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sbado, 11 de julho de 2020

Aqui Rubens Pontes: Meu poema de sábado – Annabel Lee, de Edgar Allan Poe

 

 

Fernando Pessoa versejou:

“Eu amo tudo que foi
tudo o que já não é.
A dor que já não me dói
a antiga e errônea fé.
O ontem que a dor deixou
o que deixou alegria.
Só porque foi e voou
e hoje já é outro dia.

Rita Lee cantou:

“A vida tem disso
 no fim tudo faz sentido.
Então até mais.
Não adianta olhar para trás”.

Guimarães Rosa escreveu:

“Quando o coração está mandando, todo o tempo é tempo”.

Aqui Rubens Pontes

– INQUISITOR

GENERALIS DON OLEARI

Afinal, entramos todos nós no último mês de um ano turbinado por conflitantes emoções,

algumas poucas vitórias e conquistas e certamente muitas frustrações e algum desalento.

Estamos cumprindo um calendário meio maluco, criado pelo Papa Gregório XIII mais de 1 mil e 600 anos depois da antiga bula ditada por Júlio César.

Fora do chamado Calendário Gregoriano – iniciado com reação negativa pela Grã Bretanha, Japão, Rússia e China, que só o adotaram muitos anos depois.

Para os muçulmanos o inicio do novo ciclo será comemorado na data em que Maomé saiu de Medina em direção a Meca, no ano de 622 depois de Cristo, e para os judeus no ano em que Deus criou o homem – atuais 5779.

Vivemos, no entanto, a realidade que somente será alterada no ano de 4. 909, quando deverá ser adiantado um dia inteiro para correção de erros em relação ao ano solar verdadeiro – os anos bissextos.

Poetas, mais do que físicos e astrônomos, tratam o tema inspirados em emoções que falam da passagem do tempo com o mesmo com sentimento de ternura para o que já foi e para o que virá.

“Eu amo tudo que foi”, “não adianta olhar pra trás”, “quando o coração está mandando todo o tempo é tempo” .

Devemos no entanto, com nostalgia, reconhecer que o tempo se mostra muitas vezes apressado, negando o amanhã para quem muito ainda nos poderia doar no plano da sensibilidade humana.

Me reporto ao episódio que marcou a morte, aos 40 anos de idade, de um dos mais importantes nomes da literatura mundial.

Em 1849, um homem, vestindo uma roupa que não era sua, trôpego e sem memória, percorria as ruas de Baltimore, nos Estados Unidos.

Morreu poucos dias depois no hospital para onde fora levado, presumidamente por coma alcoólico, identificado como Edgard Allan Poe, um dos mais importantes nomes da cultura norte-americana, escritor, poeta, editor, crítico literário, cineasta.

Autor de obras imortais como”O Corvo”, o seu amanhã encurtado só seria alongado nas obras que nos deixou.

Entre elas, “Annabel Lee”, poema escrito no ano de sua morte, selecionado para a coluna deste sábado.

Rubens Pontes
Capim Branco, MG

Jornalista, escritor

Annabel Lee

Edgar Allan Poe

Foi há muitos e muitos anos já,
Num reino ao pé do mar.
Como sabeis todos, vivia lá
Aquela que eu soube amar;
E vivia sem outro pensamento
Que amar-me e eu a adorar.
Eu era criança e ela era criança,
Neste reino ao pé do mar;
Mas o nosso amor era mais que amor —
O meu e o dela a amar;
Um amor que os anjos do céu vieram
a ambos nós invejar.
E foi esta a razão por que, há muitos anos,
Neste reino ao pé do mar,
Um vento saiu duma nuvem, gelando
A linda que eu soube amar;
E o seu parente fidalgo veio
De longe a me a tirar,
Para a fechar num sepulcro
Neste reino ao pé do mar.
E os anjos, menos felizes no céu,
Ainda a nos invejar…
Sim, foi essa a razão (como sabem todos,
Neste reino ao pé do mar)
Que o vento saiu da nuvem de noite
Gelando e matando a que eu soube amar.
Mas o nosso amor era mais que o amor
De muitos mais velhos a amar,
De muitos de mais meditar,
E nem os anjos do céu lá em cima,
Nem demônios debaixo do mar
Poderão separar a minha alma da alma
Da linda que eu soube amar.
Porque os luares tristonhos só me trazem sonhos
Da linda que eu soube amar;
E as estrelas nos ares só me lembram olhares
Da linda que eu soube amar;
E assim ‘stou deitado toda a noite ao lado
Do meu anjo, meu anjo, meu sonho e meu fado,
No sepulcro ao pé do mar,
Ao pé do murmúrio do mar.

Texto de Edgar Allan Poe;Tradução de Fernando Pessoa; Leitura de Dan Cilva; Trilha de Sergey Cheremisinov.

 

– Passos, saltos & queda – Linki pra ler Passos, Saltos & Quedas, de Rubens Pontes.
http://online.anyflip.com/mitk/xjqj/mobile/index.html?fbclid=IwAR39mt-wlzHGKBAeTSG7cZOD4etEr38ocVyHkE-rPKkwvhpfI8qfvf7khLE#p=10

 

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