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sexta, 15 de novembro de 2019

Aqui Wilson Côelho – Aprendizado do Etherno

 

 

Se entendemos a Patafísica, definida por Alfred Jarry em Gestas e opiniões do doutor Faustroll, patafísico, como a ciência das soluções imaginárias que atribui simbolicamente aos delineamentos as propriedades dos objetos descritos por sua virtualidade, a leitura do “Tratado dos Patagramas” (capa à esquerda), de René Daumal, traduzido por Eclair Antônio Almeida Filho e publicado pela Sol Negro Edições, é mais que um ritual de iniciação.

A tiragem dessa primeira edição no Brasil é de apenas 75 exemplares e todos eles são numerados.

Num certo sentido, René Daumal (à direita), o poeta, crítico, ensaísta, indianista, escritor e dramaturgo francês pode ser visto como um dos mais importantes elos entre Alfred Jarry, o suposto autor de Ubu Rei, e os patafísicos constituídos em corpo, onde a regra é uma exceção à exceção.

A obra e o autor em René Daumal são indissociáveis.

Assim, o Tratado dos Patagramas revela-se como “um epifenômeno que se acrescenta a um fenômeno, ou seja, ratifica a ideia daPatafísicacomo a ciência que se soma à Metafísica, bem como a si mesma e fora de si mesma, e se estende para além desta, tão distante como essa se encontra da física”.

A primeira edição de Le Traité des patagrammes foi realizada postumamente pelo Collège de `Pataphysique de Paris, no Cahier no 16, aos 8 de setembro de 1954, conforme o calendário vulgar, mas de acordo com os patafísicos, no 1º absolu 82 E.P. (Era Patafísica) que se considera a partir de 8 de setembro de 1873, dia do nascimento de Alfred Jarry.

Conforme Gilles Lesournois (Sournois é sorrateiro, em francês), personagem inventado por Eclair Antônio Almeida Filho “o opúsculo atômico, Tratado dos Patagramas foi telegrafado em sessenta e três telegramas transmitidos de René Daumal a Arthur Harfaux, entre 8 de setembro de 1932 e 8 de novembro de 1932.

Nele se amalgama em crysol a essência da Scientia Pataphysica: a recuperação e ampliação de todos os sentidos por meio de um total desregramento metodologicamente aplicado.

De rigor científico, o compêndio pataphysico desvela as etapas da impressão do som pela luz; prospecta diacrônica e sincronicamente a recognição da licantropia; e, ao analisar o fenômeno do ressurgimento “abcinis” da Fênix, aponta para a exibição aérea do Nome Impronunciável pelo Tetragrama.

Busca, pois, Daumal com seu Tratado orientar todo neófito da ‘Pataphysica a transver os fenômenos físicos, químicos e biológicos como partícipes do Um, tanto quanto permutáveis e integrantes uns dos outros”.

Para além da genialidade de René Daumal, no original, cabe aqui um destaque para o capixaba de Muqui, Eclair Antonio Almeida Filho (à direita), tradutor e professor de Tradução da UnB (Universidade de Brasília) que tem antes de Tratado dos Patagramas, traduzido 6 livros de Maurice Blanchot, 5 de Edmond Jabès, 2 de Louis-René des Forêts e outros desde Samuel Beckett, Allen Ginsberg, James Joyce e E. E. Cummings.

Também colaborou de 2004 a 2009 com traduções de artigos para a Revista Agulha.

No universo da patafísica, seu trabalho de tradução merece um grande reconhecimento pela maneira como extrapolando a mera transposição de uma língua, ele realiza um trabalho de praticamente coautoria no melhor dos sentidos. Foi assim que traduziu de Alfred Jarry, o Gestas e Opiniões do Doutor Faustroll, Pataphysico – Romance Neoscientifico, bem como A outra face (drama em cinco relatos) e Tratados Pataphisicos.

Além da riqueza e esmero dessas traduções, o mais impressionante é o processo pelo qual tais obras foram traduzidas. Por exemplo, para a tradução de Gestas e Opiniões do doutor Faustroll, pelas edições artesanais Nephe libata, ele criou um personagem que realizava as pesquisas para que ele fizesse as “transcrições” do francês arcaico para o português idem, com apresentação de Julien Schuh e prefácio de Boris Estrabao, alter-ego de Aderbal Freire-Filho.

Diploma da Ordre de la Grande Gidouille do Colégio de Patafísica concedido ao escritor Wilson Côelho. 

A título de ilustração, convém lembrar que, numa entrevista com Aderbal Freire-Filho, na TV Brasil, Eclair Antonio Almeida Filho, afirmando sua relação de respeito pelos livros no seu processo de tradução, lembra-nos que Gilles Deleuze e Félix Guattari, no ensaio Postulados de Linguística, dizem que a escola tem que dar ao aluno o máximo de linguagens possíveis e imagináveis e imaginárias, de modo que este se sinta estrangeiro em sua própria língua, mas que é um estrangeiro positivo, porque ele está sempre numa posição de estranhamento de face com algo desconhecido e que ele possa vir a aprender e que esse aprendizado seja eterno”.

Mas ele faz questão de ressaltar que esse eterno tem que ser com th, ou seja, éther. Tanto no sentido da mitologia grega do Éther como uma divindade primordial quanto no sentido do eterno.

Enfim, volto a afirmar que Tratado dos Patagramas, em seus cinco capítulos, é mais que um ritual de iniciação. É uma verdadeira porta de entrada ao mundo da patafísica e para um entendimento de que René Daumal levou muito a sério a proposta do grupo Phrères Simplistes (Irmãos simplistas), buscando, assim como Rimbaud, “a simplicidade da infância” e suas possibilidades de conhecimento intuitivo e espontâneo, através de práticas de investigação extra-sensorial, ou seja, colocando em prática o “desregramento de todos os sentidos”.

Também, como a proposta de “Le Grand Jeu” (O Grande Jogo) apresentar uma “linguagem analógica e várias camadas de escrita de entendimento”.

Voilà c’estfinidu príncipe.

Wilson Côelho – Poeta, tradutor, palestrante, dramaturgo e escritor com 17 livros publicados. Licenciado e bacharel em Filosofia e Mestre em Estudos Literários pela UFES (Universidade Federal do ES); Doutor em Literatura pela Universidade Federal Fluminense e Auditor Real do Collége de Pataphysique de Paris. Tem 22 espetáculos montados com o Grupo Tarahumaras de Teatro, com participação em festivais e seminários de teatro no país e no exterior – Espanha, Chile, Argentina, França e Cuba, ministrando palestras e oficinas. Também tem participado como jurado em concursos literários e festivais de música.

Foto de capa: Wilson Côelho recebe o diploma Diploma da Ordre de la Grande Gidouille do Colégio de Patafísica de Fernando Arrabal.

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