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sbado, 15 de junho de 2019

Aqui Rubens Pontes: Meu poema de sábado – Aos Simples, de Guerra Junqueiro

…”retratando com seus versos imortais a corrupção na sociedade do seu tempo, a luxúria do clero e a decadência moral da Igreja (mais coincidências?) em Portugal no final do Século XIX”.

 

 

Deflagrada em 2014 pela Justiça Federal, a Operação Lava Jato, a partir de investigações iniciadas em 2009,

vem resistindo a pressões principalmente da área política e chega ao nosso tempo com mais de mil mandados

de busca e apreensão, prisões temporárias, prisões preventivas e condução coercitiva, somando penas condenatórias

aproximadas de 2 mil e 36 anos. Cem pessoas foram presas com responsabilidade no desvio estimado de 42 bilhões e 800 milhões de reais.

Nesse período, foram bloqueados em bancos nacionais e estrangeiros cerca de 3,2 bilhões de reais.

Ao fazer esse levantamento sumário, o Poderoso Chefão do Portal interpelou o colunista:

– O que tem isso a ver com o Poema de Sábado?

Aí, eu me reportei a episódios ocorrido há 164 anos na chamada Terra Mãe para justificar e para, do meu lado,

responder também com uma pergunta:

– Algum grande poeta da geração deste Século se voltou para o tema que continua abalando os alicerces do Brasil?

Antes que me fosse dada resposta, procurei justificar esse chamado introito para lembrar a reação de um dos

maiores poetas da língua retratando com seus versos imortais a corrupção na sociedade do seu tempo, a

luxúria do clero e a decadência moral da Igreja (mais coincidências?) em Portugal no final do Século XIX.

Abílio Guerra Junqueiro, o poeta, nascido em Freixo de Espada à Cinta em setembro de 1850, divergiu

das contumazes práticas de corrupção quando cursava Teologia na Universidade de Coimbra, motivo

pelo qual deixou o Seminário para cursar Direito.

Sucessivas edições de livros com seus poemas fizeram eco na vida do seu País, levando grande parte da população

de Coimbra e de Lisboa a bradar contra a corrupção.

A “Velhice do Pai Eterno”, um dos seus numerosos livros de poesia, marca, porém, uma segunda fase de sua

vida, quando se voltou para valores espirituais, reconciliou-se com a Igreja e passou a cultivar a fé.

São desse período os versos de “Aos Simples”, publicado em 1892, poema escolhido, em sua grafia original,

como sugestão para leitura neste sábado.

Guerra Junqueiro, um dos maiores poetas ao longo de extenso período da literatura portuguesa,

morreu em Lisboa em julho de 1923

Faltam, no Brasil de hoje (reclama Sociedade dos Poetas Vivos), poetas desse nível

para discursar em versos contra os desmandos que proliferam nos diversos setores da combalida sociedade brasileira.

Rubens Pontes
Capim Branco, MG.

Casa-Museu Guerra Junqueiro, situada na Rua de D. Hugo, Centro Histórico do Porto, próximo da Catedral e do Arqueossítio.

A velhice do Padre Eterno
por Guerra Junqueiro

Aos simples

Ó almas que viveis puras, immaculadas
Na torre do luar da graça e da illusão,
Vós que ainda conservaes, intactas, perfumadas,
As rosas para nós ha tanto desfolhadas
Na aridez sepulchral do nosso coração;
Almas, filhas da luz das manhãs harmoniosas,
Da luz que acorda o berço e que entreabre as rosas,
Da luz, olhar de Deus, da luz, bênção d’amor,
Que faz rir um nectario ao pé de cada abelha,
E faz cantar um ninho ao pé de cada flor;
Almas, onde resplende, almas, onde se espelha
A candura innocente e a bondade christã,
Como n’um céo d’Abril o arco da alliança,
Como n’um lago azul a estrella da manhã;
Almas, urnas de fé, de caridade, e esp’rença,
Vasos d’oiro contendo aberto um lírio santo,
Um lírio immorredoiro, um lírio alabastrino,
Que os anjos do Senhor vem orvalhar com pranto,
E a piedade florir com seu clarão divino;
Almas que atravessaes o lodo da existência,
Este lodo perverso, iníquo, envenenado,
Levando sobre a fronte o esplendor da innocência,
Calcando sob os pés o dragão do peccado;
Bemdictassejaes, vós, almas que est’alma adora,
Almas cheias de paz, humildade e alegria,
Para quem a consciência é o sol de toda a hora,
Para quem a virtude é o pão de cada dia!
Sois como a luz que doira as trevas d’um monturo,
Ficando sempre branca a sorrir e a cantar;
E tudo quanto em mim ha de bello ou de puro.
– Desde a esmola que eu dou á prece que eu murmuro –
É vosso: fostes vós o meu primeiro altar.
Lá da minha distante e encantadora infância,
D’esse ninho d’amor e saudade sem fim,
Chega-me ainda a vossa angélica fragrância
Como uma harpa eólia a cantar a distância,
Como um véo branco ao longe inda a acenar por mim!



Minha mãe, minha mãe! ai que saudade immensa,
Do tempo em que ajoelhava, orando, ao pé de ti.
Cahia mansa a noite; as andorinhas aos pares
Cruzavam-se voando em torno dos seus lares,
Suspensos do beiral da casa onde eu nasci.
Era hora em que já sobre o feno das eiras
Dormia quieto e manso o impávido lebréu.
Vinham-nos das montanhas as canções das ceifeiras,
Como a alma d’um justo, ia em triumpho ao céo!…
E, mãos postas, ao pé do altar do teu regaço,
Vendo a lua subir, muda, alumiando o espaço,
Eu balbuciava a minha infantil oração,
Pedindo a Deus que está no azul do firmamento
Que mandasse um allívio a cada soffrimento,
Que mandasse uma estrella a cada escuridão.
Por todos eu orava e por todos pedia.
Pelos mortos no horror da terra negra e fria,
Por todas as paixões e por todas as mágoas…
Pelos míseros que entre os uivos das procellas
Vão em noite sem lua e n’um barco sem vellas
Errantes atravez do turbilhão das águas.
O meu coração puro, immaculado e santo
Ia ao throno de Deus pedir, como inda vae,
Para toda a nudez um panno do seu manto,
Para toda a miséria o orvalho do seu pranto

E para todo o crime o seu perdão de Pae!..

Rubens Pontes, jornalista,

escritor – – Passos, saltos & queda – Linki pra ler Passos, Saltos & Quedas, de Rubens Pontes.
http://online.anyflip.com/mitk/xjqj/mobile/index.html?fbclid=IwAR39mt-wlzHGKBAeTSG7cZOD4etEr38ocVyHkE-rPKkwvhpfI8qfvf7khLE#p=10

 

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