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sbado, 15 de junho de 2019

Aqui Rubens Pontes: Meu poema de sábado – O Poemeto, do padre Francisco Antunes de Siqueira

 

 

O Portal Do Oleari já registrou a significativa presença de sacerdotes nas várias áreas da vida brasileira, por força da instalação de seminários

em numerosos pontos do nosso território e do consequente grau de cultura geral auferida pelos seminaristas.

Exceção de algumas poucas faculdades de Direito,

em Recife (acima à esquerda) e São Paulo (abaixo, a famosa Faculdade de Direito do Largo de São Francisco), uma de Medicina no Rio de Janeiro, principalmente, os estabelecimentos católicos de ensino

ganharam significativa força como formadores de administradores, políticos e mestres de ensino.

Sobre essa visão, conceitua Oscar Gama Filho (à direita):

– “A vida intelectual – arte, direito, política, jornalismo e outras atividades afins – e sacerdotal – constituíam, no Século XVIII, duas das poucas formas de ascensão social de que os indivíduos podiam se valer.

Alguns se dedicavam a ambas ao mesmo tempo, entre eles João Clímaco (abaixo, à direita), Marcolino Pinto Ribeiro Duarte,

Fraga Loureiro, Eurípedes Pedrinho, Inácio Felix de Alvarenga Sales e Francisco Antunes de Siqueira,

todos simultaneamente padres, escritores e políticos.”

O personagem escolhido para assinar o poema deste sábado está inserido na relação: O padre Francisco Antunes de Siqueira, singularíssima figura que marcou sua passagem no

Espírito Santo com controvertidos registros por parte de seus contemporâneos e dos que,

no nosso tempo, se dedicaram a estudar sua trajetória de vida.

Tudo começou com o registro do seu nascimento em Vitória, no dia 3 de fevereiro de 1832.

O processo de habilitação vita et moribus anota seu nome como filho natural da costureira

Maria Luiz do Rosário e do cônego Arcipreste Francisco A. de Siqueira.

O próprio padre Francisco Antunes de Siqueira não pretendeu esconder sua origem

ao escrever ao pé de seu Poemeto como dedicatória:

“À memória de meu pai, cônego Arcipreste Francisco A. de Siqueira – uma lágrima da

mais pungente saudade. À minha mãe d. Maria Luiza do Rosário – tributo de veneração e respeito.”

Ordenado sacerdote no Seminário São José, no Rio de Janeiro, em 1854, foi no Espírito Santo

que ele exercitou sua atividade como sacerdote, como professor, como político.

Destacou-se na campanha contra a escravidão, iniciou a construção da Igreja de Santa Cruz,

tornou-se amigo de figuras como o francês Auguste-François Biar, que escreveu sobre ele:

– “Travei conhecimento com o padre, um jovem sem preconceito que não recuava diante

de uma garrafa de Porto ou de aguardente” e foi orador sacro em missa por ocasião da visita de Dom Pedro II

a Vitória (registro do jornal “Correio de Vitoria”:

“No Colégio, que também abrigava a capela nacional (o atual Palácio Anchieta) orou o vigário de Santa Cruz,

padre Francisco Antunes de Siqueira. O discurso foi brilhante e eloquente.

Agradou a todos pela sublimidade de seus pensamentos, elegância e colorido do seu estilo”)

Seu espírito irrequieto o levou a participar do movimento político no Estado, elegendo-se, em 1862,

deputado à Assembleia Legislativa Provincial, da qual foi segundo secretário.

Em setembro de 1872, o padre Francisco Antunes foi nomeado capelão, com exercício de professor,

na Companhia de Aprendizes Marinheiros, em Vila Velha/ES (à direita).

Não foi o primeiro sacerdote a ser admitido na história da maçonaria no Espírito Santo, mas

seu ingresso na Loja União e Progresso – a mais antiga do Estado – teve larga repercussão, dentro e fora da Igreja.

O padre Francisco Antunes de Siqueira nunca escamoteou informações sobre sua origem e sobre

o entendimento do papel que lhe cabia exercer, como sacerdote e como cidadão, na vida do Espírito Santo.

Como intelectual, no plano da literatura, legou para posteridade o livro de crônicas “Poemeto” e ainda

ai deixou a marca do seu comportamento sempre acima das convenções de sua época:

O padre, que nunca renegou sua fé, dedicou a obra às suas filhas, como registrou o jornalista Antonio Tinoco:

“Às minhas queridas filhas – d. Dalmara Antunes Siqueira e d. Petronilha Antunes Siqueira – momentos de recreação

e da mais viva lembrança”.

Patrono da Cadeira 16 da Academia Espírito-santense de Letras, e da Cadeira 29 da Academia de Letras de Vila Velha,

o sacerdote, político, escritor, um homem do mundo acima do seu tempo, morreu no dia 29 de novembro de 1897, em Vila Velha/ES, onde era pároco.

O Portal Don Oleari capta, em registro de Maria Stela Novaes, no episódio do brinde destinado

à campanha contra a escravidão, no ano de 1884, o poema para compor a Coluna deste sábado. É também, uma homenagem

que todos prestamos à memória de uma figura que jamais poderá ser esquecida pelos capixabas do nosso tempo e dos tempos que virão.

Rubens Pontes
Capim Branco MG.

O POEMETO

(Justificativa baseada em citação original de Fernando Achiamé)

“Em 1884, as senhoras Dalmara e Petronilha Antunes Siqueira, numa quermesse em benefício da Libertadora
Domingos Martins, ocasião em que elas ofereceram um adorno de mesa em forma de serpente para ser vendido
e o dinheiro apurado a favor da libertação dos escravos. O presente vinha acompanhado de um poemeto, com a marca de seu pai.

ODC

De nossas livres florestas

Volve também a serpente

Para assistir nossas festas

De um povo independente.

Ao altar da Pátria amada

Ela vem se devotar

Querendo com o seu produto

Os escravos libertar.

Rubens Pontes, jornalista,

escritor – – Passos, saltos & queda – Linki pra ler Passos, Saltos & Quedas, de Rubens Pontes.
http://online.anyflip.com/mitk/xjqj/mobile/index.html?fbclid=IwAR39mt-wlzHGKBAeTSG7cZOD4etEr38ocVyHkE-rPKkwvhpfI8qfvf7khLE#p=10

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