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sexta, 15 de novembro de 2019

Aqui Rubens Pontes: Meu poema de sábado – A Máquina do Mundo, de Carlos Drummond de Andrade

 

Lei 13131, de 3 de Junho de 2015

“Faço saber que o Congresso Nacional decreta e eu sanciono a seguinte Lei:

Art. 1º- É instituído o Dia Nacional da Poesia a ser celebrado anualmente no dia 31 de outubro em homenagem à data de nascimento de Carlos Drummond de Andrade.

Esta Lei entra em vigor na data de sua publicação.

Brasília, 3 de junho de 2015; 194º da Independência e 127º da República”.

O Projeto de Lei foi apresentado pelo senador Álvaro Dias, aprovado pelo Congresso Nacional e sancionado pela presidente Dilma Rousseff.

(Vale lembrar que o Dia Nacional do Poeta era até então comemorado no dia 14 de março,

data do nascimento de outro grande poeta, o condoreiro Castro Alves.)

Carlos Drummond de Andrade nasceu na cidade de Itabira, MG, no dia 31 de outubro de 1902.

Portal Dom Oleari e a coluna Meu Poema de Sábado registram a passagem de uma data tão

significativa, marcada no último dia de outubro passado, rendendo homenagem ao seu patrono, apontado como o principal nome da segunda geração do modernismo brasileiro.

Filho de pais fazendeiros na região de Itabira do Mato Dentro, Carlos Drumond de Andrade

estudou como interno em colégio jesuíta na cidade de Nova Friburgo, no Estado do Rio,

onde desde cedo manifestou intolerância com a prepotência e por isso foi expulso da instituição depois de haver discutido com seu professor de Português.

Formado em Odontologia e Farmácia pela Universidade Federal e Minas Gerais – UFMG, nunca exerceu a profissão, que sua vocação era outra como o tempo iria comprovar.

Como jornalista, foi redator-chefe do “Diário de Minas”, como professor lecionou Português e Geografia, e principalmente como poeta ganhou com seu trabalho dimensão internacional.

– “Se eu gosto de poesia? Gosto de gente, bichos, palavras, lugares, chocolate, vinho, papos amenos, amizade, amor. Acho que a poesia está contida nisso tudo”, revelou.

Certamente com isso e por isso seus poemas alcançam dimensão extra-terrena.

Carlos Drummond de Andrade merecia muito mais do que o título de “Doutor Honoris Causa” que lhe foi outorgado pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte .

O “Dia Nacional da Poesia” lhe fez afinal justiça.

O Portal e a Coluna se entenderam ao selecionar para publicação neste sábado o poema que, na
nossa sensibilidade, pode ser considerado sua obra prima entre dezenas de obras primas por ele
produzidas: “A Máquina do Mundo”.

Rubens Pontes
Capim Branco, MG

 

 

A Máquina do Mundo
Carlos Drummond de Andrade

E como eu palmilhasse vagamente
uma estrada de Minas, pedregosa,
e no fecho da tarde um sino rouco
se misturasse ao som de meus sapatos
que era pausado e seco; e aves pairassem
no céu de chumbo, e suas formas pretas
lentamente se fossem diluindo
na escuridão maior, vinda dos montes
e de meu próprio ser desenganado,
a máquina do mundo se entreabriu
para quem de a romper já se esquivava
e só de o ter pensado se carpia.
Abriu-se majestosa e circunspecta,
sem emitir um som que fosse impuro
nem um clarão maior que o tolerável
pelas pupilas gastas na inspeção
contínua e dolorosa do deserto,
e pela mente exausta de mentar
toda uma realidade que transcende
a própria imagem sua debuxada
no rosto do mistério, nos abismos.
Abriu-se em calma pura, e convidando
quantos sentidos e intuições restavam
a quem de os ter usado os já perdera
e nem desejaria recobrá-los,
se em vão e para sempre repetimos
os mesmos sem roteiro tristes périplos,
convidando-os a todos, em coorte,
a se aplicarem sobre o pasto inédito
da natureza mítica das coisas,
assim me disse, embora voz alguma
ou sopro ou eco ou simples percussão
atestasse que alguém, sobre a montanha,
a outro alguém, noturno e miserável,
em colóquio se estava dirigindo:
“O que procuraste em ti ou fora de
teu ser restrito e nunca se mostrou,
mesmo afetando dar-se ou se rendendo,
e a cada instante mais se retraindo,
olha, repara, ausculta: essa riqueza
sobrante a toda pérola, essa ciência
sublime e formidável, mas hermética,
essa total explicação da vida,
esse nexo primeiro e singular,
que nem concebes mais, pois tão esquivo
se revelou ante a pesquisa ardente
em que te consumiste… vê, contempla,
abre teu peito para agasalhá-lo.”
As mais soberbas pontes e edifícios,
o que nas oficinas se elabora,
o que pensado foi e logo atinge
distância superior ao pensamento,
os recursos da terra dominados,
e as paixões e os impulsos e os tormentos
e tudo que define o ser terrestre
ou se prolonga até nos animais
e chega às plantas para se embeber
no sono rancoroso dos minérios,
dá volta ao mundo e torna a se engolfar,
na estranha ordem geométrica de tudo,
e o absurdo original e seus enigmas,
suas verdades altas mais que todos
monumentos erguidos à verdade:
e a memória dos deuses, e o solene
sentimento de morte, que floresce
no caule da existência mais gloriosa,
tudo se apresentou nesse relance
e me chamou para seu reino augusto,
afinal submetido à vista humana.
Mas, como eu relutasse em responder
a tal apelo assim maravilhoso,
pois a fé se abrandara, e mesmo o anseio,
a esperança mais mínima — esse anelo
de ver desvanecida a treva espessa
que entre os raios do sol inda se filtra;
como defuntas crenças convocadas
presto e fremente não se produzissem
a de novo tingir a neutra face
que vou pelos caminhos demonstrando,
e como se outro ser, não mais aquele
habitante de mim há tantos anos,
passasse a comandar minha vontade
que, já de si volúvel, se cerrava
semelhante a essas flores reticentes
em si mesmas abertas e fechadas;
como se um dom tardio já não fora
apetecível, antes despiciendo,
baixei os olhos, incurioso, lasso,
desdenhando colher a coisa oferta
que se abria gratuita a meu engenho.

A treva mais estrita já pousara
sobre a estrada de Minas, pedregosa,
e a máquina do mundo, repelida,
se foi miudamente recompondo,
enquanto eu, avaliando o que perdera,
seguia vagaroso, de mãos pensas.

Este poema foi escolhido como o melhor poema brasileiro de todos os tempos por um grupo significativo de escritores e críticos, a pedido do caderno “MAIS” (edição de 02-01-2000), publicado aos domingos pelo jornal “Folha de São Paulo”. Publicado originalmente no livro “Claro Enigma”, o texto acima foi extraído do livro “Nova Reunião”, José Olympio Editora – Rio de
Janeiro, 1985, pág. 300.

 

 

 

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