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sbado, 15 de junho de 2019

Aqui Rubens Pontes = Meu poema de sábado – Os Ombros Suportam o Mundo, de Carlos Drummond de Andrade

 

 

Ali, bem à frente, os pastos estão verdes e há gado indolentemente pastando neles.

As vacas irão dar leite e os bois serão abatidos para fornecer carne para alimentação.

Mas o que não serão cogitadas são as implicações que o prosaico panorama que descortino da minha varanda provocam na vida dos homens e do planeta Terra em que vivemos.

A carne é excelente fonte de proteínas, reconhece-se, mas usar gado para converter

proteína vegetal (o que as vacas comem) em proteína animal (que nós comemos) implica

em milhões de acres de florestas cortadas para abrir campos para pastagem; desordenadas

quantidades de água desviadas de rios e de campos de plantio para irrigar plantações de milho

que alimentam o gado nas grandes fazendas mecanizadas.

Além do desmatamento desenfreado e o consumo irresponsável de água,

o gás metano, liberado pelo gado, contribui para o aquecimento global, causando danos à atmosfera,

fenômeno concluído em pesquisas realizadas na Austrália .

(Curiosamente, o empresário mineiro Sebastião Paes de Almeida, amigo de JK, com a implantação dos

governos militares, exilou-se espontaneamente na Austrália, e em poucos anos se tornou o maior

criador de gado daquele País).

Ali, na fazenda que vejo daqui, não mais de 200 animais ruminam sem pressa a grama ingerida.

É apenas uma pequena mostra que se multiplica em um País que é, com os Estados Unidos, o maior

produtor de carne do mundo, capitaneado pela líder mundial, a JBS de triste presença nos escândalos

de corrupção que abalam os alicerces da Nação brasileira.

Relatório de Magda Stockiewiz, diretora da entidade Friends of Earth Europe, mostra números dramáticos.

Só a brasileira JBS , à época da pesquisa, baseada em dados da Organização de Alimentação e Agricultura das Nações Unidas, abatia por dia 12 milhões de aves, 85 mil cabeças de gado e 70 mil porcos, vendidos para 150 países.

E o que agrava ainda mais a ocorrência , para evitar a difusão de doenças, os rebanhos de gado

recebem quantidades exorbitantes de anti-bióticos, abuso que resulta, na carne que vai à nossa mesa, no surgimento de super-bactérias resistentes aos medicamentos em uso para debela-las.

Não temos estatísticas no Brasil, mas nos Estados Unidos, cerca de 23 mil pessoas morrem anualmente de infecções resistentes ao tratamento por antibióticos conhecidos.

Uma necessária justificativa: esta coluna foi criada por inspiração do Poderoso Chefão para falar de amenidades, buscando na

produção poética a pausa nas atribulações do nosso dia-a-dia. Vez por outra, no entanto, permite-se a

abordagem de temas de narração jornalistica que falam sobre problemas que afligem a sociedade.

Afinal, esse tem sido o espírito que norteia a postura deste Portal, acompanhado por

milhares de seguidores no Brasil e por brasileiros sediados em vários outros Países, na América e na Europa.

Para não dizer que não falamos em flores, repito com Mário Quintana contradições que pautam as interrogações neste nosso alienado País:

“Eu amo o mundo! Eu detesto o mundo!
Eu creio em Deus! Deus é um absurdo!
Eu vou me matar! Eu quero viver!
– Você é louco?
– Não, sou poeta.”

O poema escolhido para publicação neste frio sábado de Outono foi aplaudido por todos os profissionais do Portal Don Oleari: o big shot, Rádio Clube da Boa Música, Sociedade dos Poetas Vivos e até democraticamente pelos visitantes na ocasião da escolha presentes na sede do Portal.:

“Os ombros suportam o Mundo”, do itabirano Carlos Drumond de Andrade (na foto, num monumento erguido a ele e a Mario Quintana).

Rubens Pontes
Via teleconferência

Capim Branco, MG

Os Ombros Suportam o Mundo

Carlos Drummond de Andrade

Chega um tempo em que não se diz mais: meu
Deus.
Tempo de absoluta depuração.
Tempo em que não se diz mais: meu amor.
Porque o amor resultou inútil.
E os olhos não choram.
E as mãos tecem apenas o rude trabalho.
E o coração está seco.
Em vão mulheres batem à porta, não abrirás.
Ficaste sozinho, a luz apagou-se,
mas na sombra teus olhos resplandecem enormes.
És todo certeza, já não sabes sofrer.
E nada esperas de teus amigos.
Pouco importa venha a velhice, que é a velhice?
Teus ombros suportam o mundo
e ele não pesa mais que a mão de uma criança.
As guerras, as fomes, as discussões dentro dos
edifícios
provam apenas que a vida prossegue
e nem todos se libertaram ainda.
Alguns, achando bárbaro o espetáculo
prefeririam (os delicados) morrer.
Chegou um tempo em que não adianta morrer.
Chegou um tempo em que a vida é uma ordem.
A vida apenas, sem mistificação.

Rubens Pontes,

jornalista, escritor

– Passos, saltos & queda – Linki pra ler Passos, Saltos & Quedas, de Rubens Pontes.
http://online.anyflip.com/mitk/xjqj/mobile/index.html?fbclid=IwAR39mt-wlzHGKBAeTSG7cZOD4etEr38ocVyHkE-rPKkwvhpfI8qfvf7khLE#p=10

 

 

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