Menu

segunda, 19 de agosto de 2019

Aqui Rubens Pontes: Meu Poema de sábado – Berredo de Menezes, Caminho do não ser

 

 

É notória a importância da imigração europeia para abertura de rotas determinantes para o desenvolvimento do Espírito Santo.

Entre os anos de 1986 e 1991, período curto e recente, foi registrada a presença no Estado de 135 mil 972 imigrantes, principalmente italianos e pomeranos.

Nara Saletto, professora de História da UFES-Universidade Federal do Espírito Santo, estima que entre 60 e 70 por cento da atual população capixaba são descendentes de imigrantes italianos.

Interessante registrar que esse fluxo de imigrantes foi consequência de um processo deflagrado pelo Imperador Dom Pedro II ao enviar em 1878, para a Província, seu Ministro da Colonização, Alfredo Chaves, para conter os ataques de índios contra os ocupantes de glebas na Região Serrana da Província.

Alfredo Chaves, que fora também Ministro da Guerra do Império, teve sucesso na sua missão possibilitando a ocupação de terras destinadas às famílias de agricultores ali locadas.

O Portal Don Oleari destaca a circunstância paralela de que também famílias e personalidades de outros Estados da Federação deixaram sua origem em busca de novas perspectivas de vida, plantando bandeiras de esperança nas acolhedoras terras capixabas.

Baianos e mineiros, Estados limítrofes, vieram em maior número, mas praticamente toda a Nação está representada no levantamento demográfico do Estado. do Espírito Santo.

Um maranhense da cidade de Caxias, depois de cursar Direito na antiga Universidade Federal do Rio de Janeiro, foi para a França em 1952, diplomando-se em Sociologia Criminal e em História das Artes na Universidade de Paris.

Seu futuro, porém, estava determinado e o Espírito Santo seria seu destino definitivo. Ferdinand Berredo de Menezes apaixonou-se pela cidade de Vitória por força de um incidente por ele próprio narrado e que este Portal mostra como foi.

O ano era 1962. A partir daí vestiu simbolicamente a roupa, adotou os costumes e tornou-se um autêntico capixaba, tanto quanto os que aqui nasceram.

Vitória abriu-lhe seus generosos braços possibilitando a Berredo de Menezes expressar sua cultura como advogado criminalista, escritor, economista, professor, poeta.

O chamamento foi inevitável para o homem de muito saber e de muitos ideais e em 1957 nosso personagem filiou-se ao PTB, mantendo paralelamente estreitas relações com o PCB, o banido Partido Comunista Brasileiro. Elegeu-se vereador em duas legislaturas e ocupou a Prefeitura Municipal, realizando importantes obras na cidade.

Foi diretor do Departamento de Direito do Centro de Ciências Jurídicas e Econômica da UFES, até se aposentar depois de 32 anos de trabalho.

Membro do Instituto Histórico e Geográfico e da Academia Espírito-santense de Letras, distinção especial ao cidadão que firmara reputação como intelectual.

Teve um trágico final para um homem de tanto saber e muito pensar, sofrendo do mal de Alzheimer durante 10 anos e falecendo aos 86 anos, em 2015.

O texto em que Ferdinand Berredo de Menezes narra seu alumbramento com a cidade de Vitória e o poema – “Caminho do Mar – escolhido para reverenciar sua memória estão nesta coluna.

Rubens Pontes é jornalista – Capim Branco, MG.

– Passos, saltos & queda – Linki pra ler Passos, Saltos & Quedas, de Rubens Pontes.
http://online.anyflip.com/mitk/xjqj/mobile/index.html?fbclid=IwAR39mt-wlzHGKBAeTSG7cZOD4etEr38ocVyHkE-rPKkwvhpfI8qfvf7khLE#p=10

CAMINHO DO NÃO SER

Berredo de Menezes

Nesta noite tão grávida de ausências,
sou a raiz antiga dos pesares,
no caminho sem volta da indolência.
Devaneio de esperas vespertinas,
já desnudo das cores da mentira,
sofro a imortalidade pela ausência.
Entre o vazio dos meus próprios sonhos,
vivo de pertencer à fantasia
de me sentir segredo em olhos cegos.
Na recôndita luz de uma mudança,
e ébrio de minhas dúvidas piedosas,
a vida não deixou-me ser ninguém.
Existo sob o ocaso inverossímil
em que as saudades tecem meu escuro,
em andeja aparência de esperanças.
Talvez por isso, sinto o irreversível
na ébria convivência das lembranças
que ainda solfejam lágrimas sem eco.
No instante sucessivo dessa mágoa,
ouço harmonia oceânica dos sonhos
num campo onde o impossível não se esgota.
E entre um ser imutável que não vinga,
e a vida fugitiva dos disfarces,
escolhi o caminho do não ser.
Quis ser das flores um aroma anímico,
num jardim de crepúsculos sem lumes,
entre ilusões e dúvidas crescentes.
Mas despido de pálpebras edênicas
hoje sou um silêncio em dor de pétalas,
onde as lágrimas fulgem sem perfume.

Praia-Mar de Itaparica,
entre 7 e 7/2/2008  – Inspirado no “Cemitério Marinho”, de Paul Valéry.

 

Comentários