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sbado, 15 de junho de 2019

Aqui Rubens Pontes: Poema de sábado – Ela é diferente, de Virginia Tamanini

 

 

 

Olho o perfil das montanhas, o verde da colina que se alonga com a serenidade de um mar sem ondas e busco consolo em Rubem Alves (foto) para uma ponta de saudade que bate em mim.

“O mar de Minas não é no mar
O mar de Minas é no céu
Pro mundo todo olhar para cima e navegar
Sem nunca ter um porto aonde chegar”

Tenho meu umbigo plantado nas amadas montanhas das Minas Gerais e boa parte da minha alma fazendo morada na acolhedora terra capixaba com seu mar que sempre nos afaga.

Floresta Nacional de Passa Quatro, MG.

Neste fim-de-semana, via milagre da internet, associo os dois sentimentos ouvindo desde Capim Branco, em back-ground, a programação da Rádio Clube da Boa Música e contemplando a paisagem alongada que descortino da minha varanda.

O Poderoso Chefão, memória afiada até por força de sua atividade profissional, primeiro dizendo não estar puxando para um colatinense radicado vida quase toda em Vitória (foto) a lata de sardinha, faz lembrar ser a cidade a segunda capital brasileira com a melhor qualidade de vida e a nona melhor para trabalhar, e ainda a melhor renda “per capita” entre todas as outras 26, e a terceira melhor cidade brasileira para criar família.

Para não levantar dúvidas, destacou OO, o levantamento foi realizado pela Fundação Getúlio Vargas.

Ouço, à distância de mais de 500 quilômetros, uma voz – creio que alguém da Sociedade dos Poetas Vivos que não identifiquei – lembrar que “Viver é ver Vitória”, como destacara no passado o saudoso companheiro jornalista Marien Calixte.

Recentemente, à pergunta de um amigo mineiro que invariavelmente passa férias no litoral capixaba, esclareci dever a cidade seu nome à memória da vitória das tropas comandadas pelo donatário da Capitania, Vasco Fernandes Coutinho em épica batalha contra os dominantes índios goitacazes.

Sei, finalmente, ter sido Vitória fundada no dia 8 de setembro de 1551, e que, além da ilha principal,
fazem parte da metrópole outras 34 ilhas.

Antes de retornar a Minas, vivi 20 esplêndidos anos em Vitória e principalmente em Manguinhos (foto), sempre acolhido pela generosidade de amigos numa lembrança que me acompanhará por toda a eternidade.

O convite para participar deste Portal foi, confesso, uma massagem no meu ego, me fazendo crer, afinal, que ainda posso fazer mais do que me debruçar sobre livros esperando o tempo passar.

A saudade (que não dói de tão boa que é) me leva a selecionar para a coluna deste sábado um poema para mim evocativo, de Virgínia Tamanini (à direita), uma capixaba de Santa Teresa, nascida na Fazenda Boa Vista, no Vale do Canaã (acima), eleita aos 89 anos para ocupar a cadeira número 15 da Academia Espirito-santense de Letras.

Em outubro do ano passado, 2018, Exposição ““Virgínia Tamanini: memórias em família” no Arquivo Público do Espírito Santo.

Autodidata, ótima escritora, romancista, poeta, Virginia Tamanini escreveu peças teatrais encenadas com sucesso, artigos para jornais, poemas de extrema sensibilidade que a levaram, ainda jovem, à Academia Feminina Espírito-santense de Letras e tonar-se membro da Associação Espírito-santense de Imprensa.

Foi agraciada com a Ordem do Mérito “Marechal José Pessoa”

O grande nome da cultura do Estado faleceu em Vitória, em 1990.

Rubens Pontes
Capim Branco, MG

ELA É DIFERENTE

Virginia Tamanini

Você conhece Vitória?
venha ver
que vai gostar.
É uma ilha bonita
com seu penedo gigante
se alevantando do mar.

Também cidade-progresso
de arranha céus dominantes
e que tem um tubarão
que aqui não come gente,
mastigando eternamente
ooligisto desfeito
cujo pó deve Ter asas
pois vem pousar, sem direito,
nos umbrais de nossas casas.

Uma coisa me aborrece:
nosso tempo é repartido,
relógio manda na gente,
não há mais tempo pra nada,
a vida agora é correr.
ninguém pode descansar.

E o povo se empurra
dizendo ter pressa
querendo chegar.
E às vezes não chega
nem mais vai voltar.
Os ônibus trançam
nas ruas estreitas
e os carros afoitos
se juntam se amassam
tentando avançar.
E às vezes nem chegam
a ultrapassar.
Eu fico pensando…
Vitória de ontem
Vitória de hoje
qual delas se ajusta
ao meu coração?

Ai que saudades
Do bondinho “Circular”!
Na Praça Oito a rodinha
de intelectuais sorrindo
e tirando o chapéu
ao cumprimentar.

Bons dias aqueles,
tranqüilos, de paz.
E a gente passando
e a gente sorrindo
e a gente vivendo…

Menino gritando
vendendo jornal

– Diáario! Gazeeeta! Olha a Gazeeeta!

(E fazia careta)
Moleque safado
mas era engraçado
e a gente parava
comprava o jornal.
Os olhos buscavam
notícias do dia.
Por isso uma vez
fiquei espantada
ao ler o que lia:
– Foi morto o Cauê
na Zona da Mata
de Minas Gerais.
Venderam seu todo
de pura hematita,
navios estrangeiros
virão carregar.
Vitória cresceu pequena
num estranho paradoxo…
E sendo grande e pequena
é fácil de entender.
Uma terra diferente,
bonita, rica, atraente,
só um tanto original.
E nesse barulho todo
de trabalho e confusão,
nos manjando pouco a pouco
tremenda poluição…
Mas isto não será nada,
vamos ganhar esta guerra
pois o mal também se acaba.
Como nos tempos de outrora
há de novo ressurgir
o céu limpo, a claridade,
a beleza, a paz, o amor,
neste chão que é minha terra
– minha terra capixaba!

(extraídos da obra VIRGINIA TAMANINI – MARCAS DO TEMPO – POESIA. Brasília: Litograf)

Rubens Pontes,

jornalista, escritor –

– Passos, saltos & queda – Linki pra ler Passos, Saltos & Quedas, de Rubens Pontes.
http://online.anyflip.com/mitk/xjqj/mobile/index.html?fbclid=IwAR39mt-wlzHGKBAeTSG7cZOD4etEr38ocVyHkE-rPKkwvhpfI8qfvf7khLE#p=10

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