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segunda, 21 de outubro de 2019

Aqui Rubens Pontes: Meu poema de sábado – Poema sobre capixabas, de Elisa Lucinda; Ser Mineiro, de Fernando Couto

 

Contemplo meio a distância as montanhas que emolduram a paisagem de Capim Branco (à esquerda) e tenho um sentimento de saudade da visão do mar sem fim que eu descortinava em Manguinhos (à direita), praia no município da Serra/ES, próxima da capital, Vitória.

Mas, consola-me Rubem Alves:

“O mar de Minas não é no mar
O mar de Minas é no céu
Pro mundo olhar para cima e navegar
Sem nunca ter um porto aonde chegar”

Leio crônicas e poemas do mineiro Fernando Sabino e me deleito com crônicas e poemas de Rubem Braga .

É um privilégio usufruir dessa dupla convivência com os mineiros dos garimpos das Gerais e com os capixabas –“terra limpa para plantações” – dos indígenas que habitavam as terras ainda não conquistadas.

Como falo daqui, quero me deter mais por lá, um fascinante Estado formado por 73 ilhas – 50 delas só na Capital; o maior exportador de mármore e granito da América Latina; e, como nos mostra a Fundação Getúlio Vargas, a segunda Capital com o melhor IDH – Índice de Desenvolvimento Humano do Brasil; e ainda, segundo a ONU-Organização das Nações Unidas, a quarta melhor cidade brasileira para se viver.

Num Estado onde predomina a religião evangélica – 33,1% da população segundo censo do IBGE – sua orgulhosa Bandeira simboliza as cores das vestes de Nossa Senhora da Vitória, padroeira da Capital, e seu lema “Trabalha e Confia” foi inspirado na doutrina de Santo Inácio de Loyola:

– “Trabalha como se tudo dependesse de ti e confia como se tudo dependesse de Deus”.

Sinal dos céus? – Existe uma pedra no Espírito Santo que muda de cor cerca de 36 vezes ao longo do dia: Pedra Azul, em Domingos Martins.

Em Minas Gerais, a maior água marinha do Mundo foi encontrada na cidade sertaneja de Pedra Azul.

Tudo o que foi dito tem um toque de poesia, razão desta coluna, e a escolha de dois poemas para leitura neste sábado se agregam à paisagem que vejo daqui e que sonho com a de lá.

Elisa Lucinda homenageia os capixabas e Fernando Couto homenageando Carlos Drummond de Andrade.

Rubens Pontes

Capim Branco, MG –

– Passos, saltos & queda – Linki pra ler Passos, Saltos & Quedas, de Rubens Pontes.
http://online.anyflip.com/mitk/xjqj/mobile/index.html?fbclid=IwAR39mt-wlzHGKBAeTSG7cZOD4etEr38ocVyHkE-rPKkwvhpfI8qfvf7khLE#p=10

Poema sobre capixabas

Elisa Lucinda

“Todo capixaba tem um segredo de espuma,
uma conversa de duna,
um disse me disse.
Todo capixaba é chique.
Todo capixaba tem um pouco de beija-flor no bico,
uma panela de barro no peito,
uma orquídea no gesto,
um cafezinho no jeito,
um trocadilho na brincadeira,
um congo no andar,
um jogo de cintura,
um chá de cidreira,
uma moqueca perfeita
e uma rede no olhar.
Todo mundo de lá desenha nas areias brancas, compõe nas areias pretas.
Todo capixaba tem um verso,
tem um pouco de Anchieta.
Todo povo por lá tem um certo louco,
tem um certo torto,
uma palavra solta,
uma revoada de colibris.
Todo capixaba tem uma força de povo.
Tem um pouco de Maria Ortiz.
Toda montanha lá
tem um caso obstinado com o vento,
uma pedra azul,
um albatroz de convento.
De luva e biquini é que eu vou pra lá.
Todo capixaba é um evento”.

(ELISA LUCINDA)

Ser Mineiro

Fernando Couto (poeta e jornalista português)

Homenagem de Couto a Carlos Drummond de Andrade

Ser Mineiro é não dizer o que faz, nem o que vai fazer,
é fingir que não sabe aquilo que sabe,
é falar pouco e escutar muito,
é passar por bobo e ser inteligente,
é vender queijos e possuir bancos.

Um bom Mineiro não laça boi com imbira,
não dá rasteira no vento,
não pisa no escuro,
não anda no molhado,
não estica conversa com estranho,
só acredita na fumaça quando vê o fogo,
só arrisca quando tem certeza,
não troca um pássaro na mão por dois voando.

Ser Mineiro é dizer “uai”, é ser diferente,
é ter marca registrada,
é ter história.
Ser Mineiro é ter simplicidade e pureza,
humildade e modéstia,
coragem e bravura,
fidalguia e elegância.

Ser Mineiro é ver o nascer do Sol
e o brilhar da Lua,
é ouvir o canto dos pássaros
e o mugir do gado,
é sentir o despertar do tempo
e o amanhecer da vida.

Ser Mineiro é ser religioso e conservador,
é cultivar as letras e artes,
é ser poeta e literato,
é gostar de política e amar a liberdade,
é viver nas montanhas,
é ter vida interior,
é ser gente.

 

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