Menu

sbado, 21 de setembro de 2019

Aqui Rubens Pontes: Meu poema de sábado – Independência ou morte de Cuiabá e Deus, de D. Francisco de Aquino Correa

 

 

O Poderoso Chefão retornou de rápida viagem ao Estado de Mato Grosso e, em papo informal com este colunista, falou sobre a importância dos intelectuais da terra para a nossa inteligência criativa,

lamentando a desinformação de seus trabalhos no campo da produção literária
brasileira, além de suas fronteiras, com raríssimas exceções.

Confesso com algum pudor que me incluo entre esses desinformados. Além de D. Aquino Corrêa (à esquerda) e Manoel de Barros (abaixo), autores de obras que mantenho em minha estante, de outros nada sei.

E são muitos os elencados pelo diretor deste Portal, como Francisco de Aquino Correa,

Rubens Mendonça, Silva Freire, José de Mesquita, Luck P. Mamute, Ângela Cordini,

Rapper Azul, Divanise Carbonieri, Mário Cezar Silva Leite, Ana Maria Moura.

Entre 27 poetas elencados, um, entre eles, se situa entre os autores que mais admiro: D. Aquino Correa, escritor, poeta, sacerdote, prelado, arcebispo de Cuiabá e internacionalmente admirado como orador sacro.

D. Aquino nasceu em Cuiabá na casa da foto à esquerda no ano de 1885 – imóvel do século 19, que abriga atualmente o Museu de História Natural de MT, à beia do Rio Cuiabá.

Bacharel em Humanidades pelo Liceu Salesiano de São Paulo, em 1904 foi enviado a
Roma onde cursou simultaneamente a Universidade Gregoriana e a Academia São Tomás de
Aquino, doutorando-se em Teologia.

Em 1909, já tendo recebido todas as Ordens Menores e Maiores, foi ordenado Prebístero.

Retornando ao Brasil, D. Aquino foi nomeado diretor do Liceu Salesiano de Curitiba,
Paraná, onde permaneceu até ser designado pelo Papa Pio X titular do Bispado e Auxiliar do Arcebispo da Diocese de Cuiabá.

Completara apenas 29 anos de idade, sendo com isso o mais moço entre todos os bispos do Mundo.

Às 10h45m do dia 6 de agosto de 1941, Cuiabá recebia pela primeira vez o presidente Getúlio Vargas. D. Aquino celebrou o Te Deum. O interventor federal do Estado era Júlio Müller.

O Papa Bento XV conferiu-lhe os títulos de Assistente do Sólio Pontifício e Conde Palatino.

No plano nacional, foi indicado pelo então presidente Wenceslau Braz “Elemento Conciliador”, tendo sido eleito governador do Estado do Mato Grosso para o período 1918-1922.

Durante seu exercício como governador, fundou a Academia Mato-grossense de Letras, da qual foi eleito por unanimidade Presidente de Honra, e o Instituto Histórico e Geográfico de Mato Grosso, do qual foi escolhido Presidente Perpétuo.

Através dessas entidades e reunindo intelectuais do seu estado, D. Aquino é reverenciado também pelo seu esforço em criar uma identidade para o o povo matogrossense.

D. Aquino Correa foi autor de numerosas obras, cartas pastorais, sermões, discursos. Em 1917 teve editado seu primeiro livro de poemas, “Odes”, que mereceu do embaixador José Carlos de Macedo Soares o comentário:

  • “Há, na poesia de D. Aquino, um forte lirismo que combina bem com seu poder descritivo, não só quando ele narra um episodio,como também invoca uma paisagem ou simplesmente uma viva emoção”.

 

No campo da poesia, além de “Odes”, em 2 volumes, D. Aquino publicou “Terra
Natal” e “Nova et Vetera”.

Seus excelentes trabalhos literários o levaram a ser eleito, em 1927, para ocupar a
Cadeira 34 da Academia Brasileira de Letras.

O grande nome da inteligência brasileira morreu em São Paulo, em 1956.

O Portal Don Oleari e este colunista rendem sua homenagem à figura que tanto
dignificou a sociedade em que viveu, publicando duas de suas esplêndidas criações:

“Independência ou Morte em Cuiabá” e “Deus”.

Rubens Pontes
Capim Branco, MG

“INDEPENDÊNCIA OU MORTE DE CUIABÁ”

À “Brigada Branca” dos Colégios Salesianos

D. Aquino Correa

Foi sobre a tarde, quando o sol declina,
Hora divina das contemplações,
Hora do Gólgota, sublime hora,

Marcada outrora para as redenções.

Deus decretara redimir a terra,
Que o nome encerra da sagrada Cruz,
E a um jovem príncipe entregou a espada
Dessa cruzada de infinita luz.

O herói passava, em seu ginete airoso,
Ao sol radioso, que esmaltava os céus:
O ideal fremia-lhe na fronte inquieta,
Era a silhueta de um estranho deus!

Tinha a seus pés, por pedestal, o outeiro
Alvissareiro do Ipiranga em flor;
E a brisa e as árvores e a onda flava,
Tudo cantava de esperança e amor!

E quando ergueu aquele sabre de ouro,
E como estouro de vulcão fatal,
Rugiu nos céus: “Independência ou Morte”
Tinha no porte, um heroísmo ideal!

Responde ao grito, e, delirante, brada
A cavalgada, que nos fez nação;
E o luso tope, que algemava os braços,
Rola em pedaços no brasílio chão!

Entanto o grito: “Independência ou Morte!”
De sul a norte, num fulmíneo ecoar,
Livres bandeiras pelo azul desata,
Numa fragata lá transpõe o mar!

Desde o Itatiaia, que assoberba os ares,
Até Palmares, repercute a voz:
Ouvem-na os manes dos fatais guerreiros,
Dias, Negreiros e Poti feroz.

Sorri-lhe o espírito imortal de Anchieta,
Anjo e poeta, que o Senhor nos deu;
E, do além túmulo, como que suspira
A infausta lira do gentil Dirceu.

Brota de tudo, e se ouve um hino ardente,
Ardentemente, pelo azul cantar,
Um como hino de Natal que erra,
Do céu à terra, e da montanha ao mar!

E qual Andrômeda, sorrindo agora,
A voz canora do novel Perseu,
Tal surge a Pátria do Cruzeiro lindo,
Livre, sorrindo, para o azul do céu!

Sublime grito: “Independência ou Morte!”
Que o jugo forte do opressor destróis!
Da liberdade és o fatal dilema,
O eterno lema de um país de heróis!

Não és o grito da anarquia infame,
Que espuma e brame, contra Deus e o rei;
Tu és o cântico da liberdade,
Que não evade os muralhões da lei!

Tu és um raio dessa Cruz bendita,
Que além palpita, em nossos puros céus;
És o diadema de uma Pátria ingente,
Que, livre e crente, só se humilha a Deus!

1917

DEUS!

Quem fez, ó minha alma, estas verdes campinas,
Quem fez a bonina, quem fez estes céus?
Quem fez nestas vargens as lindas palmeiras,
Louçãs e altaneiras, quem foi, senão Deus?

Quem fez esses astros que brilham nos ares,
Quem fez dos luares os fúlgidos véus?
Quem fez essas aves gazis e canoras,
Quem fez as auroras, oh! quem, senão Deus?

Quem fez esse plácido olhar do inocente
Que fala, eloqüente, até mesmo aos incréus?
Quem fez o sorriso das mães carinhosas,
Melhor do que as rosas, quem foi, senão Deus?

Quem foi que te deu, com a fé e a esperança,
O amor, essa herança negada aos ateus?
Oh! quem contará outras dádivas santas,
Tão ricas e tantas, que houveste de Deus?

São mais, muito mais que as infindas estrelas,
Que orvalham, tão belas, o azul destes céus;
São mais do que as flores gentis desta terra,
Que, entanto, as encerra infinitas, meu Deus!

Quem, pois, ó minha alma, tem tantos direitos
Aos férvidos preitos dos cânticos teus?
A quem votarás dos teus santos amores
As místicas flores; a quem? só a Deus

Rubens Pontes,

jornalista, escritor –

Passos, saltos & queda – Linki pra ler Passos, Saltos & Quedas, de Rubens Pontes.
http://online.anyflip.com/mitk/xjqj/mobile/index.html?fbclid=IwAR39mt-wlzHGKBAeTSG7cZOD4etEr38ocVyHkE-rPKkwvhpfI8qfvf7khLE#p=10

Matéria produzida pela TV Centro América neste link: https://g1.globo.com/mt/mato-
grosso/noticia/2019/04/25/imovel-do-seculo-19-casa-de-dom-aquino-em-cuiaba-
abriga-museu-de-historia-natural-de-mt.ghtml

Comentários