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segunda, 21 de outubro de 2019

Aqui Rubens Pontes – “Binômio sombra e água fresca”, um pouco da história do semanário mineiro

…em sua fase áurea, contou com importantes nomes da imprensa brasileira participando de sua redação, como Fernando Gabeira, Roberto Drumond, Guy de Almeida, Ziraldo, Borjalo.

Sobre o semanário “Binômio”, como pede o Poderoso Chefão do Portal Don Oleari, posso contar pouca coisa além do que tem sido publicado.

Mas há alguns episódios, no mínimo curiosos e irreverentes, próprios de um jornal criado para criticar atos do governador mineiro Juscelino Kubitschek.

O nome Binômio foi uma alusão à política de gestão de JK – o Binômio Energia e Transporte, que o semanário nominava “Binômio Sombra e Água Fresca”.

O governador, no entanto, recebia com absoluto far-play as críticas publicadas e o semanário circulava livremente como deve ser numa democracia. Bias Fortes, que o sucedeu no governo, proibiu todas as gráficas de Belo Horizonte a imprimir o jornal, que passou a ser editado no Rio de Janeiro.

Fundado no dia 17 de fevereiro de 1952, o jornal teve trânsito livre para ser editado durante 12 anos, e foi ai, com a implantação dos governos militares, que a vaca, quero dizer, o jornal foi para o brejo.

Antes de escrever sobre o desenlace ocorrido em 1964 e do incidente que envolveu indiretamente o Estado do Espírito Santo, relato dois episódios dos quais fui involuntariamente envolvido.

Era eu apresentador de um programa na extinta TV Itacolomi – Campeões da Democracia – com a participação de convidados que respondiam, do estúdio, perguntas de telespectadores formuladas por telefone. Sem nenhuma censura.

Numa determinada semana, meus convidados foram Euro Arantes e José Maria Rabelo (à esquerda), fundadores e diretores de “O Binômio”.

Ia tudo muito bem até que uma pergunta formulada por telefone aberto me fez eriçar a espinha:

– Onde os senhores acham que José Maria de Alkmin estudou economia?

(José Maria Alkmin era o secretario de Finanças do Estado de Minas Gerais, amigo de Assis Chateaubriand).

A resposta foi uma gracinha, respondida por Euro Arantes:

“Na Universidade de Bocaiuva” (cidade natal do secretário, antiga Curato de Macaúbas, à época com pouco mais de 30 mil habitantes).

Dois dias depois chegou a ordem, partida da alta direção dos Diários Associados:

– Tirem o programa do ar!

E o programa saiu do ar…

O segundo episódio ocorreu durante o governo do marechal Castelo Branco.

Era eu, na época, assessor de imprensa do general Carlos Luiz Guedes (à direita) e numa manhã de uma terça-feira, confidenciou-me o capitão Paulo Clementino, a quem o setor era diretamente subordinado, que o diretor do Binômio, José Maria Rabelo, seria preso na manhã seguinte, na casa dele.

Havia um acordo entre nós para evitar a possível detenção de jornalistas. O comando do Exército não tinha participação no ato, determinado pelo comandante da Polícia Militar.

O general Bragança, que tivera um filho assassinado num levante de esquerda, enquanto dormia no quartel do XII Regimento de Infantaria, e que jurara só fazer a barba quando tivesse morto o último comunista, participaria da prisão e de seus possíveis desdobramentos.

Discreto telefonema, dado como o aviso, e o jornalista fugiu às pressas para a Bolívia, dizem que vestido de padre, permanecendo 16 anos fora do Brasil. No mesmo ano de 1964, o “Binômio”, que já alcançara tiragem de 60 mil exemplares, foi fechado.

Um soco no general

Pouco tempo antes, quando o semanário ainda circulava, um incidente anteciparia o fim do jornal.

Um artigo, acusando o general Punaro Bley, comandante do Exército em Minas, de desmandos quando era interventor no Espírito Santo durante o Estado Novo – “Democrata hoje, fascista ontem” – teve um desdobramento fatal para o “Binômio”.

O general, fardado, foi, sozinho, à redação do jornal tomar satisfações e durante o entrevero verbal foi agredido com um soco por José Maria Rabelo.

Poucos dias depois, dezenas de militares invadiram a redação do jornal, depredaram seus equipamentos e atiraram na rua, pela janela do 4º andar, móveis e utensílios.

Foi o ponto final de um semanário que tivera, em sua fase áurea, importantes nomes da imprensa brasileira participando de sua redação, como Fernando Gabeira (acima, direita), Roberto Drummond (acima, esquerda), Guy de Almeida, Ziraldo, Borjalo.

A celebrada charge de Borjalo sobre a origem do grito do Tarzan.

Primeira tiragem no dia 17 de fevereiro de 1952. Última tiragem em 1964, sua 801ª edição.

É isso aí.

Rubens Pontes
Capim Branco, MG.

jornalista

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