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quarta, 24 de julho de 2019

Wilson Coêlho: Uma poesia Viêt-Công

 

Apesar da pena firme e precisa, em alguns momentos quase cirúrgica, a poesia de Júlia Studart (foto), em logomaquia, retrata o esfacelamento do ser.

Mas ela não se preocupa em organizar esses fragmentos, aliás, por outro lado, faz questão de expor esses pedaços aparentemente caóticos que, por eles mesmos, para um leitor atento, acabam por estabelecer uma espécie de cosmogonia na confusão, onde os fragmentos se con-fundem, se fundem a partir de suas diferenças, naquilo que comumente se entende como um antagonismo.

Ora como espectadora, ora como uma conviva num banquete de comer ideias, sua poesia perpassa o cotidiano com a consciência de que mesmo a inútil existência dividida em cotas e nacos da realidade não perde o fio da meada e entende o que há de universal em cada particular.

       Há momentos em que, propositalmente, rompe o fio de Ariadne porque perder-se no labirinto é experimentá-lo na sua essência, considerando que o próprio desejo de entrar no labirinto é enfrentar Dédalo e, obviamente, colocar em questão o papel do Minotauro, considerando a possibilidade de romper com a necessidade de uma lógica que determina o lugar e a hora da chegada. Assim, sua poesia transita  entre a agorafobia e a claustrofobia.

Tanto faz o espaço aberto quanto o espaço fechado. Mas – na poesia de Júlia Studart – o homem não se cabe em si mesmo e não se entende ou não se tolera fora de si. O interno e o externo são apenas dois lados do mesmo objeto.

A poeta parece inventar uma cabine da utopia (u-topos = o não lugar), uma espécie de Aleph,  um ponto no espaço de onde se pode ver todas as coisas, estando e não estando, ao mesmo tempo, na geografia/mapa que é uma forma de ser-no-mundo. Que mundo? O mundo que não existe, senão pela necessidade de criar o sentido da existência, a vontade em potência dissecando os desejos do peremptório, o aqui e agora que, conforme Raul Seixas, “o hoje é apenas um furo no futuro, onde o passado começa a jorrar”.

       De certa forma, concordando com Heráclito ao afirmar que tudo muda e, ao mesmo tempo, também corroborando com a ideia de Parmênides na medida em que ele acredita que o que passa são os fenômenos de superfície, mas que há algo estrutural que, mesmo não estabelecendo de forma determinista o processo como um todo, tem em si uma espécie de porto ou trampolim que nos permite concentrar nossas forças para um grande salto.

       Não sei onde, mas lembro que em minha juventude eu li um artigo sobre a Frente Nacional para a Libertação do Vietnã, cujos combatentes eram também chamados vietcongues, um exército formado por norte-vietnamitas que lutaram na Guerra do Vietnã junto ao exército do Vietnã do Norte contra a coalizão formada pelos Estados Unidos e pelo governo do Vietnã do Sul.

Um jornalista se depara com um vietcongue movimentando o pedal de uma bicicleta com as rodas para cima, de maneira  que o dínamo gerasse energia para acender uma pequena luz e um médico pudesse operar um soldado ferido na guerra genocida promovida pelos Estados Unidos contra esse pequeno país. O jornalista, assustado, perguntou porque esse tamanho esforço para produzir condições de se fazer uma cirurgia num soldado se em pouco mais de um quilômetro havia uma cidade com um hospital equipado e com bastante energia para se fazer essa operação com muito mais facilidade. O vietcongue sorriu e acrescentou que a existência desse hospital nessa cidade com essas condições o colocaria como um alvo a ser destruído pelo exército americano e que os vietnamitas deveriam estar sempre preparados para o pior e, assim proteger o seu povo.

       A poesia de Júlia Studart é um pouco disso, ou seja, está em permanente estado de alerta. E, por ser manter fiel à sua proposta de estabelecer uma logomaquia na relação com as palavras, acaba por estabelecer um movimento praticamente coreográfico com os vocábulos, na maneira em que os manuseia, pelo seu gingado, quase uma tauromaquia, como se cada palavra fosse um touro bravo “marrando” na arena das ideias.

Por outro lado, a poesia de Júlia Studart  se sustenta também de uma linda acrobacia onde a palavra e o silêncio buscam o equilíbrio para dizer do inenarrável através das infinitas possibilidades de explorar os diferentes sentidos que habitam a palavra.

Wilson Coêlho –

Poeta, tradutor, palestrante, dramaturgo e escritor com 17 livros publicados. Licenciado e bacharel em Filosofia e Mestre em Estudos Literários pela UFES (Universidade Federal do ES); Doutor em Literatura pela Universidade Federal Fluminense e Auditor Real do Collége de Pataphysique de Paris. Tem 22 espetáculos montados com o Grupo Tarahumaras de Teatro, com participação em festivais e seminários de teatro no país e no exterior – Espanha, Chile, Argentina, França e Cuba, ministrando palestras e oficinas. Também tem participado como jurado em concursos literários e festivais de música.

 

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