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sbado, 14 de dezembro de 2019

Aqui Rubens Pontes: Meu poema de sábado – A silhueta da verdade, de Aires de Brito

 

Foi à tarde e confesso que minha observação pode ter sido prejudicada pela pecaminosa modorra pós feijão tropeiro servido no almoço.

A televisão ligada em canal de notícias, mais por hábito, mostrava uma espécie de conserto musical num recinto que me parecia familiar.

Havia um maestro com batuta na mão, usando um fraque que me parecia, pomposo e esguio, uma toga. O grupo de músicos que formava a orquestra

era surpreendentemente pequeno, onze apenas, mas capazes de produzir efeitos sonoros inusitados, para mim dissonantes, mostrando nitidamente

um descompasso entre alguns executantes e o maestro. Talvez porque, entre todos, um especialmente se sobrepunha à direção tímida do dirigente,

usando sua tuba como uma espécie de tacape ameaçador.

Percebi ainda que cinco músicos estavam meio fora do tom ditado, menos pelo impotente manuseio da batuta do maestro, do que pelos

furiosos e patéticos acordes do homem da tuba.,

Já inteiramente desperto, tomado de perplexidade, fiquei imaginando Frederico Chopin rolando de santa ira na sua campa ao ver e ouvir, sem entender,

a dissonante tentativa de execução da ‘Marcha Fúnebre’ com desdobramentos efeitos de uma marcha fúnebre imposta sobre todos nós.

Lembra-me companheiro do Portal que essa “orquestra” passará e que seu maestro e o homem da tuba não terão lugar na magnifica história

deixada pelos que os antecederam.

“O homem da tuba – disse-me ele – com todo esse despudor, foi no entanto, em outro palco, entre os anos de 1990 e 2002, um mero tocador de flauta doce,

acolhido sob o manto protetor de patronos governamentais.”

Não se pretende tripudiar, mas chega a doer a comparação entre o que é e o que foi, com a lembrança de nomes como os de Nelson Hungria (à direita),

Orozimbo Nonato (à esquerda), Aliomar Baleeiro, Evandro Lins e Silva, Victor Nunes Leal, Adauto Lúcio Cardoso, Bilac Pinto (abaixo, à direita),

nenhum pretendendo ser solista, embora todos eles pudessem ser.

Pode até não ter nada a ver com isso, mas como a Coluna é sobre poesia, o Portal e o colunista escolheram um nome e um dos seus poemas, com a certeza

de que nesses tresloucados tempos em que vivemos, a seriedade com que exerceu a função de “maestro”, sua postura impecável, seu rigoroso

sentimento de justiça democrática, equânime e justo, este sim, como tantos outros que honraram a toga, jamais executaria no sagrado recinto em que atuou, a Marcha Fúnebre que hoje nos enluta.

O nome dele é Carlos Augusto Ayres de Freitas Brito (à esquerda), brilhante mestre do Direito, equilibrado e sensato Presidente da Corte, aposentado em 2012, após 9 anos de plena e irretocável atuação como ministro..

E o fato que no caso é igualmente importante para o Portal e para o colunista:

– Ayres Britto é um cidadão voltado para a meditação e para a poesia, ambas uma rotina na sua vida.

Há um certo sentimento de orgulho norteando a escolha de um de seus poemas para leitura neste sábado:

A SILHUETA DA VERDADE

NP: O poema foi escrito em 2012 – premunição?

Rubens Pontes
Capim Branco, MG

Pra ler Passos, Saltos & Quedas, de Rubens Pontes:
http://online.anyflip.com/mitk/xjqj/mobile/index.html?fbclid=IwAR39mt-wlzHGKBAeTSG7cZOD4etEr38ocVyHkE-rPKkwvhpfI8qfvf7khLE#p=10

A SILHUETA DA VERDADE

Ayres Britto

A silhueta da verdade só se assenta em vestidos transparentes,

ao contrário da roupa no tanque ou nas pedras do rio.

Quanto mais se torce a verdade, mais ela encarde.

O pior juiz é o que faz de sua caneta um pé de cabra.

Quando um povo pega o touro da corrupção à unha

monta relâmpago em pelo e não cai.

Não tenho metas ou objetivos a alcançar.

Tenho princípios

e na companhia deles nem me pergunto aonde vou chegar.

Ética: a arte mais alta de se dar ao respeito.

Especialidade dos vigaristas é conciliar voz fluente e pensamento gago.

Há quem tenha por fim não ter princípios.

Conservador é um sujeito movido a imobilismo.

O sangue da vida também flui pelas veias das palavras.

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