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tera, 23 de julho de 2019

Aqui Rubens Pontes: Meu poema de sábado – Trovas sobre a gasolina: Beatriz Abaurre, Vicente Nolasco Costa, João Figueiredo e Alidio C. da Silva

 

A sofrida classe média brasileira, na faixa madura de idade, sente a pele eriçar

quando recebe noticias de que a inflação acena para uma previsão de 4,58% nos próximos

12 meses.

E há motivos para isso. Foi mais ou menos assim que tudo começou quando, em 1985, José Sarney

se empossou Presidente da República, superada a fase de sucessivos governos militares quando,

pelo menos, a economia andava nos eixos.

A euforia durou pouco.

O custo de vida ficou alucinado, perdido numa inflação que atingiu 235% ao final do primeiro ano de governo.

Quem viveu naquela época deve se lembrar dos chamados “fiscais do Sarney’, dramático apelo para que a população policiasse a alta dos preços nos nos postos de venda, tabelados pela equipe econômica.

Em vão.

O Cruzado Novo instituído não apenas não atenuou a crise como a agravou.

Em 1990, a inflação chegou a 84,23% por cento ao mês, com o acumulado em 12 meses de 4.853,90% .

O Plano Real, lançado quando Fernando Henrique Cardoso era Ministro da Fazenda de Itamar Franco,

inverteu o mecanismo de alta, a crise foi vencida e a economia do País retornou ao ritmo de crescimento sem maiores sustos.

(Só como comparação, a inflação na Venezuela atingiu 12.875% ao mês, e, segundo previsão do FMI, alcançará, ao fim de 12 meses, inacreditável índice de 1 milhão por cento.)

O Poderoso Chefão, com a caneta numa mão e a outra na cesta, franziu o cenho e quis entender até onde iria esse “nariz de cera”

que aparentemente nada tem a ver com o espírito da coluna “Meu poema de Sábado”.

Só aparentemente, justifiquei, porque a preocupação com a alta do preço dos combustíveis se justifica

num país com as dimensões do Brasil que transporta sobre rodas tudo o que produz e até poetas se posicionam sobre isso.

O problema, mais do que episódio sazonal, é um fenômeno histórico que se repete periodicamente através dos tempos.

E antes que o homem que imprime o nihil obstat à coluna me arguisse com nova interrogação, cheguei lá, exibindo

a memória que me fora encaminhada pela Sociedade dos Poetas Vivos com o endosso da Rádio Clube da Boa Música, confirmando a “tese” exposta.

A matéria mostra que o preço dos combustíveis vem inquietando a sociedade, mas, numa espécie de contra-ponto, por outro lado,

o espírito sempre jocoso que é uma característica inata dos brasileiros, inspira igualmente a criatividade dos nossos poetas trovadores.

Como sempre solidárias, Sociedade dos Poetas Vivos e Rádio Clube da Boa Música vêm em meu socorro, lembrando que, nos idos de 1980,

o Clube dos Trovadores Capixabas, criação de Clério José Borges, escolheu o tema gasolina como mote para o concurso de trovas em novembro daquele ano.

Participaram 54 poetas e a coluna escolheu as 5 trovas classificadas para leitura neste

sábado de maio.

Vamos nos divertir com um assunto que pode até machucar, mas que o bom humor ajuda sempre a superar.

Rubens Pontes
Capim Branco, MG.

 

Trovas sobre a gasolina

1º lugar – BEATRIZ ABAURE:

Num posto de álcool na esquina,
diz um bêbado que passa:
– Isto que é gasolina!
– Tem cheiro até de cachaça.

2º lugar – VICENTE NOLASCO COSTA:

Sobe o gás e sobe o óleo,
gasolina é todo dia.
Quanto mais sobe o petróleo
mais aumenta a mordomia.

3º lugar – JOÃO FIGUEIREDO:

O preço da gasolina
Vai subir mais (e não bufe!)
até que jorre da mina
o petróleo do Maluf…

4º lugar – ALYDIO C. DA SILVA:

Na crise da gasolina,
tive um lampejo de estalo:
Deixo o carro na oficina
e vou andar a cavalo.

5º lugar – VICENTE NOLASCO COSTA:

Vou vender tudo que pego.
Vou trocar rádio e buzina,
ou botar tudo no prego
ou ficar sem gasolina.

Rubens Pontes,

jornalista, escritor – – Passos, saltos & queda – Linki pra ler Passos, Saltos & Quedas, de Rubens Pontes.
http://online.anyflip.com/mitk/xjqj/mobile/index.html?fbclid=IwAR39mt-wlzHGKBAeTSG7cZOD4etEr38ocVyHkE-rPKkwvhpfI8qfvf7khLE#p=10

 

 

 

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