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tera, 12 de novembro de 2019

Aqui Rubens Pontes: Meu poema de sábado – Antônio Dias Tavares Bastos, Le Vent

 

Antônio Dias Tavares Bastos.
Poeta singular que só vercejava em francês

Uma figura instigante das letras, o único poeta entre os milhares deles em todos os Continentes, que, só ele, escreveu todos os seus trabalhos numa língua que não é a sua.

Antônio Dias Tavares Bastos, aliás, gerou controvérsias mesmo quando se procura determinar sua origem, a cidade onde nasceu.

O escritor e historiador Anaximandro Amorim em seu estudo “Tavares Bastos: Embaixador da Poesia Brasileira na França” cita Manuel Bandeira (Crônica do Coração):

Escreveu Manuel Bandeira:

“- A.D.Tavares, nascido no Espírito Santo, nasceu poeta e, com seu brasileirismo cem por cento, coma tocante paixão pela França…”

Esse registro contradita a viúva do poeta, Georgette Tavares Bastos, que diz ter ele nascido em Campos dos Goitacazes, Estado do Rio de Janeiro.
Como se não bastasse, Afrânio Coutinho, na sua “Enciclopédia da Literatura Brasileira”, afirma ter Tavares Bastos nascido no Espírito Santo, sem fornecer, porém, maiores detalhes.

O fato é que o grande poeta brasileiro, onde quer que tenha nascido, ganhou relevo como brilhante intelectual em Vitória/ES, para onde sua família transferiu residência a partir de julho de 1910, nomeado seu pai, José Tavares Bastos, juiz federal no Estado.

Entre os anos de 1918 e 1922, Tavares Bastos estudou Direito no Rio de Janeiro, tendo sido, logo após a sua formatura, nomeado promotor de Justiça em Vitória.

Registra ainda o historiador Anaximandro Amorim que foi após seu retorno ao Espírito Santo que o poeta publicou seus primeiros trabalhos na imprensa, principalmente artigos e crônicas, antes de se voltar para a poesia que marcou fundamente sua vida como intelectual.

Foi também nessa fase que Tavares Bastos se apaixonou pela língua francesa, que dominava esplendidamente bem, publicando seu primeiro livro, “Ballades brèsilienses”, com 27 poemas, curiosamente sob o pseudônimo de Charles Lúcifer.
O trabalho foi lançado na França, em 1924, com críticas favoráveis do jornal parisiense Le Figaro.

Ainda e sempre escritos em francês, Tavares Bastos lançou em 1925 “Les poèmês défendus,” e, em 1927, poesia erótica,”Cynismes, suivis de sensualismes”, ambos produzidos quando residia em Vitória.

Em 1957, lançou “Introduction à la poésie hibéro-américaine”, repositório de poemas de autores portugueses, espanhóis e latino-americanos”. Este trabalho teve coparticipação do escritor Pierre Darmangeat.

Dez anos mais tarde, organizou, ele só, “Anthologie de la poésie brésiliense contemporaine”, com 227 poemas de 47 poetas, entre eles os brasileiros Manuel Bandeira, Oswald de Andrade, Cecília Meirelles, Carlos Drumond, Vinicius de Morais, Murilo Mendes, João Cabral de Melo Neto e a capixaba Hayée Nicolussi (acima, à esquerda).

La poésie brésilienne, organisation et traduction A. D. Tavares-Bastos, EditionsSeghers, 1a édition, Paris, 1966.

Lançado pela Editora Tisnet, o trabalho foi laureado pela Academia Francesa e teve uma edição póstuma pela Editora Seghers.

Antônio Dias Tavares retornou à França em 1937, falecendo em Paris em 1960.
Foi casado com a também poeta e escritora francesa Georgette Tavares Bastos, famosa pela versão para o francês principalmente de obras de Jorge Amado, com destaque para “Dona Flor e seus Dois Maridos”.

Ao encerrar a coluna, o Portal Don Oleari registra seu reconhecimento a Anaximandro Amorim pelos subsídios que nos propiciaram oferecer aos nossos leitores este interessante registro. Na foto, Anaximandro (*) ao centro, com este repórter e o poeta Italo Campos no programa Sociedade dos Poetas Vivos, gravado na Biblioteca Pública do ES.

O Poema selecionado; LE VENT – tradução de Cecília Meireles.

(*) E o Editor agradece ao poeta, professor, tradutor Anaximandro Amorim o “relpi” na formatação do texto em francês, que juntou muitas palavras no imeil enviado por Rubens Pontes.

Rubens Pontes
Capim Branco, MG

– Passos, saltos & queda – Linki pra ler Passos, Saltos & Quedas, de Rubens Pontes.
http://online.anyflip.com/mitk/xjqj/mobile/index.html?fbclid=IwAR39mt-wlzHGKBAeTSG7cZOD4etEr38ocVyHkE-rPKkwvhpfI8qfvf7khLE#p=10

Le Vent

A. D. Tavares-Bastos – Tradução de Cecília Meireles

Le Vent

Les vents d’août sont passés qui tout emportèrent.
Les arbres humiliées frappèrent le sol de leurs rameaux.
Des tois s’ enallèrent, et des échafaudages,
des choses infinies s’en sont allées:
les nids que les hommes n’ avaient pas aperçus parmi les
branchages
et un espoir invisible habitant un coeur.
Les vents d’août sont passés, terrifiants, au coeur de la nuit.
Ils marchèrent sur tous les sommeils ecrasés.
Après, sur le paysage las de tant d’ aventure – sans forme
et sans écho –
le soleil retrouva les enfants qui venaient en quête du vent
pour faire monter leurs fragiles cerfs-volants.

O Vento

Passaram os ventos de agosto, levando tudo.
As árvores humilhadas bateram, bateram com os ramos no chão.
Voaram telhados, voaram andaimes, voaram coisas imensas;
os ninhos que os homens não viram nos galhos,
e uma esperança que ninguém viu, num coração.
Passaram os ventos de agosto, terríveis, por dentro da noite.
Em todos os sonos pisou, quebrando-os, o seu tropel.
Mas, sobre a paisagem cansada da aventura excessiva –
sem forma e sem eco,
o sol encontrou as crianças procurando outra vez o vento
para soltarem papagaios de papel.

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