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sbado, 21 de setembro de 2019

Aqui Rubens Pontes: Meu poema de sábado – Meu Rosário, de Maria Conceição Evaristo de Brito

 

 

Maria Conceição Evaristo de Brito

Evocando poetas mineiros que me acompanham desde a juventude,

ocorrem-me nomes como os de Cecília Meireles, Adélia Prado, Alphonsus de Guimararaens (pai e filho).

Emílio Moura, de quem fui amigo, Henriqueta Lisboa (companheira no jornalismo),
Rubem Alves, Murilo Mendes, Djalma Andrade (colega de redação na Folha de Minas) e, naturalmente,
Carlos Drummond de Andrade, poeta maior.

A esses notáveis cultores da poesia, no entanto, é imperioso somar um nome que é
um fenômeno pelas circunstâncias de sua origem, de sua vida, de sua bravura, de suas conquistas
que a conduziram ao panteon dos grandes nomes da literatura brasileira, ultrapassando fronteiras, com trabalhos editados na Alemanha, na Inglaterra e nos Estados Unidos.

Conceição Evaristo nasceu quando era eu já adulto, numa fase de trabalho intenso
que não justifica, mas explica (em parte…) não ter dado ao seu trabalho a mesma atenção tributada
aos poetas que marcaram a minha juventude.

Maria Conceição Evaristo de Brito nasceu em 1946 num barraco de meia água em
uma favela no alto da Avenida Afonso Pena, quase ao pé da Serra do Curral, em Belo Horizonte, uma das nove irmãs de uma lavadeira e de pai não citado noregistro de seu nascimento.

Cresceu num meio pobre e ao chegar à juventude trabalhou como empregada
doméstica em casa de

uma família de classe média.

Aos 25 anos de idade, superando as naturais dificuldades de uma favelada negra.
concluiu em 1971 o curso normal numa escola estadual.

Na década de 70, mudou-se para o Rio de Janeiro e em poucos anos começou a ser
notada nos meios

intelectuais da cidade.

Nunca deixou de estudar e e paralelamente registrar pensamentos e poemas como forma de expressar sua visão do mundo que a cercava.

Num certo momento, confessou:

“Tudo que escrevo é profundamente marcado pela condição de mulher negra”.

Tornou-se em espaço de tempo surpreendentemente curto reconhecida como
expoente da literatura brasileira e afro-brasileira ,com projeção internacional alcançada com alguns dos seus livros traduzidos em vários idiomas.

Já então portando títulos de Mestre em Literatura Comparada pela Pontifícia Universidade Católica, RJ, e Doutora em Literatura Comparada pela Universidade Universidade Federal Fluminense com a tese “Poemas malungos, cânticos irmãos”, Conceição Evaristo teve obras editadas na
Alemanha, Inglaterra e Estados Unidos.

Recebeu, em 2015, o Prêmio Jaboti, e, em 2017, o Prêmio Cláudia. Em 2018 foi indicada para ocupar uma cadeira na Academia Brasileira de Letras, quando o escolhido foi o cineasta Cacá Diegues.

O Portal Don Oleari, para quem preconceito é palavrão, se curva em genuflexão
solidária com o colunista, que se penitencia ainda em tempo, fazendo publicar neste frio sábado de
outono um poema de Conceição Evaristo – MEU ROSÁRIO – capaz de aquecer a nossa alma e abrandar o
coração..

Rubens Pontes
Capim Branco, MG.

Jornalista, poeta, escritor

– Passos, saltos & queda – Linki pra ler Passos, Saltos & Quedas, de Rubens Pontes.
http://online.anyflip.com/mitk/xjqj/mobile/index.html?fbclid=IwAR39mt-wlzHGKBAeTSG7cZOD4etEr38ocVyHkE-rPKkwvhpfI8qfvf7khLE#p=10

Meu Rosário

Maria Conceição Evaristo de Brito

Meu rosário é feito de contas negras e mágicas.
Nas contas de meu rosário eu canto Mamãe Oxum e falo
padres-nossos, ave-marias.
Do meu rosário eu ouço os longínquos batuques do
meu povo
e encontro na memória mal-adormecida
as rezas dos meses de maio de minha infância.
As coroações da Senhora, onde as meninas negras,
apesar do desejo de coroar a Rainha,
tinham de se contentar em ficar ao pé do altar
lançando flores.
As contas do meu rosário fizeram calos
nas minhas mãos,
pois são contas do trabalho na terra, nas fábricas,
nas casas, nas escolas, nas ruas, no mundo.
As contas do meu rosário são contas vivas.
(Alguém disse que um dia a vida é uma oração,
eu diria porém que há vidas-blasfemas).
Nas contas de meu rosário eu teço entumecidos
sonhos de esperanças.
Nas contas do meu rosário eu vejo rostos escondidos
por visíveis e invisíveis grades
e embalo a dor da luta perdida nas contas
do meu rosário.
Nas contas de meu rosário eu canto, eu grito, eu calo.
Do meu rosário eu sinto o borbulhar da fome
No estômago, no coração e nas cabeças vazias.
Quando debulho as contas de meu rosário,
eu falo de mim mesma em outro nome.
E sonho nas contas de meu rosário lugares, pessoas,
vidas que pouco a pouco descubro reais.
Vou e volto por entre as contas de meu rosário,
que são pedras marcando-me o corpo-caminho.
E neste andar de contas-pedras,
o meu rosário se transmuda em tinta,
me guia o dedo,
me insinua a poesia.
E depois de macerar conta por conto do meu rosário,
me acho aqui eu mesma
e descubro que ainda me chamo Maria.

 

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