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sbado, 16 de novembro de 2019

Aqui Rubens Pontes: Meu poema de sábado – João de Deus, A vida

Se não for esclarecida sua origem, pode-se pensar que nosso poeta deste sábado é brasileiro. Mas, apesar do que escreveu ao saber ter sido eleito deputado, mais ou menos à sua revelia:

– “Que diacho vocês querem que eu faça no Parlamento? Cantar? Recitar versos? Deve ser gaiola que talvez sirva para dormir lá dentro a ouvir a música dos outros passarinhos. Dormirei, com certeza”…

Ah! e faltou a 10 de 13 sessões do Parlamento, no seu primeiro ano de mandato.

João de Deus – ainda aí, apesar do nome alvo de manchetes recentemente – foi um expoente dos meios literários, jornalísticos e da educação em Portugal.

João de Deus de Nogueira Ramos, quarto filho de 12 irmãos, nascido no ano de 1830 na cidade de São Bartolomeu de Messina, tornou-se advogado, poeta, escritor, pedagogo e destacado jornalista, diretor de “O Bejense”, o jornal de maior circulação no Alentejo.

Anda à moda brasileira, para sua sobrevivência, de família pobre que era, tornou-se “ghost writer”, escrevendo trabalhos literários sob encomenda.

Até como poeta teve muita coisa à brasileira: improvisador, um repentista como nossos poetas de cordel, recitava acompanhando à viola variações do cancioneiro popular produzidas também por seus amigos lisboetas.

Em 1869 foi editada sua primeira coletânea, “Flores do Campo”, enaltecida por críticos e por leitores.

Escreveu numerosas obras de poemas e prosa, com destaque para o “Dicionário Prosódico de Portugal e Brasil”.

Como pedagogo, ganhou notoriedade com sua “Cartilha Maternal”, um novo e revolucionário método de ensino de leitura.

Este levantamento, muito reduzido, registra ainda a fundação em Lisboa, em 1882, por iniciativa popular liderada por Casimiro Freire, da Associação de Escolas Móveis, com a finalidade de praticar os ensinamentos pedagógicos de João de Deus – uma instituição particular de Solidariedade Social onde funciona também o Museu João de Deus.

Desde sua fundação, a instituição já recebeu 170 mil crianças.

O grande nome da inteligência portuguesa morreu em janeiro de 1896. Seu corpo foi sepultado no Panteão Nacional da Igreja Santa Engrácia, em Lisboa.

O Portal Don Oleari e este colunista lembram a passagem de João de Deus de Nogueira Ramos por este plano em que vivemos fazendo publicar como Poema deste Sábado uma de suas esplêndidas criações.

Rubens Pontes

Capim Branco, MG – Passos, saltos & queda – Linki pra ler Passos, Saltos & Quedas, de Rubens Pontes.
http://online.anyflip.com/mitk/xjqj/mobile/index.html?fbclid=IwAR39mt-wlzHGKBAeTSG7cZOD4etEr38ocVyHkE-rPKkwvhpfI8qfvf7khLE#p=10

A VIDA

João de Deus

A vida é o dia de hoje,
A vida é ai que mal soa,
A vida é sombra que foge,
A vida é nuvem que voa;
A vida é sonho tão leve
Que se desfaz como a neve
E como o fumo se esvai:
A vida dura um momento,
Mais leve que o pensamento,
A vida leva-a o vento,
A vida é folha que cai!

A vida é flor na corrente,
A vida é sopro suave,
A vida é estrela cadente,
Voa mais leve que a ave;
Nuvem que o vento nos ares,
Onda que o vento nos mares,
Uma após outra lançou,
A vida – pena caída
Da asa de ave ferida –
De vale em vale impelida
A vida o vento a levou

JOÃO DE DEUS
(1830-1896)

 

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