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sexta, 15 de novembro de 2019

Aqui Rubens Pontes: Meu poema de sábado – Cândido Portinari, Os Retirantes

 

Visito com emoção as obras de arte plantadas no aristocrático bairro da Pampulha, criação de JK quando prefeito de Belo Horizonte.

Foi ali também que dois dos maiores nomes da arte brasileira se encontraram, uma convergência de talentos maiores, para criação de um monumento que ganharia projeção internacional: a Igrejinha da Pampulha (à direita), obra de Oscar Niemeyer, com os insuperáveis paneis de Cândido Portinari, autor também do retrato em azulejos de São Francisco (abaixo, à direita) e das 14 cenas da Via Sacra.

Nosso personagem deste sábado – Cândido Portinari – é mais conhecido por suas insuperáveis telas, entre elas o grande painel “Guerra e Paz”, colocado em lugar de destaque na sede da ONU (Organização das Nações Unidas), em Nova York/EUA (à esquerda).

Paulista nascido em 1903, numa fazenda em Brodowski, um dos 12 irmãos de um casal de imigrantes italianos, transferiu-se aos 15 anos com a família para o Rio de Janeiro, uma mudança que marcaria fundamente o seu futuro.

Feras, 1955: detalhe dos painéis Guerra e Paz, de Candido Portinari (acima, à direita).

Frequentou o Liceu de Artes e Ofícios e a Escola de Belas Artes, apaixonando-se pela pintura em telas, afrescos  e paneis. Ele próprio preparava as tintas que usava, fato que iria, no ano de 1962, causar-lhe a morte por intoxicação no seu manuseio.

Portador de três prêmios no Salão de Belas Artes, em exposições no ano de 1922, conquistou também Prêmio de Viagem ao Exterior que o levou a visitar a Itália, Inglaterra e Espanha e a se estabelecer em Paris.

Retornando ao Brasil em 1931, nos seis meses subsequentes pintou 40 telas. Os afrescos da Biblioteca Pública do Congresso dos Estados Unidos, em Washington, foram por ele produzidos (à esquerda).

Há, porém, uma faceta na vida de Cândido Portinari pouco conhecida: a de poeta de extrema sensibilidade, com produções no campo da literatura sempre ligadas aos temas de suas telas.

O Portal Don Oleari e este colunista selecionaram um dos seus poemas para este sábado, uma mostra de um talento que completa a obra do gênio mundial das artes plásticas.

Rubens Pontes

Capim Branco, MG

Os Retirantes

– Cândido Portinari

Elevo meus olhos aos céus, onde percebo não haver socorro.

Em desespero busco refrigério ao redor.

Ó, terra inóspita que esvai o respirar dos pulmões dos meus amados.

Sobrepuja o andar saltitante e oferece um lamaçal de morte.

Terra cujo gorjeio das aves é o prenúncio de morte e tenebrosa desgraça.

Oh terra infértil e incandescente, castiga os pés do retirante ansioso pelo repouso;

Terra que impede a lágrima que do corpo murcho coletou.

Terra ingrata que muitas mãos calejaram na labuta,

Adentrando em sua veia buscando energia para o corpo alimentar;

Amargo sabor do fel, sem doçura encontrar.

Cansado, moribundo e destituído do prazer simples de viver.

Tu terra ingrata, zomba do meu desejar;

O sol repousa e levanta a noite agourenta, olhos ainda elevados aos céus;

Ouve o clamor deste sofredor, Terra da desesperança!

De coração ardente e ansioso, sangra a preciosa esperança;

Perseguidor da vida, vulgo retirante, alma quebrantada a sussurrar;

Não permita que eu morra sem a herança do bom viver alcançar.

Rubens Pontes, jornalista, escritor

– Passos, saltos & queda – Linki pra ler Passos, Saltos & Quedas, de Rubens Pontes. – http://online.anyflip.com/mitk/xjqj/mobile/index.html?fbclid=IwAR39mt-wlzHGKBAeTSG7cZOD4etEr38ocVyHkE-rPKkwvhpfI8qfvf7khLE#p=10

 

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