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quinta, 21 de fevereiro de 2019

Aqui Rubens Pontes – Meu poema de sábado – A canção de amor de Šu-Sin, um sumério de 4 mil anos; Cantiga Ribeirinha, em galego português

A poesia é a forma mais antiga de manifestação da criatividade humana no campo da literatura, como comprovam poemas escritos pelos sumérios datados de 4 mil anos AC. que chegaram até nós.

Em língua portuguesa, há o registro do poema “Cantiga para Ribeirinha”, do poeta Paio Soares de Taveiros, de 1189, escrito em galego-português, marca do latim na formação da nossa linguagem escrita.

O primeiro romance, porém, somente surgiu no início do Século XVII, com a edição em língua espanhola de “Dom Quixote de La Mancha”, de Miguel de Cervantes. Na foto, capa da primeira edição.

Ao contrário dos romances, não há ficção na poesia.
Poetas cantam o amor, prestam homenagens a seus ídolos, falam de seus sentimentos mais íntimos, abrem seus corações como fizeram os sumérios, os cantores medievais, e, através dos tempos, poetas de todas as línguas e origens.

Não fosse esta coluna registro de poemas que contenham sua própria história, o tema não poderia ser outro.

A pesquisa, orientada pelo Portal Don Oleari com a imprescindível participação da Rádio Clube da Boa Música e da Sociedade dos Poetas Vivos, se volta a um passado remotíssimo, recuperando um poema gravado há 4 mil anos em caracteres cuneiforme em tabuletas de argila, como na foto à esquerda, e surpreendentemente bem conservado no Museu de Istambul, à direita.

O poema, traduzido por Samuel Noah Kramer (Inanna: Queen ofheavenand Earth”, New York – Harper &Row, 1983) , foi dedicado por autor desconhecido a Shu-Sing, rei da Suméria e Akkad entre 1972 e 1964, antes da Era Cristã..

Rubens Pontes
Capim Branco, MG

A canção de amor de Šu-Sin
ou: um balbale a Bau para Šu-Sin

Ela deu à luz ao que é puro, deu à luz ao que é puro
a rainha deu à luz ao que é puro
Abi-Simti deu à luz ao que é puro
a rainha deu à luz ao que é puro
minha roca que tece o prazer, minha Abi-Simti
meu bastão de tecer, minha rainha Kubatum
digno de minha cabeleira, o admirável, o meu senhor Šu-Sin
em palavras (…) meu filho de Šulgi
porque suspirei, porque suspirei, presenteou-me o senhor
porque suspirei de alegria, presenteou-me o senhor
com um broche d’ouro, um selo em lápis-lazúli, presenteou-me o senhor
com um anel em ouro, um anel em prata, presenteou-me o senhor
senhor, teus presentes são (…) que teus olhos se desnudem a mim
senhor Šu-Sin, teus presentes são (…) que teus olhos se desnudem a mim
(…) senhor (…) senhor (…)
que suplique tua urbe como um aleijado, meu senhor Šu-Sin
que como um jovem leão repouse a teus pés, meu filho de Šulgi
núncios
minha deidade (…) a taverneira, gostosa sua cerveja
tal sua cerveja, gostoso seu sexo, gostosa sua cerveja
tal sua boca, gostoso seu sexo, gostosa sua cerveja
sua cerveja com água, gostosa sua cerveja
meu Šu-Sin que me fizeste tão bem
que me fizeste tão bem e tão feliz
meu Šu-Sin que me fizeste tão bem
querido por Enlil, meu Šu-Sin
meu rei, deus da nossa Terra.

(*) Pitaco do Portal: o mapa

A Suméria se situava ao sul da Mesopotâmia, entre os rios Tigre e Eufrates, região em que estão hoje o Iraque e o Kuwait.

Na Suméria se localizavam as mais antigas cidades do Mundo, como Adad, Isin, Uruk, e a mais importante de todas, a lendária Ur, saqueada dois mil anos de Cristo e marcando o fim do domínio dos sumérios.

CANTIGA DA RIBEIRINHA

Como mencionado anteriormente, a Cantiga da Ribeirinha é considerado o texto mais antigo em galego português.

abaixo segue o poema que serviu como modelo:

“No mundo non me sei parelha,
mentre me for’ como me vai,
caja moiro por vós – e ai!
mia senhor branca e vermelha,
Queredes que vos retraia
quando vos eu vi em saia!
Mao dia me levantei,
que vos enton non vi fea!

E, mia senhor, desaqueldi’, ai!
me foi a mi muin mal,
e vós, filha de donPaai
Moniz, e ben vos semelha
d’haver eu por vós guarvaia,
pois eu, mia senhor, d’alfaia
Nunca de vós ouve nem ei
valía d’ũacorrea.”

Reproduzido em português atual:

“No mundo ninguém se assemelha a mim
Enquanto a vida continuar como vai,
Porque morro por vós e – ai! –
Minha senhora alva e de pele rosadas,
Quereis que vos retrate
Quando eu vos vi sem manto.
Maldito seja o dia em que me levantei
E então não vos vi feia!

E minha senhora, desde aquele dia, ai!
Tudo me ocorreu muito mal!
E a vós, filha de Dom Paio
Moniz, parece-vos bem
Que me presenteeis com uma guarvaia,
Pois eu, minha senhora, como presente,
Nunca de vós recebera algo,
Mesmo que de ínfimo valor.”

Fonte:

Nicola, J. Literatura portuguesa da Idade Média a Fernando Pessoa. São Paulo: Scipione, 1992. ed. 2. p. 28. ISBN 85-262-1623-6.

Rubens Pontes, jornalista,

escritor – – Passos, saltos & queda – Linki pra ler Passos, Saltos & Quedas, de Rubens Pontes.
http://online.anyflip.com/mitk/xjqj/mobile/index.html?fbclid=IwAR39mt-wlzHGKBAeTSG7cZOD4etEr38ocVyHkE-rPKkwvhpfI8qfvf7khLE#p=10

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