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sexta, 15 de novembro de 2019

Aqui Wilson Côelho: “Previsão para ontem” tem palestra sexta e lançamento sábado

Apesar de dividido em duas partes, sendo a primeira “O mundo que te sente” e, a segunda, “Tudo sobre amanhã”, o livro “Previsão para ontem” é uma espécie de fita de Moebios.

Nesse sentido, o ontem e o amanhã, no itinerário de seus poemas, são feitos do mesmo caminho e, inclusive, desfaz a dicotomia do dentro e do fora.

É o mundo no ser e o ser no mundo, simultaneamente, pois não se pode separar o ente já constituído do que está em processo permanente de reconstituição. São poemas simples e duros ao mesmo tempo.

A simplicidade de sua poesia está na maneira de des-velar um cotidiano que parece óbvio e que, por isso mesmo, na maioria das vezes, passa despercebido. A dureza dos versos, por sua vez, é manifesta na medida em que sua matéria-prima é o dia-a-dia, são feitos do cotidiano dos sonhos e dos pesadelos divididos em cotas, os pés no chão da realidade de um país que, conforme Lima Barreto, “não tem povo, tem público”.

Mas tem algo também sofisticado na poesia de Henrique Rodrigues, ou seja, através de seus poemas aparentemente bem comportados, há uma ponta de lança polida e aguda em direção aos corações atentos, principalmente em alguns versos onde ele se utiliza de uma fina ironia, não cáustica, mas tipo um toureio na arena de nossa contraditória cultura.

De certo modo, a poesia de Henrique Rodrigues nos propõe uma leitura dialética, considerando que a abordagem que norteia os poemas coloca em questãoa ideia de tempo: quem veio primeiro, o ontem ou o amanhã? Assim como Raul Seixas dizia que “o hoje é apenas um furo no futuro, por onde o passado começa a jorrar”, Henrique Rodrigues cria uma estratégia para afirmar o hoje como o lugar de onde falamos e, se estamos vivendo numa zona de combate, esse é o nosso lugar.

Por um lado, essa poesia referenda e também coloca em xeque a afirmação de Stefan Zweig em “Brasil, país do futuro” quando fazia uma apologia da “capacidade do brasileiro em harmonizar os conflitos”.

Por outro, também nos traz à memória a máxima de que “o Brasil é um jovem de cabelos brancos” que carrega em si mesmo uma dívida histórica de infinitas promessas não cumpridas.

Enfim, “Previsão para ontem” é um livro para se ler o mais rápido possível, pois – parafraseando o poeta – no Rio de Janeiro são cometidos 15 assassinatos por dia, enquanto acontecem 130 saraus de poesia, mas desses últimos não nos dão notícias.

Wilson Côelho,
escritor, tradutor, teatrólogo
e mais um tanto de títulos

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