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sbado, 16 de novembro de 2019

Rubens Pontes: Meu Poema de sábado – Chão de Estrelas, de Silvio Caldas e Orestes Barbosa

No final da coluna, Silvio Caldas conta como surgiu a clássica canção.

A coluna de hoje tem uma direção especial:

Sem pretender mostrar erudição, é necessário voltar a 1618, com a publicação do livro “Harmonice mundi” de Johannes Kepler, o astrônomo que ressuscitou a ideia pitagórica da harmonia do Universo, uma manifestação direta da mente divina.

A chave para entender a harmonia das órbitas elípticas planetárias levou Kepler a associar a sua velocidade aos números obtidos nas escalas musicais: Saturno corresponde a uma terça menor, Marte a uma quinta, etc.

O astrônomo finalmente desvelou a estrutura da música celestial ouvida por Pitágoras mais de dois mil anos antes dele.

Os Planetas cantavam juntos, um moteto celebrando a ordem divina. A invenção da música polifônica era uma tentativa dos homens de se aproximarem de Deus.

O físico e escritor brasileiro contemporâneo Marcelo Gleiser escreveu em “A dança do Universo” (Editora Companhia de Bolso) que “o poder sedutor da música celeste, com sua beleza ao mesmo tempo divina e intangível, inspirou vários poetas do Século XVII.

Tanto em Shakespeare como em Milton, podemos sentir a frustração causada por não podermos ouvir a música divina.”

É verdade.

Em “O Mercador de Veneza” o dramaturgo inglês confirma:

– “Como dorme docemente o luar nesse canteiro.
Vamos assentarmos aqui e deixemos os acordes da música
Deslizarem em nossos ouvidos. A calma, o silêncio e a noite
Convidam aos assentos de suaves harmonias…”

Em “O Hino”, poema de Milton:

Ressoem esferas de cristal,
Abençoem ao menos uma vez nossos ouvidos humanos
(se assim vocês puderem assim tocar nossos sentidos)
Permitam que seu badalar prateado
Flua em melodias temporais;
E, ao soar o órgão celestial,
Façam suas harmonias em nove níveis
Acompanhar a sinfonia dos anjos”.

Os grandes coros das Igrejas medievais se repetem através dos tempos, e mesmo aqui, entre nós,

ouvimos, por exemplo, os “Meninos Cantores de Petrópolis” harmonicamente tocando nossa

sensibilidade e nos fazendo, com a sonoridade de sua voz, nos aproximar do Criador.

A música popular brasileira se multiplica em exemplos. Centenas de composições nos fazem ter essa

visão do infinito e sua inspiração criadora transcende e vai muito além de sete notas musicais.

A Rádio Clube da Boa Música assumiu a missão de nos levar além do nosso horizonte, abrindo

espaços para sentirmos a instigante revelação de astrônomos, pioneiros e universalmente

admirados, de terem sido as notas musicais o mecanismo divino aplicado para a formação

harmônica do Universo.

Assim, a coluna deste sábado não foge à luta. A fonte, ainda desta vez, é a Rádio Clube da Boa Música.

A letra é um poema, a composição musical um toque rompendo cúmulos e nimbos para chegar até nós.

Silvio Caldas canta Chão de Estrelas.

Rubens Pontes
Capim Branco, MG

Chão de Estrelas
Silvio Caldas e Orestes Barbosa

Minha vida era um palco iluminado
Eu vivia vestido de dourado
Palhaço das perdidas ilusões
Cheio dos guizos falsos da alegria
Andei cantando a minha fantasia
Entre as palmas febris dos corações
Meu barracão no morro do Salgueiro
Tinha o cantar alegre de um viveiro
Foste a sonoridade que acabou
E hoje, quando do sol, a claridade
Forra o meu barracão, sinto saudade
Da mulher pomba-rola que voou
Nossas roupas comuns dependuradas
Na corda, qual bandeiras agitadas
Pareciam um estranho festival
Festa dos nossos trapos coloridos
A mostrar que nos morros mal vestidos
É sempre feriado nacional
A porta do barraco era sem trinco
Mas a lua, furando o nosso zinco
Salpicava de estrelas nosso chão
Tu pisavas nos astros, distraída
Sem saber que a ventura desta vida
É a cabrocha, o luar e o violão

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– Passos, saltos & queda – Linki pra ler Passos, Saltos & Quedas, de Rubens Pontes.
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