto com Custódio Miguel e a neta Stela); o Stewam Berger Schultz, seu filho (com a sogra Tania); o Carlos, filho de Dona Carmem, o João Paulo Oleare, neto de Ivone (com Carolina, outra neta, que fez o Sorvetão); o Murilo – pai do mascote do encontro, o João Pedro – e eu não regateamos.

Como adotamos como dogma homenagear grandes cozinheiras por razões mais que óbvias, caímos matando. E repetimos só pra demonstrar a todas elas do quanto gostamos do jantar.

As sobremesas e os Xis

Fotos: 1 – Cleria com a filha Gabriela; 2 – os irmãos Custódido Miguel e Lena Mara; 3 – o colunista, tirado por Madalena, mãe de Raquel, a quem tirei no sorteio (foto 4).

Muitos reclamaram das sobremesas. Por que? Porque estavam tão saborosas que todos queriam repetir, tripiti e teve gente que até quadripitiu.

Um merengue saborosíssimo, preparado por Cleria Transoso Dias, irmã de Tânia, filhas de Dona Carmem. Cleria, na hora H por não dispor de abacaxi, improvisou a receita colocando manga no merengue. Não poderia ter sido melhor o resultado.

Um sorvetão preparado por Carolina, parceira do Stewam, neta de Dona Ivone, tavaquitava. Alguns convidados, diante das duas sobremesas, ficavam na dúvida. E, na dúvida… escolhiam as duas. E o pior é que voltavam.

Quinemqui o Stewam que, a título de prestigiar a sobremesa da parceira, voltou umas cinco vezes, revezando merengue e sorvetão.

Falando no Stewam Berger Schultz (com a Bisa de Stela e Luca, Ivone), é preciso dizer que ele também é um excelente cozinheiro. Bem formado e bem informado, Stewam cultiva os bons sabores. E é um dos mais competentes preparadores de churrasco que já conheci.

As carnes estão sempre no ponto certo e são extremamente bem servidas. Tanto que ele me convidou pro próximo e eu não tive como lhe fazer uma desfeita. Aceitei logo. Stewam é um menino de ouro. Ele e cunhado, o Maely Júbior.

Oswaldo Oleari ou Oleare – radialista, jornalista, publicitário.

 

Aos 30 a 35 graus atuais da nossa região, com saudades do frio de Mendoza, a 2.970 m de altitude.

 

 

 

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