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sexta, 28 de fevereiro de 2020

Aqui Rubens Pontes: Meu poema de sábado – Receita de Ano Novo e Passagem de Ano, de Drummond; Esperança, de Quintana; Ano Novo, de Gullar

Último final de semana de 2020 e o Portal Don Oleari, sem falsa modéstia, se sente recompensado pelo cumprimento da missão a que se propôs de divulgar, com isenção, informações de interesse de quem nos acompanha.

Nossa meta é corrigir eventuais lapsos nesse propósito e aprimorar o mecanismo de informar e propiciar alguns momentos de enlevo na dura batalha pelo nosso pão de cada dia. De 1º de janeiro a 31 de dezembro – sem uma única interrupção.

A Coluna segue esse padrão de jornalismo, buscando paralelamente, com seu Poema de Sábado, cumprir a filosofia do Portal de divulgação de autores que merecem, por sua vida e sua obra, ter seu nome alçado à gloria da imortalidade.

No nosso último brain storm virtual de 2019, entendeu-se que este espaço seria ocupado por mensagens que marcam a expectativa de mudança no calendário capaz de abrir no horizonte aquela esperança sempre sonhada de tempos melhores.

Em assim sendo, assim registramos, saudando com orgulho os membros, e seus descendentes, das famílias que deixaram sua terra de origem e vieram plantar bandeira nas doces terras capixabas.

Rubens Pontes
Capim Branco, MG

Passos, Saltos & Quedas, de Rubens Pontes.
http://online.anyflip.com/mitk/xjqj/mobile/index.html?fbclid=IwAR39mt-wlzHGKBAeTSG7cZOD4etEr38ocVyHkE-rPKkwvhpfI8qfvf7khLE#p=10

Frases de Ano Novo

 “Ano novo, vida velha. A vida é mais do que calendários, fusos ou órbita gravitacional.”

Carlos Heitor Cony

***

“Não pedi coisas demais para não confundir Deus que à meia-noite de ano novo está tão ocupado.”

Clarice Lispector

***

“Renova-te.
Renasce em ti mesmo.
Multiplica os teus olhos, para verem mais.
Multiplica-se os teus braços para semeares tudo.
Destrói os olhos que tiverem visto.
Cria outros, para as visões novas.
Destrói os braços que tiverem semeado,
Para se esquecerem de colher.
Sê sempre o mesmo.
Sempre outro. Mas sempre alto.
Sempre longe.
E dentro de tudo.”

Cecília Meirelles

***

“ano novo
anos buscando
um animo novo”

Paulo Leminski

***

Passagem do Ano

Carlos Drummond de Andrade

O último dia do ano
não é o último dia do tempo.
Outros dias virão
e novas coxas e ventres te comunicarão o calor da vida.
Beijarás bocas, rasgarás papéis,
farás viagens e tantas celebrações
de aniversário, formatura, promoção, glória, doce morte com sinfonia
e coral,
que o tempo ficará repleto e não ouvirás o clamor,
os irreparáveis uivos
do lobo, na solidão.

O último dia do tempo
não é o último dia de tudo.
Fica sempre uma franja de vida
onde se sentam dois homens.
Um homem e seu contrário,
uma mulher e seu pé,
um corpo e sua memória,
um olho e seu brilho,
uma voz e seu eco,
e quem sabe até se Deus…

Recebe com simplicidade este presente do acaso.
Mereceste viver mais um ano.
Desejarias viver sempre e esgotar a borra dos séculos.
Teu pai morreu, teu avô também.
Em ti mesmo muita coisa já expirou, outras espreitam a morte,
mas estás vivo. Ainda uma vez estás vivo,
e de copo na mão
esperas amanhecer.

O recurso de se embriagar.
O recurso da dança e do grito,
o recurso da bola colorida,
o recurso de kant e da poesia,
todos eles… e nenhum resolve.

Surge a manhã de um novo ano.
As coisas estão limpas, ordenadas.
O corpo gesto renova-se em espuma.
Todos os sentidos alerta funcionam.
A boca está comendo vida.
A boca está entupida de vida.
A vida escorre da boca,
lambuza as mãos, a calçada.
A vida é gorda, oleosa, mortal, sub-reptícia.

Carlos Drummond de Andrade

Acreditar nos valores humanos e a ser otimista.
Aprendi que mais vale tentar do que recuar…
Antes acreditar que duvidar, o que vale na vida não é o ponto de partida e sim a nossa caminhada.”
Cora Coralina

– “Um homem precisa se queimar em suas próprias chamas pra poder renascer das cinzas!” Friedrich Nietzsche

Carlos Drummond de Andrade e Mario Quintana

Esperança

Mario Quintana

“Lá bem no alto do décimo segundo andar do ano
Vive uma louca chamada Esperança
E ela pensa que quando todas buzinas
Todos os tambores
Todos os reco-recos tocarem:
– Ó delicioso vôo!
Ela será encontrada miraculosamente incólume na calçada – outra vez criança
E em torno dela indagará o povo:
– Como é o teu nome, meninazinha dos olhos verdes?
E ela lhes dirá
( É preciso dizer-lhes tudo de novo )
Ela lhes dirá bem alto, para que não se esqueçam:
– O meu nome é ES – PE – RAN – ÇA …”

Mario Quintana

– “Que as palavras do ano passado pertençam à linguagem do ano passado. E que o novo ano nos aguarde com uma nova voz.”

Receita de Ano Novo

Carlos Drummond de Andrade

Para você ganhar belíssimo Ano Novo
cor do arco-íris, ou da cor da sua paz,
Ano Novo sem comparação com todo o tempo já vivido
(mal vivido talvez ou sem sentido)
para você ganhar um ano
não apenas pintado de novo, remendado às carreiras,
mas novo nas sementinhas do vir-a-ser;
novo
até no coração das coisas menos percebidas
(a começar pelo seu interior)
novo, espontâneo, que de tão perfeito nem se nota,
mas com ele se come, se passeia,
se ama, se compreende, se trabalha,
você não precisa beber champanha ou qualquer outra birita,
não precisa expedir nem receber mensagens
(planta recebe mensagens?
passa telegramas?)
Não precisa
fazer lista de boas intenções
para arquivá-las na gaveta.
Não precisa chorar arrependido
pelas besteiras consumadas
nem parvamente acreditar
que por decreto de esperança
a partir de janeiro as coisas mudem
e seja tudo claridade, recompensa,
justiça entre os homens e as nações,
liberdade com cheiro e gosto de pão matinal,
direitos respeitados, começando
pelo direito augusto de viver.

Para ganhar um Ano Novo
que mereça este nome,
você, meu caro, tem de merecê-lo,
tem de fazê-lo novo, eu sei que não é fácil,
mas tente, experimente, consciente.
É dentro de você que o Ano Novo
cochila e espera desde sempre.

(Carlos Drummond de Andrade)

Ano Novo”

Ferreira Gullar

Rubens Pontes acrescenta:

– É o meu preferido sobre a data oficial. É, a meu ver, o mais lírico, num tom menos ranzinza do que os outros e mais amoroso/generoso com a inocência humana.

Meia-noite. Fim

de um ano, início

de outro. Olho o céu:

nenhum indício.

Olho o céu:

o abismo vence o

olhar. O mesmo

espantoso silêncio

da Via-Láctea feito

um ectoplasma

sobre a minha cabeça

nada ali indica

que um ano novo começa.

E não começa

nem no céu nem no chão

do planeta:

começa no coração.

Começa como a esperança

de vida melhor

que entre os astros

não se escuta

nem se vê

nem pode haver:

que isso é coisa de homem

esse bicho

estelar

que sonha

(e luta).

 

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