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tera, 12 de novembro de 2019

Aqui Rubens  Pontes: Meu poema de sábado – Aos Vícios, de Gregório de Matos

BOCA DO INFERNO ENTOA TAMBÉM COISAS BOAS DE SE OUVIR

 

 

Gregório de Matos, o “boca do inferno”, morreu no Recife em novembro de 1696, deixando marcante passagem como advogado e poeta no Brasil colonial.

Jards Macalé, aos 75 anos, continua felizmente vivo e atuante no cenário da música brasileira.

Há, vencidos espaços e tempos, uma peculiaridade comum aos dois:

Gregório de Matos não prestava nenhuma homenagem aos poderosos de sua época e Jards Macalé nunca fez concessões ao mercado onde atua.

Os dois agora estão juntos, de mãos armadas para marcar posições nunca cedidas, num CD produzido pela Natura Musical.

O poema “Aos vícios”, do maior poeta barroco brasileiro, está incluído no álbum titulado “Besta Fera” (capa, à esquerda), produção musical de de Kiko Dinucci e Thomas Harres, sob a direção artística de Rômulo Fróes como me informa o pessoal da Rádio Clube da Boa Música.

Gregório de Matos foi uma figura singular que deixou marcas na história brasileira sobretudo como poeta barroco, o mais importante do Brasil colonial.

Nasceu ele em Salvador, então Capital brasileira, em 1636, descendente de rica família, senhores de engenho

na Bahia. Como os filhos das famílias aristocráticas, foi aluno da Companhia de Jesus até o ano de 1652, quando foi estudar Direito na Universidade de Coimbra. Em Portugal, foi juiz em Alcácer do Sal, no Além Tejo, mas o Brasil era o seu destino escolhido.

Voltando ao País do seu nascimento, embora não sendo padre, foi nomeado por Dom Gaspar Barata, arcebispo

de Salvador, vigário-geral da Bahia, ocupando o cargo de tesoureiro mor da Sé. Com a morte de Dom Gaspar, e

por se recusar a receber ordens sacras e vestir hábito, foi demitido.

“A ignorância dos homens destas eras,

sisudos faz ser uns, outros prudentes

que a mudez canoniza bestas feras”

– versejou Gregório de Matos e foi deportado pra Angola. No País africano, sua cultura e visão do futuro levaram-no

a ser Conselheiro do Governo e mais tarde, como recompensa, autorização para retornar ao Brasil.

Fixou-se em Recife, morrendo no ano seguinte ao seu retorno, em novembro de 1696.

A homenagem do Portal Don Oleari, desta coluna, de Sociedade dos Poetas Vivos e da Rádio Clube da Boa Música

à grande figura de Gregório (de Matos) Guerra se estende, neste sábado, a Jards Macalé com a inclusão do novo CD com 12 faixas, entre as quais está o poema “Aos Vícios”, interpretação valorizada pelo cavaquinho de Rodrigo Campos e do saxofone de Thiago França.

Rubens Pontes
Capim Branco, MG.

Gregório de Matos
Aos vícios

Eu sou aquele que os passados anos
Cantei na minha lira maldizente
Torpezas do Brasil, vícios e enganos.

E bem que os descantei bastantemente,
Canto segunda vez na mesma lira
O mesmo assunto em pletro diferente.

Já sinto que me inflama e que me inspira
Talía, que anjo é da minha guarda
Des que Apolo mandou que me assistira.

Arda Baiona, e todo o mundo arda,
Que a quem de profissão falta à verdade
Nunca a dominga das verdades tarda.

Nenhum tempo excetua a cristandade
Ao pobre pegureiro do Parnaso
Para falar em sua liberdade

A narração há de igualar ao caso,
E se talvez ao caso não iguala,
Não tenho por poeta o que é Pégaso.

De que pode servir calar quem cala?
Nunca se há de falar o que se sente?!
Sempre se há de sentir o que se fala.

Qual homem pode haver tão paciente,
Que, vendo o triste estado da Bahia,
Não chore, não suspire e não lamente?

Isto faz a discreta fantasia:
Discorre em um e outro desconcerto,
Condena o roubo, increpa a hipocrisia.

O néscio, o ignorante, o inexperto,
Que não eleje o bom, nem mau reprova,
Por tudo passa deslumbrado e incerto.

E quando vê talvez na doce treva
Louvado o bem, e o mal vituperado,
A tudo faz focinho, e nada aprova.

Diz logo prudentaço e repousado:
– Fulano é um satírico, é um louco,
De língua má, de coração danado.

Néscio, se disso entendes nada ou pouco,
Como mofas com riso e algazarras
Musas, que estimo ter, quando as invoco?

Se souberas falar, também falaras,
Também satirizaras, se souberas,
E se foras poeta, poetizaras.

A ignorância dos homens destas eras
Sisudos faz ser uns, outros prudentes,
Que a mudez canoniza bestas feras.

Há bons, por não poder ser insolentes,
Outros há comedidos de medrosos,
Não mordem outros não – por não ter dentes.

Quantos há que os telhados têm vidrosos,
e deixam de atirar sua pedrada,
De sua mesma telha receosos?

Uma só natureza nos foi dada;
Não criou Deus os naturais diversos;
Um só Adão criou, e esse de nada.

Todos somos ruins, todos perversos,
Só os distingue o vício e a virtude,
De que uns são comensais, outros adversos.

Quem maior a tiver, do que eu ter pude,
Esse só me censure, esse me note,
Calem-se os mais, chitom, e haja saúde

Rubens Pontes,

jornalista, escritor

– Passos, saltos & queda – Linki pra ler Passos, Saltos & Quedas, de Rubens Pontes.
http://online.anyflip.com/mitk/xjqj/mobile/index.html?fbclid=IwAR39mt-wlzHGKBAeTSG7cZOD4etEr38ocVyHkE-rPKkwvhpfI8qfvf7khLE#p=10

Gregório de Matos, século XIX, F. Briguiet.
Nome completo: Gregório de Matos Guerra
Outros nomes: Boca do Inferno e Boca de Brasa
Nascimento: 23 de dezembro de 1636
emSalvador, Capitania da Baía, Brasil Colonial
Morte: 26 de novembro de 1696 (59 anos) em
Recife, Capitania de Pernambuco, Brasil Colonial
Nacionalidade: Português (luso-brasileiro)
Mãe: Maria da Guerra
Pai: Gregório de Matos
Ocupação: Advogado e poeta
Escola/tradição Barroco
Religião Catolicismo

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