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sexta, 15 de novembro de 2019

Aqui Rubens Pontes: Meu poema de sábado – Dois poemas da mineira Henriqueta Lisboa

Portal Don Oleari

Bruno Torres Paraíso é jornalista

 

Escrevendo sobre Guy de Almeida, importante figura da inteligência mineira, o jornalista Bruno Torres  Paraíso citou en passant o nome de Henriqueta Lisboa, a frágil e tímida poeta que encantou a minha geração com versos que tocaram fundo o coração dos mineiros.

Henriqueta Lisboa (esquerda), além de poeta, foi também ensaísta, crítica literária e tradutora. Em 1925 iniciou sua vida literária com a publicação de Fogo Fátuo,  coletânea de poemas.  Seu livro de poemas Velário foi publicado um ano depois, em 1936.

Sua carreira como professora de ensino superior na Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras Santa Maria da Universidade Católica de Minas Gerais (posterior PUC/MG), onde lecionou literatura brasileira e literatura hispano-americana, não impediu que Henriqueta Lisboa editasse outros cinco livros de poesia.

Motivo de repercussão nos meios da inteligência criativa mineira, em 1963 tornou-se a primeira mulher eleita membro da Academia Mineira de Letras.

Paralelamente à poesia, sua versatilidade levou-a a publicar ensaios e traduções da obra do poeta italiano Dante Alighieri.

Seu último livro de poemas, Pousada do Ser, foi editado em 1982, três anos antes de sua morte em 1985, aos 84 anos de idade.

A Enciclopédia Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileira faz lembrar que muitos críticos, entre eles o português João Gaspar Simões, identificam o tema da morte como central na poesia de Henriqueta Lisboa, tendo-a apelidado, inclusive, de “poeta da morte”.

Segundo o ensaísta Paschoal Rangel, “[…] por causa dessa constante preocupação metafísica, a morte – talvez a mais filosófica das situações humanas – é uma das marcas mais inapagáveis da poesia de Henriqueta”.

Seu último livro, Pousada do Ser, é descrito por versos que denotam sua a importância para o pensamento e a arte da poeta:

Porém acima de qualquer assombro

aquele assombro vindo de antanho para atravessar o século

de ponta a ponta – flecha escusa –

e ser perene assombro dos mortais

a morte”.

Assim como outros autores do segundo período do modernismo, Henriqueta Lisboa envolveu-se com o desenvolvimento de uma corrente que se convencionou chamar de neossimbolismo. Esses autores, entre os quais se destacam Cecília Meireles, buscam equilibrar as novidades e a iconoclastia do primeiro grupo modernista com temas caros ao simbolismo, sobretudo de ordem espiritual e metafísica.

O Portal Don Oleari e a Coluna rendem tributo à poeta mineira, publicando três de seus poemas entre tantos que tocam profundamente coração e mente de quem os ler.

 

Rubens Pontes

Capim Branco, MG – 

– Passos, saltos & queda – Linki pra ler Passos, Saltos & Quedas, de Rubens Pontes.
http://online.anyflip.com/mitk/xjqj/mobile/index.html?fbclid=IwAR39mt-wlzHGKBAeTSG7cZOD4etEr38ocVyHkE-rPKkwvhpfI8qfvf7khLE#p=10

Dois poemas de Henriqueta Lisboa

A alma é um parque sob o luar.
Passa de leve a onda do vento,
fica a ilusão no seu lugar.
Vem feito flor o pensamento,
como quem vem para sonhar.
Gotas de orvalho.Sentimento.
Névoas tenuíssimas no olhar.
Tombam as horas, lento e lento,
como quem não nos quer deixar.
Êxtase. Vésperas. Advento.
Ouve! O silêncio vai falar!
Mas não falou…Foi-se o momento…
E não me canso de esperar”.

Os Lírios

Certa madrugada fria
irei de cabelos soltos
ver como crescem os lírios.

Quero saber como crescem
simples e belos – perfeitos! –
ao abandono dos campos.

Antes que o sol apareça,
neblina rompe neblina
com vestes brancas, irei.

Irei no maior sigilo
para que ninguém perceba
contendo a respiração.

Sobre a terra muito fria
dobrando meus frios joelhos
farei perguntas à terra.

Depois de ouvir-lhe o segredo
deitada por entre os lírios
adormecerei tranqüila.

Henriqueta Lisboa

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